Tag: Confecções

Roupas da Le Lis Blanc são fabricadas com escravidão

Roupas da Le Lis Blanc são fabricadas com escravidão

A parede é de tijolos aparentes, com reboco improvisado e tábuas tapando as janelas. O piso é de cimento, coberto de retalhos, linhas e sujeira. Há fios de eletricidades puxados de maneira improvisada por todos os lados, alguns perigosamente próximos de pilhas de tecido, e, em um canto da improvisada oficina de costura, uma caixa d´água. Para ficarem mais próximos das máquinas, os lustres pendem do teto amarrados por cordões em que é possível ler “Le Lis Blanc”, nome de uma das grifes mais caras do país. Espalhadas nas mesas estão etiquetas da marca, peças finalizadas e guias com orientações sobre tamanho e corte. Em cômodos próximos, ficam os trabalhadores bolivianos, vivendo em beliches em quartos apertados, alguns com divisórias improvisadas, recebendo por produção e cumprindo jornadas exaustivas. A descrição é de uma das três oficinas em que costureiros que produziam peças da marca Le Lis Blanc foram resgatados durante fiscalização realizada em junho, acompanhada pela Repórter Brasil, em São Paulo. Com algumas variações, o cenário de degradação humana foi o mesmo encontrado em outras duas unidades de produção de peças da marca. Todas as três oficinas com problemas eram “quarteirizadas”. Duas empresas intermediárias encomendavam as peças e as repassavam para a grife de luxo. Mesmo assim, de acordo com o auditor fiscal Luís Alexandre Faria, que participou da ação, não há dúvidas sobre a culpa da Restoque S.A, empresa dona da marca Le Lis Blanc, em relação às condições em que os trabalhadores foram resgatados. Ele ressalta que não só foi caracterizada terceirização da atividade fim, o que por si só já configuraria a responsabilidade do grupo, como também nesse caso ficou evidente a...
Katie Ford e autoridades debatem escravidão na indústria da moda em simpósio em São Paulo

Katie Ford e autoridades debatem escravidão na indústria da moda em simpósio em São Paulo

Katie Ford, ex-CEO da Ford Models, e especialistas em combate ao trabalho escravo debateram a exploração de trabalhadores pela indústria da moda durante o simpósio “O enfrentamento à escravidão contemporânea”, realizado no Tribunal Regional Federal da 3ª região, em comemoração aos 125 anos da abolição da escravatura, celebrado neste 13 de maio. Para uma plateia de magistrados, procuradores, auditores fiscais, acadêmicos e jornalistas, entre outros, foram apresentados alguns dos principais flagrantes no setor no Brasil e discutidas estratégias para se aprimorar o combate à prática. Katie, que ficou famosa por seu trabalho à frente da Ford Models, uma das principais agências de modelos do mundo, ressaltou a gravidade da dimensão do problema. “É inacreditável que ainda exista escravidão”, disse, ressaltando que, além dos problemas na produção de peças de algumas das principais grifes do planeta, há também casos de exploração de modelos, muitas vezes meninas de países pobres em situação vulnerável. Ela fundou o grupo Free for All e tem percorrido o planeta denunciando trabalho escravo e tráfico de pessoas. Detalhes dos casos em questão e exemplos de violações foram apresentados pelo auditor fiscal Luís Alexandre Faria, da Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo, que destacou que as operações de fiscalização independem de denúncias. Mais do que fiscalizações pontuais, os auditores trabalham no estado procurando mapear cadeias produtivas e apontar a responsabilidade e o papel de grandes grupos em violações sistemáticas. “Em vez de simplesmente considerar culpado o dono de uma oficina pequena, procuramos considerar o contexto para resolver mesmo o problema. Antigamente, fechava-se uma oficina e apareciam outras dez. Isso é enxugar gelo”, afirma. A mesa “Escravos da...
Tragédia em Bangladesh simboliza despotismo do lucro

Tragédia em Bangladesh simboliza despotismo do lucro

Motivos de sobra fazem do desmoronamento do Rana Plaza, edifício de oito andares que abrigava um complexo de fábricas têxteis em Bangladesh, uma das maiores tragédias industriais da história e um dos mais dramáticos e simbólicos atentados recentes contra o direito de trabalhadoras e trabalhadores. Passadas mais de duas semanas desde que a construção erguida nos arredores de Daca (Savar) ruiu, em 24 de abril, a aterradora marca de mil vítimas fatais confirmadas (muitas delas ainda não identificadas) já foi ultrapassada, conforme informações oficiais. Feriram-se mais de 2,5 mil pessoas, e há ainda quem estava trabalhando no local, em sua grande maioria mulheres, mas permanece “desaparecida“ – o que pode resultar na ampliação da soma de vidas subitamente interrompidas. Desta vez, por mais que se queira desviar o olhar para a miríade de falhas e negligências cometidas pelas partes envolvidas, o horror está profundamente associado à busca incessante e desenfreada por lucro, motor central do sistema capitalista. É ampla a cadeia alimentada por vantagens político-econômicas: das poderosas grifes internacionais do mundo da moda – que vêm sendo cobradas publicamente por serem as grandes beneficiárias do esquema em curso – aos “empreendedores” e políticos de Bangladesh, das auditorias contratadas e dos sistemas intersetoriais de monitoramento de cadeias produtivas aos consumidores finais. Cálculos feitos pelo Sindicato Global IndustriALL revelam que um incremento de apenas US$ 0,02 (dois centavos de dólar) por cada camiseta produzida em Bangladesh poderia dobrar o salário de quem a costura. Atualmente, o salário mínimo nas confecções é de 3 mil taka (US$ 38); os representantes de trabalhadoras e trabalhadores pedem aumento imediato para 5 mil taka (US$...
Diretor do grupo GEP alega ‘traição’ de fornecedores por caso de trabalho escravo

Diretor do grupo GEP alega ‘traição’ de fornecedores por caso de trabalho escravo

São Paulo (SP) – O diretor do grupo GEP, Nelson Volpato, voltou a culpar seus fornecedores pelo caso de trabalho escravo na produção das roupas que a empresa comercializa, em audiência na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) ocorrida nesta quarta-feira (17). A companhia detém as marcas Cori, Emme, Luigi Bertolli e representa a grife GAP no Brasil. “A empresa que contratamos nos traiu e não cumpriu aquilo que exigimos. Tenho certeza que jamais compactuamos com qualquer violação dos direitos humanos ou exploração indevida”, declarou, durante reunião da Comissão de Direitos Humanos da Alesp, sobre o flagrante de escravidão ocorrido em 19 de março. O posicionamento do empresário não convenceu o público e foi questionado pelos deputados e outras autoridades presentes. “O senhor afirma que controla a qualidade das peças que os fornecedores produzem para sua empresa. Mas diz, por outro lado, que não sabia da existência de trabalho escravo. Isso parece absolutamente contraditório”, indagou ao diretor do grupo GEP o deputado responsável por convocar a audiência, Carlos Bezerra Jr. (PSDB), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. “Com qual versão eu devo ficar? Porque me parece que as duas se anulam”, completou. Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) encontrou, em 19 de março, 28 imigrantes bolivianos costurando peças para o grupo GEP em condições análogas às de escravo, numa oficina têxtil clandestina na Zona Leste de São Paulo. As vítimas cumpriam jornadas exaustivas, acumulavam dívidas e estavam sujeitas a condições degradantes, por problemas de segurança e higiene no interior do estabelecimento. Na ocasião, a companhia manifestou...