JBS comprou de fazendas flagradas com trabalho escravo e desmatamento ilegal

A JBS comprou gado de fazendas que foram flagradas com trabalho escravo contemporâneo e desmatamento ilegal. A revelação foi feita por investigação da Repórter Brasil em parceria com o jornal britânico The Guardian e levou o mercado inglês Waitrose, sétimo maior da Inglaterra, a retirar a carne da empresa brasileira de suas prateleiras. A Inglaterra é um dos 150 países que importam carne da JBS. A reportagem rastreou a carne da empresa brasileira em alguns dos maiores mercados do Reino Unido, como o Waitrose, Sainsbury’s, Marks & Spencer, Co-Op, Lidl e Princes. Alguns deles vendem a carne brasileira em latas que levam a marca do próprio mercado. O NHS, sistema de saúde público britânico, também tem fornecedor que compra da empresa brasileira. As violações foram cometidas por fornecedores da JBS no Pará. A empresa alega ter parado de comprar dos fornecedores assim que as informações vieram a público (leia resposta na íntegra). O caso de trabalho escravo entre fornecedores da empresa foi flagrado em fazenda de gado fiscalizada pela operação Rios Voadores em 2015. A equipe, formada por Ibama, Ministério Público Federal e Polícia Federal, encontrou trabalhadores dormindo em barracos sem paredes, portas ou qualquer proteção contra insetos ou cobras – muito comuns na região próxima à mata fechada. A água para beber era retirada do mesmo rio onde os bois bebiam e defecavam. Não havia geladeira ou condições mínimas de higiene para manter a comida. O quadro foi caracterizado como trabalho análogo ao de escravo na denúncia feita pelo Ministério Público Federal, onde consta ainda a existência da escravidão por dívida. Os custos da alimentação e dos poucos...

Reforma trabalhista: maior parte da mídia não aborda o impacto negativo das mudanças

“Modernizar” uma legislação “anacrônica”, privilegiando a negociação entre patrões e empregados com o objetivo de dinamizar a economia e favorecer a retomada dos empregos. Esse foi o principal argumento da cobertura sobre a reforma trabalhista nos principais veículos do país, conforme levantamento feito pela Repórter Brasil. O Jornal da Record foi o menos crítico à proposta apresentada pelo governo, com 100% das reportagens favoráveis. O Globo foi o segundo mais alinhado, com 88% do conteúdo suportando o que defende o Palácio do Planalto. Em seguida, aparecem o Jornal Nacional (77%) e O Estado de S.Paulo (68%). A Folha de S.Paulo (42%) destoou dos outros veículos, já que criticou a proposta em mais de metade dos seus textos. Para chegar a essa conclusão, a Repórter Brasil analisou mais de 150 textos dos três jornais de maior projeção nacional – Folha, O Globo e Estadão – e 30 minutos de matérias dos dois principais telejornais – Jornal Nacional e Jornal da Record.  Foram avaliados os cinco dias anteriores e os cinco posteriores à aprovação do relatório do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) na comissão especial da Câmara: de 20 a 30 de abril de 2017. Conteúdos em que prevaleciam o detalhamento da proposta, sem a apresentação de contrapontos, ou quando o apoio era explícito foram avaliados como favoráveis e alinhados ao governo. Esse é o critério utilizado pelas maiores empresas do Brasil especializadas em análise de imagem e reputação. Entre os veículos analisados, o Jornal da Record foi o que reverberou mais explicitamente a ideia de que as mudanças pretendidas pela gestão do presidente Michel Temer abrirão novas vagas no mercado. Reforçou essa tese...

Previdência Social: por que a conta do governo e dos seus críticos é tão diferente?

A discussão em torno da reforma da Previdência vem acompanhada de um debate acalorado e confuso. As contas da aposentadoria fecham? Existe, ou não, o chamado deficit da Previdência? O governo federal diz que há um rombo bilionário, enquanto vídeos e artigos de entidades contrárias à reforma martelam que a conta não está no vermelho. Mas quem, afinal, tem a razão? Qual é a conta certa? A Repórter Brasil entrou no meio dessa queda de braço para esclarecer por que os cálculos que têm sustentado os argumentos sobre a reforma da Previdência são tão diferentes. Questões técnicas e ideológicas se misturam, enquanto 100 milhões de trabalhadores serão afetados pela interpretação desses números. Entenda quais as contas possíveis sobre a Previdência, quem está por trás delas e quais os problemas de cada uma.  A Previdência deve ser vista isoladamente?   A diferença nas contas começa com a escolha do que colocar em cada lado desse balanço. Alguns economistas defendem uma conta simples, somente com os gastos e a arrecadação do INSS isolados. Outros acreditam que a conta deve ser feita com mais itens do orçamento do governo, dentro da chamada Seguridade Social. O orçamento do INSS é visto de maneira isolada pelo governo, economistas pró-ajuste fiscal, mercado financeiro e até emissoras de televisão. Em sua  conta eles consideram apenas o que é arrecadado em folhas de pagamento e o que é gasto com as aposentadorias e demais benefícios do INSS. Segundo estudo do Dieese, esse olhar isolado das contas da Previdência pode ser chamado de fiscalista, pois tem como base a Lei de Responsabilidade Fiscal. As contas do INSS realmente...

Sobreviventes de massacre no Pará descrevem execução e tortura

Os policias militares do Pará teriam rendido e torturado os trabalhadores rurais sem terra antes de disparar tiros fatais contra eles, relatam os sobreviventes do massacre que tirou a vida de dez pessoas no sudeste do Pará. O crime ocorreu no dia 24 de maio na fazenda Santa Lúcia, área de Pau D’Arco, então ocupada por posseiros. A Repórter Brasil colheu o relato de dois deles e teve acesso ao depoimento de um terceiro. Todos deram depoimentos ao Ministério Público Federal, que já ouviu seis de quinze sobreviventes. Há dois considerados como desaparecidos. “A gente ouviu alguns colegas chorando antes de morrer”, diz sobrevivente As revelações não apenas contestam a versão da Polícia Civil e Militar, que declarou ter sido recebida na fazenda a tiros, como sugere que o crime envolveu tortura e crueldade. A versão do confronto fora questionada desde o início porque os policiais não apresentavam ferimentos, enquanto os dez trabalhadores foram levados mortos ao hospital. A movimentação dos corpos foi apontada como adulteração do local do crime pela subprocuradora-geral da República Deborah Duprat, que participou da perícia. Os relatos são fortes. Tudo começou quando o grupo de posseiros relata ter visto o comboio da polícia chegando, de longe, e  correram para se esconder na mata fechada. Foi quando eles  abriram uma lona preta para se proteger da chuva, que a polícia os teria surpreendido, aos gritos de: “É a polícia, porra. Quem correr, morre”. Os sobreviventes fugiram sob fogo, alguns alvejados de raspão na cabeça ou pelas costas. “A polícia chegou atirando”, foi frase repetida por mais de um sobrevivente. Um deles diz ter ouvido: “pode...

Esperança de dias melhores

O mais recente período de crescimento econômico brasileiro, vivido especialmente durante os dois mandatos de Lula e o primeiro de Dilma Rousseff, reforçou o país como destino para imigrantes de diversas partes do mundo, sobretudo dos vizinhos sul-americanos, de nações africanas e do Haiti. Ainda que a crise econômica atual tenha incentivado o retorno de alguns contingentes, quem ficou ainda está submetido a uma legislação herdeira da ditadura militar, o Estatuto do Estrangeiro, moldado pela visão de que o imigrante pode representar um risco para a segurança nacional. É nesse contexto que ganhou força, há cerca de quatro anos, um debate no Congresso e na sociedade civil para a criação de um novo marco legal para os imigrantes. A nova Lei de Migração foi finalmente aprovada em abril e, agora, aguarda sanção presidencial. Em um contexto de tantos retrocessos normativos, como é o caso da reforma trabalhista em debate no parlamento, a nova legislação é vista de modo positivo pela sociedade civil. A Conectas Direitos Humanos, uma organização não governamental baseada em São Paulo, acompanha a discussão desde o início e avalia que o novo marco não só repudia a discriminação e a xenofobia, mas também traz mudanças concretas para os imigrantes. Segundo Pétala Brandão, que atua na organização, “o imigrante finalmente teria a autorização de formar um sindicato, se manifestar e se beneficiar dos serviços públicos como saúde, educação, trabalho e moradia”. Leia mais: “Não somos escravos”, imigrantes revelam estigma e como combatem crime Quer mais lucro? Terceirize a obra e alicie imigrantes “Alguns brasileiros tratam os haitianos como escravos” Ela também destaca à Repórter Brasil que a...

Trabalhador queima metade do corpo após Justiça liberar máquina interditada

No início de março, Joel Valdemiro de Borba teve 70% do corpo queimado em uma máquina de pintar tecidos na Nobre Indústria Têxtil, em Gaspar, Santa Catarina. Dez dias depois do acidente, um auditor fiscal do trabalho interditou essa e outras máquinas devido ao risco de novos acidentes acontecerem. Mas a Justiça liberou o funcionamento alegando que o auditor não interditou imediatamente as máquinas (portanto, não haveria risco), que a empresa demonstrava “certa boa vontade” em corrigir o problema e que sua interrupção traria prejuízos financeiros à empresa e aos trabalhadores. Oito dias depois da liberação, outro trabalhador, Alexandre Souza da Silva, queimou 45% do seu corpo em máquina semelhante no mesmo local. Dois meses após o primeiro acidente, a fábrica continua a funcionar normalmente, ainda amparada pela mesma medida liminar. Procurada, a empresa, através de nota da sua advogada, afirmou que “está dando apoio aos acidentados e internamente vem promovendo sindicância nas máquinas.” Leia a íntegra da resposta da Nobre. O caso é um dos diversos onde magistrados liberaram o funcionamento de máquinas após auditores fiscais do trabalho apontarem que elas não davam segurança aos trabalhadores. “A Justiça do Trabalho tem muitas vezes deferido a suspensão das interdições ambientais sob o argumento de preservação de empregos e de contratos comerciais das empresas infratores, pondo em risco a integridade física dos obreiros,” diz um estudo dos procuradores do trabalho André Magalhães Pessoa e Ilan Fonseca de Souza. Os procuradores analisaram diversos casos semelhantes, e chegaram a conclusão de que não há uma relação entre a paralisação temporária das atividades de uma empresa e a perda de vagas de emprego. Segundo os...