Sindicato dos trabalhadores aposta em ações judiciais contra hotéis

A Repórter Brasil entrevistou o diretor-executivo do Sinthoresp (Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Apart Hotéis, Motéis, Flats, Restaurantes, Bares, Lanchonetes e Similares de São Paulo e Região), Rubens Fernandes, a fim de compreender melhor a situação dos trabalhadores e trabalhadoras do setor hoteleiro – e, complementarmente, conhecer um pouco da atuação do sindicato quanto a essa situação. Além de destacar as principais frentes de trabalho do Sinthoresp, Fernandes discorreu sobre os demais órgãos de defesa e proteção dos direitos dos trabalhadores do setor, e explicou em que contexto se deu a nova eleição para a diretoria do Sinthoresp. Na eleição, realizada nos dias 17, 18 e 19 de outubro, a atual diretoria e o grupo que historicamente fazia oposição a ela se uniram em uma única chapa – tanto para contornar um imbróglio jurídico da eleição anterior, ocorrida em 2013, quanto para reforçar a atuação da entidade. O resultado da eleição apontou para 93,86% dos votos para a única chapa participante, intitulada Chapa 1 e que representa a continuidade do trabalho da diretoria anterior, com o reforço de alguns integrantes da oposição de outrora. Leia mais: O que hotéis não contarão a seus hóspedes neste verão Um grave acidente. E tudo seguiu como antes Sonhos e decepções de um imigrante haitiano no Brasil Sindicato dos trabalhadores aposta em ações judiciais contra hotéis Com relação aos testemunhos dos personagens da reportagem segundo os quais as condições de trabalho nos hotéis apresentam uma série de problemas, e que o desrespeito aos direitos trabalhistas é marcante, especialmente no caso das camareiras, o diretor do Sinthoresp afirma que “não se consegue a perfeição,...

O que hotéis não contarão a seus hóspedes neste verão

Jornadas excessivas de trabalho sem remuneração adicional, acúmulo de funções, remuneração baixa mesmo em se tratando de um dos setores da economia que mais cresce no mundo, episódios frequentes de assédio moral e sexual e baixo grau de proteção institucional aos empregados. Essa é a realidade a qual as trabalhadoras e trabalhadores do setor hoteleiro têm de conviver diariamente, em especial as camareiras – a subcategoria mais numerosa e considerada a mais desprotegida e explorada do segmento. A receita dos hotéis brasileiros registra dez anos seguidos de crescimento, segundo dados consolidados de 2014 da pesquisa “Hotelaria em números”, realizada há 22 anos pela consultoria JLL. Com a desvalorização do real em relação ao dólar a partir de 2013, o Brasil atraiu mais estrangeiros e, mesmo em cenário de crise política e econômica, todo o setor hoteleiro se expandiu. Os resorts foram os estabelecimentos que mais se beneficiaram. Em comparação a 2013, o faturamento total desse tipo de hospedagem, que reúne recreação e divertimento, cresceu 33,4% e o resultado operacional bruto registrou aumento de 2,8% em 2014. Após a Copa do Mundo de 2014, o cenário dos dados relativos a 2015, a ser divulgado, tende a ser ainda melhor, por conta da expectativa e criada em torno das Olimpíadas no Rio de Janeiro.   A Organização Mundial do Turismo, ligada às Nações Unidas, informou que 1,184 bilhão de pessoas cruzaram alguma fronteira em viagens de lazer em 2015. As estimativas da organização para 2030 é que haverá 1,8 bilhão de chegadas turísticas internacionais. “As perspectivas de crescimento para o turismo são favoráveis, considerando os números da China, um gigante cujos habitantes há pouco tempo...

Um grave acidente. E tudo seguiu como antes

“Trabalho atualmente como camareira em um grande hotel na região sul de São Paulo. Sou registrada. Estou há cerca de três anos nesse emprego. É meu primeiro trabalho em uma rede de hotel. Já trabalhei em várias empresas do setor metalúrgico, na região de Guarulhos. E trabalhei de atendente na Cacau Show. Durante mais ou menos seis anos em que estive na área metalúrgica, nunca tive nada, nenhum problema. Sempre participei da Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes]. Acho que nesse setor os trabalhadores são mais respeitados, mais organizados. Leia mais: O que hotéis não contarão a seus hóspedes neste verão Um grave acidente. E tudo seguiu como antes Sonhos e decepções de um imigrante haitiano no Brasil Sindicato dos trabalhadores aposta em ações judiciais contra hotéis Na rede hoteleira, foca-se muito no hóspede, no atendimento, em agradar – e acabam não enxergando a pessoa que trabalha. Querem que esteja tudo perfeito para o hóspede, a imagem do hotel, e acabam esquecendo o funcionário. Ele só tem que produzir, fazer tudo, é muita pressão.  Já vivenciei casos de a pessoa estar bem doente, mal mesmo, não estar aguentando, e falarem para ela ‘só vai sair daqui quando acabar o relatório’. Como se a pessoa fosse de ferro, uma máquina. Sofri um acidente. O hóspede jogou uma agulha usada no lixo do banheiro. Não tem caixinha para recolher seringa descartável ou coisas semelhantes, não tem nada assim no hotel. Coloquei o saco de lixo do banheiro dentro do saco preto do lixo geral. Quando fui empurrar o carrinho, senti algo furando a minha perna. Fui tatear o saco e...

Sonhos e decepções de um imigrante haitiano no Brasil

Nascido em Porto Príncipe, capital do Haiti, Benjamin [nome fictício] tem 21 anos e trabalha em uma tradicional rede de hotéis na região da avenida Paulista, em São Paulo. Seu ingresso no setor se deu por meio de um curso da YCI (Youth Career Iniciation), que direciona vários alunos para hotéis da cidade. “São nove horas de curso por dia, tanto da área prática quanto teoria, tem inglês também”, conta ele. Para fazer o curso, o aluno conta com apoio para as refeições e vale transporte. “Ao final, perguntam de qual departamento do hotel você mais gostou, e você assinala as três áreas que gostou mais. Eu assinalei room service, manutenção e eventos. O hotel só tinha vaga em manutenção, e fui efetivado”, explica. Do total do grupo em que Benjamin estudou, havia seis pessoas, duas desistiram do curso, duas foram efetivadas e duas não. A outra pessoa efetivada foi para a cozinha, área que não agradava muito a Benjamin. Ele conta que era o único estrangeiro da turma, e que “estava procurando cursos para fazer, fiquei sabendo a respeito na área da República, e uma moça me encaminhou para esse”. Benjamin morou um tempo no centro da capital paulista, e depois mudou-se para a Zona Leste. Entre seus sonhos, “pensava em fazer faculdade de engenharia, mas agora estou mudando de ideia, pensando em fazer Relações Internacionais”. Com a crise, a situação ficou muito difícil e pessoas que eram legais ficaram mais agressivas aqui Enquanto a oportunidade de fazer uma faculdade não chega, Benjamin investe no seu novo trabalho. “A gente quer ser promovido, tem que se esforçar. Tem...

Nota da Imaflora

Leia a íntegra da nota de esclarecimento da Imaflora sobre a reportagem Café certificado, trabalhador sem direitos. Nota de esclarecimento sobre as reportagens do Repórter Brasil e do The Guardian Piracicaba, 5 de janeiro de 2017 Por ter sido citado em duas reportagens, uma do Repórter Brasil e outra no The Guardian, o IMAFLORA vem a público manifestar que, em seus 21 anos de atuação no campo brasileiro, tem constatado a importância da certificação na promoção de boas práticas agrícolas, conservação e recuperação ambiental, assim como condições dignas de vida e trabalho para homens e mulheres que atuam no meio rural brasileiro. Mais do que uma percepção, ao longo desse tempo, temos buscado conhecer os alcances e os limites dessa ferramenta nos valendo de pesquisas e trabalhos acadêmicos, independentes, para avaliar o rumo e os resultados dessa opção. Entre esses estudos estão “Impacto da certificação da RAS em fazendas de café”, “E certificar faz diferença? Estudo da avaliação de impacto da certificação FSC®/RAS”, disponíveis livremente na internet e que nos remetem à conclusão de que a certificação contribui positivamente para condições decentes de trabalho. Melhor, como sempre alertamos, quando associada a políticas públicas e compromissos de todos os setores da sociedade. Desde agosto de 2016, quando foi procurado pelo repórter André Campos, o IMAFLORA respondeu às solicitações com transparência, participou de uma reunião presencial com o repórter e, em seguida, com o presidente do sindicato, mencionado na reportagem, que incluiu a secretaria executiva, auditores e técnicos da área, para o esclarecimento da situação, que a verificação posterior em campo, constatou que estava solucionada. Lembramos ainda que a certificação é um...

Café certificado, trabalhador sem direitos

Trabalho informal, irregularidades no uso de agrotóxicos e até mesmo queixas de pagamento inferior à metade do salário mínimo. Esses foram alguns dos problemas apurados pela Repórter Brasil em fazendas de café que comercializavam sua produção com a chancela de importantes selos de boas práticas. Os casos revelaram limitações e falhas no monitoramento dos cafeicultores que integram o bilionário mercado de cafés sustentáveis – segundo a UTZ, cerca de 20% da produção mundial é hoje verificada por algum padrão voluntário de conduta. A Repórter Brasil revela, com exclusividade, os bastidores do café certificado produzido em Carmo de Minas (MG) e Jesuânia (MG) – apenas dois entre os diversos municípios com fazendas dedicadas a esse crescente nicho de mercado. Os resultados são apresentados no relatório Café certificado, trabalhador sem direitos (baixe aqui o relatório). Além de violações trabalhistas em cafezais supostamente “sustentáveis”, verificou-se a necessidade de mais transparência de empresas e selos em relação ao resultado de suas auditorias. E, além disso, na própria divulgação de quem são as fazendas por eles certificadas.   Irregularidades nas fazendas Em julho de 2015, fiscais do Ministério do Trabalho flagraram 13 safristas colhendo café sem carteira assinada no Rancho São Benedito. A propriedade tem o selo de boas práticas da Rainforest Alliance. O Imaflora, certificador nacional responsável por monitorar o selo, afirmou que não tinha conhecimento da situação. Após o contato da Repórter Brasil, uma auditoria na fazenda foi feita em outubro de 2016. A entidade informou que os problemas já haviam sido então solucionados. Até 2015, o Rancho São Benedito também possuía certificação da UTZ. A Repórter Brasil perguntou à UTZ se ela tinha conhecimento das...