Tag: Indígenas

O alto preço da modernidade de Belo Monte na vida da aldeia de Muratu

“Antigamente a gente tinha vida. Hoje temos agenda”, sentencia Leiliane Juruna, a Bel, vice-liderança da aldeia juruna Muratu, na Terra Indígena Paquiçamba, localizada na Volta Grande do rio Xingu, no Pará. Em sua nova casa de madeira – idêntica a outras 15, construídas pelo Consórcio Norte Energia como parte do Componente Indígena do Projeto Básico Ambiental (PBA-CI) da hidrelétrica de Belo Monte -, Bel faz artesanato em frente à televisão, mas dá uma parada para conversar. Tudo – a agenda, a casa, a televisão, e mesmo o artesanato – faz parte do que hoje substituiu o “antigamente” na vida dos indígenas afetados e parcialmente compensados com um choque de modernidade pelas obras da grande hidrelétrica no rio Xingu. Recapitulando os últimos anos da aldeia, Bel relembra que a primeira mudança na vida dos juruna de Muratu se deu com o inicio do (in)tenso processo de negociação com a Norte Energia, responsável pela construção da usina, e órgãos do governo em torno das condicionantes de Belo Monte: a vida passou a ser engolida por uma interminável sequência de reuniões, que os arrancou de seus afazeres cotidianos. “Tinha compromisso e reunião todo dia, toda hora. Não havia mais tempo de pescar, de viver. A gente começou a ter mais dinheiro (antes da aprovação do PBA indígena, a Norte Energia repassou mensalmente recursos no valor de R$ 30 mil para cada aldeia impactada pela usina), e isso mudou a nossa alimentação. Sem tempo de produzir – a nossa alimentação era basicamente peixe e farinha -, começamos a comprar tudo no mercado. É tanta reunião que eu não tinha tempo de fazer almoço,...
Quem pode dizer que eles não são índios?

Quem pode dizer que eles não são índios?

“Dói, como se fossem rasgando o nosso ventre”. Apolonildo de Souza Costa, mais conhecido como Rosí, pousa a mão sobre a barriga para explicar o que sente ao ver barcos madeireiros escoando pilhas de troncos pelos rios que banham a Terra Indígena Maró, noroeste do Pará. Os outros 239 indígenas Borari e Arapiuns que vivem nesta terra também sentem, no estômago, os impactos do desmatamento: a fome é o primeiro efeito da degradação ambiental, consequência da fuga da caça e da dificuldade em coletar frutas. Como muitos representantes de povos que foram perseguidos e catequisados pelas missões jesuítas na região, Rosí não tem “nome de índio”. A colonização ensinou seus antepassados a esconder a identidade. Mas o semblante altivo denuncia novos tempos e Rosí enche o peito para se apresentar como “guerreiro-vigilante Borari”. As evidências formais sobre a identidade indígena dos habitantes da terra Maró somam 250 páginas de estudo de identificação feito pela Funai (Fundação Nacional do Índio). A mais contundente delas, porém, não está no papel; mas na ousada ação dos “guerreiros-vigilantes”. O grupo se arrisca para combater o desmatamento dentro de sua terra. Uma vez por mês, deixam suas casas e passam dias vasculhando os 42 mil hectares da terra Maró em busca dos invasores. Quando os encontram, geralmente instalados em serrarias, os vigilantes acionam a Funai e ficam no local até uma equipe de fiscalização chegar.   Os funcionários das madeireiras não costumam responder com violência. A reação vem depois. O segundo-cacique Odair José Souza Alves, conhecido como Dadá Borari, já recebeu ofertas de dinheiro, ameaças, perseguições e sofreu um violento atentado. “Primeiro foi uma oferta no...
O BNDES descobriu os índios?

O BNDES descobriu os índios?

Obras com selo do BNDES não têm boa fama entre os índios da Amazônia. Para ficar só no exemplo das hidrelétricas, a usina de Dardanelos soterrou túmulos dos indígenas Arara, a obra de Teles Pires dinamitou cachoeira sagrada para os Munduruku e Belo Monte vai secar rios fundamentais para a sobrevivência dos índios do Xingu. Todas elas tiveram a mesma fonte de financiamento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Agora, o banco dá um pequeno sinal na direção contrária: ao longo de três anos, vai repassar 6,6 milhões ao povo Ashaninka, do Acre. O valor é migalha perto dos investimentos em empreendimentos de impacto negativo, equivale a 0,02% do repasse total feito pelo banco às três usinas citadas acima. Apesar da pequena escala, é a primeira vez que o BNDES investe diretamente em uma comunidade indígena, sem intermédio de órgãos públicos ou ONGs. O investimento respondeu à demanda dos índios, que elaboraram o projeto de acordo com as suas necessidades. O objetivo do projeto, assinado em abril deste ano, é a proteção da floresta onde vivem cerca de 1,2 mil Ashaninkas. Com o dinheiro do banco, os indígenas vigiarão a Terra Kampa Indígena do Rio Amônia, que fica na fronteira com o Peru e é invadida por madeireiros desde a década de 1980. A região também é rota de narcotraficantes que atravessam ilegalmente a fronteira entre os dois países. O projeto responde a uma demanda urgente. Em setembro do ano passado, quatro índios peruanos da mesma etnia foram assassinados a caminho de uma reunião em uma aldeia brasileira. A investigação do caso não foi concluída, mas os indígenas...
Os Tupinambá e eu

Os Tupinambá e eu

Conheci os Tupinambá em 2010, quando eles viviam um intenso período de criminalização. O pior desde que iniciaram, em 2004, ações diretas para retomar seu território. Eu morava em Brasília, trabalhava com mulheres indígenas e, de quando em quando, encontrava Glicéria Jesus da Silva, importante liderança tupinambá. Glicéria viajava com frequência à capital para representar seu povo, participar de atividades do movimento indígena e denunciar o que ocorria em sua aldeia. Em junho de 2010, ela foi recebida pelo então presidente Lula e relatou os ataques que a Polícia Federal vinha perpetrando contra os indígenas. Ela levava nos braços seu bebê de dois meses de idade. No dia seguinte, foi encarcerada ao desembarcar na pista de pouso do aeroporto de Ilhéus.   Glicéria foi presa com base em um mandado de prisão preventiva expedido pela justiça estadual em que não constavam os delitos de que era acusada. Foi transferida com seu bebê, Erúthawã, para um presídio no município de Jequié, onde permaneceu por dois meses e 13 dias. Na prisão, foi acometida de mastite, uma inflamação da glândula mamária. A negligência das autoridades carcerárias e o agravamento de seu quadro clínico fizeram com que ela tivesse de interromper a amamentação da criança. Dois de seus irmãos, Rosivaldo Ferreira da Silva (o cacique Babau) e Givaldo Ferreira da Silva, também estavam presos, desde março. A proximidade crescente com essa história e a constatação de que os Tupinambá travavam uma luta vigorosa – sendo, por isso, alvos de graves ataques – fizeram com que minha intenção de levar a cabo uma pesquisa no campo da etnologia, até então difuso, se delineasse...