Tag: Hidrelétricas

Ele lucra com as remoções

Ele lucra com as remoções

Depois de trinta anos trabalhando como pedreiro, o paranaense Arlindo de Oliveira tenta fazer fortuna na Amazônia. Sua estratégia, ele alega, é comprar terras que serão indenizadas para a construção das hidrelétricas. Segundo suas próprias contas, Arlindo já se encontra no quarto empreendimento – desta vez, de olho na usina de São Luiz do Tapajós, no Pará. “Não tem negócio melhor”, diz ele, sentado na varanda da casa que construiu há três anos, em dois lotes que custaram R$ 170 mil. Arlindo diz ter ido para a vila de Pimental, no município de Trairão, no Oeste do Pará, só para receber o dinheiro da indenização da usina. O povoado, onde vivem cerca de mil pescadores, será totalmente alagado caso a barragem saia do papel. O leilão de concessão era aguardado para o próximo semestre, mas o licenciamento foi suspenso em abril pelo Ibama. Arlindo é o que os moradores das comunidades tradicionais chamam de “barrageiro”: alguém que se infiltra na comunidade para ganhar indenização na hora da remoção. Ele se incomoda com o apelido – uma crítica velada feita pelos moradores de Pimental. Mas a diferença entre um “barrageiro” e um ribeirinho é bastante clara. Enquanto Arlindo se queixa da demora na instalação da usina, que coloca em risco seus planos de enriquecimento rápido, as famílias locais se organizam para tentar impedir a construção da hidrelétrica, temendo pelo rio, pela floresta e pelo futuro. Arlindo garante ter recebido indenizações mais gordas do que os ribeirinhos que viviam havia mais de século nos locais inundados Sentada na porta de casa, depois de correr atrás de uma pequena galinha que teimava...
Expectativa de hidrelétrica agrava ameaças a assentados

Expectativa de hidrelétrica agrava ameaças a assentados

Quando cai a noite no Projeto de Assentamento (PA) Areia, a quarenta quilômetros do município de Trairão, no oeste do Pará, o silêncio é cortado pelo barulho de motos rodeando a casa de Osvalinda e Daniel Pereira. Homens armados e encapuzados intimidam o casal, a mando de madeireiros daquela região da Amazônia. Plantadores de frutas, os Pereira estão jurados de morte por não colaborarem com a extração ilegal de árvores de alto valor comercial. Ameaçados desde 2012, Osvalinda, Daniel e outro agricultor do mesmo assentamento – Antônio Silva – até foram incluídos em um programa do governo federal que em tese deveria garantir proteção a ativistas de direitos humanos. Mas, na prática, a segurança não é plena. Receosos, os vizinhos se afastaram, deixando os três camponeses ainda mais isolados. Com graves problemas de saúde, Osvalinda percebeu que mostrar o rosto e revelar sua história talvez seja a única forma de preservar sua vida e a de seu marido. “Eu tenho medo. Mesmo com a proteção do governo, é difícil ter segurança no meio do mato”, conta Osvalinda. O marido, Daniel, emenda: “Não é fácil viver em um lugar em que você vai procurar segurança e não vai encontrar”.   A relação entre madeireiros e agricultores familiares dos assentamentos do oeste do Pará vem se agravando devido aos planos de construção da Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, orçada em US$ 8,9 bilhões. O licenciamento ambiental da usina no rio Tapajós, um dos mais ricos em termos de flora e fauna na Amazônia, está suspenso desde o último dia 19 de abril pelo Ibama, órgão ambiental do governo federal....
Animais ainda desconhecidos e espécies únicas serão colocados em risco por usinas do Tapajós

Animais ainda desconhecidos e espécies únicas serão colocados em risco por usinas do Tapajós

Ao menos oito espécies de mamíferos nunca catalogadas pela ciência foram descobertas durante os estudos de impacto da usina de São Luiz do Tapajós. Ironicamente, ao mesmo tempo em que essas “novas” espécies são apresentadas ao mundo, elas podem entrar na lista de animais em risco. Isso por que o ambiente onde esses animais vivem será profundamente transformado pelas obras da hidrelétrica, o que é especialmente grave considerando que algumas dessas espécies existem apenas no Tapajós. Entre elas está uma nova espécie de macaco semelhante ao macaco barrigudo (do gêneroPithecia), um marsupial parecido com a cuíca cauda-de-rato (do gênero Metachirus) e novas espécies de roedores e morcegos. Além dos novos mamíferos, a usina deve colocar em risco ainda aves em extinção como ararajuba (Aratinga guarouba), a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) e pássaros que comprovadamente só existem no Tapajós. No dia 19 de abril, o licenciamento ambiental do empreendimento foi oficialmente suspenso pelo Ibama, órgão do governo federal. Na prática, o processo estava paralisado desde dezembro de 2014, já que nenhuma das dúvidas levantadas pelos técnicos do Ibama havia sido respondida após a conclusão da primeira versão do Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O documento tem mais de 15 mil páginas e foi realizado pelo consórcio de empresas interessadas na concessão da hidrelétrica. O grupo é liderado pela estatal Eletrobras e conta com as brasileiras Eletronorte, Copel, Endesa Brasil, Camargo Correa, Cemig, e Neoenergia, além das empresas francesas EDF e GDF Suez. A crise política e econômica, que colocou em xeque obras públicas tocadas por grandes empreiteiras envolvidas na operação Lava Jato, também contribuiu para esvaziar o licenciamento ambiental da hidrelétrica....

Munduruku: “Não queremos guerra, mas não temos medo da polícia”

Em carta redigida durante a sua 26ª Assembleia Geral, os índios da nação Munduruku pedem o fim dos projetos de construção de novas hidrelétricas nos rios da Amazônia. Os indígenas vivem próximos ao rio Tapajós, onde o governo pretende construir usinas que terão consequências para a vida dentro das suas águas e fora dela. Leia abaixo a íntegra da carta dos Munduruku: O RASTRO DO TEMPO APONTA O CAMINHO DO FUTURO: SOMOS A NAÇÃO MUNDURUKU, OS CORTADORES DE CABEÇA  CARTA AO POVO E AO GOVERNO BRASILEIRO A nação Munduruku no Pará é numerosa, somos aproximadamente 13.000 homens e mulheres. Nos tempos passados nós Munduruku éramos temidos. Dominávamos a arte da guerra e tínhamos muitas estratégias. Nossos troféus eram as cabeças de nossos inimigos. Dificilmente perdíamos um guerreiro na batalha. Atacávamos de surpresa e em grande quantidade, assim vencíamos os nossos rivais. Hoje os dias são outros, há muito tempo que não precisamos fazer uma expedição de guerra, mas, se for necessário, o rastro do tempo aponta o caminho do futuro: somos a nação Munduruku, os cortadores de cabeça. Nós falamos agora pelo nosso povo, pelas crianças e pelos animais. As estrelas no céu nos contam nossas histórias passadas, nos guiando no presente e indicando o futuro. Esse é o território de Karosakaybu, onde sempre vivemos. Somos a natureza, os peixes, a mãe dos peixes, a mangueira, o açaizeiro, o buritizeiro, a caça, o beija-flor, o macaco e todos os outros seres dos rios e da floresta. Ainda vivemos felizes em nosso território, a correnteza dos rios nos leva para todos os lugares que queremos, nossas crianças podem nadar quando o sol está muito...
Usinas do Tapajós podem causar contaminação de pescadores e morte de peixes em massa

Usinas do Tapajós podem causar contaminação de pescadores e morte de peixes em massa

Contaminação por mercúrio, matança de peixes, desmatamento, remoção de comunidades e alterações no rio Tapajós devem ser o saldo amargo deixado pela construção de um conjunto de hidrelétricas na bacia do rio Tapajós, no Pará. A maior delas é a usina de São Luiz do Tapajós, que vai consumir R$ 30 bilhões e remover pelo menos 2,5 mil pessoas de comunidades tradicionais e aldeias indígenas, além de alterar o meio ambiente e a economia local de toda a região. Para conhecer a vida do rio e dos pescadores que estão na rota das usinas, a Repórter Brasil navegou por 280 quilômetros do Tapajós durante dez dias. Dos rios mais extensos do Brasil, o Tapajós percorre 800 quilômetros desde o norte do Mato Grosso até chegar à cidade paraense de Santarém, onde desagua no rio Amazonas. No percurso, o rio forma ilhas, praias e lagoas, que se modificam de acordo com as chuvas. O rio alimenta também igarapés, cursos de água típicos da Amazônia que são ricos em vegetação e onde vivem certos peixes e jacarés. E cria as florestas de igapós, região repleta de árvores com raízes submersas onde ocorre a desova de peixes e onde vivem anfíbios típicos da região. Uma das principais controvérsias é que os estudos de impacto ambiental da usina não levantaram o quanto dessa riqueza local será destruída. O Ibama, órgão ambiental responsável pelo licenciamento do empreendimento, ainda não aprovou os relatórios feitos pelo Grupo de Estudos Tapajós. O consórcio é liderado pela Eletrobrás e integrado pelas empresas que têm interesse na obra: Eletronorte, Camargo Correa, Copel, Endesa Brasil, Cemig, Neoeergia, além das francesas...