Tag: Indígenas

Quem pode dizer que eles não são índios?

Quem pode dizer que eles não são índios?

“Dói, como se fossem rasgando o nosso ventre”. Apolonildo de Souza Costa, mais conhecido como Rosí, pousa a mão sobre a barriga para explicar o que sente ao ver barcos madeireiros escoando pilhas de troncos pelos rios que banham a Terra Indígena Maró, noroeste do Pará. Os outros 239 indígenas Borari e Arapiuns que vivem nesta terra também sentem, no estômago, os impactos do desmatamento: a fome é o primeiro efeito da degradação ambiental, consequência da fuga da caça e da dificuldade em coletar frutas. Como muitos representantes de povos que foram perseguidos e catequisados pelas missões jesuítas na região, Rosí não tem “nome de índio”. A colonização ensinou seus antepassados a esconder a identidade. Mas o semblante altivo denuncia novos tempos e Rosí enche o peito para se apresentar como “guerreiro-vigilante Borari”. As evidências formais sobre a identidade indígena dos habitantes da terra Maró somam 250 páginas de estudo de identificação feito pela Funai (Fundação Nacional do Índio). A mais contundente delas, porém, não está no papel; mas na ousada ação dos “guerreiros-vigilantes”. O grupo se arrisca para combater o desmatamento dentro de sua terra. Uma vez por mês, deixam suas casas e passam dias vasculhando os 42 mil hectares da terra Maró em busca dos invasores. Quando os encontram, geralmente instalados em serrarias, os vigilantes acionam a Funai e ficam no local até uma equipe de fiscalização chegar.   Os funcionários das madeireiras não costumam responder com violência. A reação vem depois. O segundo-cacique Odair José Souza Alves, conhecido como Dadá Borari, já recebeu ofertas de dinheiro, ameaças, perseguições e sofreu um violento atentado. “Primeiro foi uma oferta no...
O BNDES descobriu os índios?

O BNDES descobriu os índios?

Obras com selo do BNDES não têm boa fama entre os índios da Amazônia. Para ficar só no exemplo das hidrelétricas, a usina de Dardanelos soterrou túmulos dos indígenas Arara, a obra de Teles Pires dinamitou cachoeira sagrada para os Munduruku e Belo Monte vai secar rios fundamentais para a sobrevivência dos índios do Xingu. Todas elas tiveram a mesma fonte de financiamento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Agora, o banco dá um pequeno sinal na direção contrária: ao longo de três anos, vai repassar 6,6 milhões ao povo Ashaninka, do Acre. O valor é migalha perto dos investimentos em empreendimentos de impacto negativo, equivale a 0,02% do repasse total feito pelo banco às três usinas citadas acima. Apesar da pequena escala, é a primeira vez que o BNDES investe diretamente em uma comunidade indígena, sem intermédio de órgãos públicos ou ONGs. O investimento respondeu à demanda dos índios, que elaboraram o projeto de acordo com as suas necessidades. O objetivo do projeto, assinado em abril deste ano, é a proteção da floresta onde vivem cerca de 1,2 mil Ashaninkas. Com o dinheiro do banco, os indígenas vigiarão a Terra Kampa Indígena do Rio Amônia, que fica na fronteira com o Peru e é invadida por madeireiros desde a década de 1980. A região também é rota de narcotraficantes que atravessam ilegalmente a fronteira entre os dois países. O projeto responde a uma demanda urgente. Em setembro do ano passado, quatro índios peruanos da mesma etnia foram assassinados a caminho de uma reunião em uma aldeia brasileira. A investigação do caso não foi concluída, mas os indígenas...
Os Tupinambá e eu

Os Tupinambá e eu

Conheci os Tupinambá em 2010, quando eles viviam um intenso período de criminalização. O pior desde que iniciaram, em 2004, ações diretas para retomar seu território. Eu morava em Brasília, trabalhava com mulheres indígenas e, de quando em quando, encontrava Glicéria Jesus da Silva, importante liderança tupinambá. Glicéria viajava com frequência à capital para representar seu povo, participar de atividades do movimento indígena e denunciar o que ocorria em sua aldeia. Em junho de 2010, ela foi recebida pelo então presidente Lula e relatou os ataques que a Polícia Federal vinha perpetrando contra os indígenas. Ela levava nos braços seu bebê de dois meses de idade. No dia seguinte, foi encarcerada ao desembarcar na pista de pouso do aeroporto de Ilhéus.   Glicéria foi presa com base em um mandado de prisão preventiva expedido pela justiça estadual em que não constavam os delitos de que era acusada. Foi transferida com seu bebê, Erúthawã, para um presídio no município de Jequié, onde permaneceu por dois meses e 13 dias. Na prisão, foi acometida de mastite, uma inflamação da glândula mamária. A negligência das autoridades carcerárias e o agravamento de seu quadro clínico fizeram com que ela tivesse de interromper a amamentação da criança. Dois de seus irmãos, Rosivaldo Ferreira da Silva (o cacique Babau) e Givaldo Ferreira da Silva, também estavam presos, desde março. A proximidade crescente com essa história e a constatação de que os Tupinambá travavam uma luta vigorosa – sendo, por isso, alvos de graves ataques – fizeram com que minha intenção de levar a cabo uma pesquisa no campo da etnologia, até então difuso, se delineasse...

Reportagem “Transposição do São Francisco ameaça direitos indígenas” é finalista do prêmio Líbero Badaró

A reportagem especial “Transposição do São Francisco ameaça terras indígenas”, de Lea Tosold e Renata Bessi, é uma das finalistas do Prêmio Líbero Badaró de jornalismo. Dividida em sete capítulos, a série especial da Repórter Brasil conta como as obras ameaçam os Truká e Pipipan, e as dificuldades que tais  povos indígenas têm enfrentado para conseguir a demarcação de suas terras. O trabalho é resultado de um mês de viagem no sertão de Pernambuco e aborda temas como o conflito por terras e pela água, a grilagem de terras e o desmatamento. A reportagem é uma das cinco finalistas indicadas na categoria Webjornalismo. O prêmio é uma iniciativa da revista e portal IMPRENSA, e tem apoio da Câmara Municipal de São Paulo e de associações ligadas à liberdade de imprensa. O anúncio dos vencedores será feito em novembro. Clique aqui para ler a reportagem especial indicada....