Tag: Trabalho Escravo

A libertadora de escravos

Na década de 90, a pressão da sociedade civil e de organismos internacionais fez com que as autoridades corressem atrás de soluções para o trabalho escravo. Em 1995, o governo federal criou os grupos móveis de fiscalização com o objetivo de averiguar as condições a que estão expostos trabalhadores, principalmente em locais remotos. Quando encontram irregularidades, como superexploração ou trabalho escravo, aplicam autos de infração que geram multas, além de garantir que os direitos sejam pagos aos empregados. Funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego de diversos estados integram esses grupos, que possuem especialistas em várias áreas – da saúde à jurídica. Hoje, são seis equipes que rodam o país e respondem diretamente a Brasília. Marinalva Cardoso Dantas, chefe de um dos grupos móveis de fiscalização, era uma das participantes do seminário “Trabalho escravo: uma chaga aberta”, encerrado há pouco na PUC-RS. Abaixo alguns trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu a Repórter Brasil. Repórter Brasil – Esse abril deste ano, o massacre dos trabalhadores rurais sem-terra em Eldorado dos Carajás fará sete anos. Os julgamentos dos policiais militares envolvidos na ação foi polêmico e a grande maioria foi inocentada. Como estão hoje a situação dos trabalhadores rurais da região? Marinalva – Em minha opinião, o sudeste do Pará é o pior local no Brasil para o trabalhador rural. Eles são escravizados como em outras regiões. Só que lá qualquer liderança é tida como ameaça e tem que ser exterminada. Então, o extermínio de líderes sindicais lá é um absurdo. Nessa semana do Fórum, foi assassinado o líder dos garimpeiros de Serra Pelada. Foi líder lá, a pessoa está...

Embaixador conclama negros para cobrar dívida

"Não adianta dizer para um gato que ele agora é um cão, é preciso mostrar-lhe o focinho, as orelhas e seu tamanho." O seminário Reparações reuniu na sexta-feira, dia 24, líderes de movimentos negros nacionais e internacionais para pensar a dívida que o mundo tem com essa população. Hoje, um outro encontro ocorreu, dessa vez, para debater o Combate à Intolerância e o Respeito à Diversidade. Foi no Cais do Porto da capital gaúcha que Dudley Thompson – importante pensador jamaicano – completou mais uma vez a metáfora do cão e do gato: "um homem não se torna livre apenas com palavras, quando avisado. Um homem livre tem terra, educação e participação no governo". "A dívida não foi paga, vocês têm o dever de cobrá-la." Baseando-se na história do povo africano, o embaixador da Jamaica na Nigéria concluiu que os descendentes de todos que usaram o trabalho escravo para seu crescimento no passado têm uma dívida com a comunidade negra. Voltando ao período que antecedeu a Lei Áurea, lembrou da quantidade de cana-de-açúcar, ouro e café que os europeus só conseguiram levar do Brasil graças ao trabalho escravo. "Assim como hoje eles herdam os bens, herdam essa dívida." Thompson fez um discurso muito parecido em ambos os eventos. O primeiro pretendia discutir maneiras de se recompensar o povo negro pela situação de extrema desvantagem que se encontram na sociedade atual. O segundo, a necessidade de incentivar a aceitação ao diferente, seja ela expressa através de raça, gênero ou opção sexual. Embora o jamaicano defenda que o "estupro de avós e a morte de avôs nunca será compensado em dinheiro",...

Nova escravidão

Trabalhador em situação de escravidão resgatado da fazenda Peruano, município de Eldorado dos Carajás, Pará Nos dias 13 e 14 de dezembro passado, foram resgatados 54 trabalhadores rurais que estavam sob condições degradantes de trabalho na fazenda Peruano, município de Eldorado dos Carajás, sudeste do Pará. A ação, realizada por uma equipe do grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), foi motivada por denúncias de maus-tratos e cerceamento da liberdade. Pessoas não eram pagas havia meses, recebendo apenas arroz, feijão e alojamento – pequenas barracas de madeira, palha ou lona, em que se amontoavam 10, 20 redes. A água, suja e imprópria, servia para consumo, banho e lavagem de roupa. Um perigo, haja vista que muitas vezes a pele ficava contaminada com veneno usado no pasto e não havia equipamentos de proteção. Segundo Marinalva Cardoso Dantas, chefe da equipe, ao todo foram registrados 20 autos de infração – entre eles o de trabalho infantil. A fazenda de gado, considerada modelo no desenvolvimento de matrizes reprodutoras, inseminação artificial e comercialização de embriões, foi obrigada a pagar os salários e direitos trabalhistas devidos. O proprietário, Evandro Mutran, um dos maiores criadores de nelore do estado, procurado por esta reportagem, não foi localizado. No ano passado, de acordo com a Secretaria de Inspeção do Trabalho, cerca de 1,6 mil pessoas foram resgatadas no país em operações dos grupos móveis de fiscalização em conjunto com a Polícia Federal – o maior número registrado até hoje e um grande salto se comparado a 2000, quando 583 pessoas ganharam a liberdade. Aproximadamente R$ 1,2 milhão em direitos trabalhistas pagos, isso sem...

Senzalas bolivianas

Comemoração do aniversário da independência da Bolívia, em São Paulo Brás. Bairro central da capital paulista que abriga milhares de imigrantes bolivianos. René Barrios faz parte desse contigente de estrangeiros. Seu apartamento, cujo aluguel consome boa parte da renda mensal, comporta sua tecelagem, além da mulher, filha, cunhado e outros dois compatriotas. Na modesta sala há sete máquinas de costura, às quais se dedicam durante toda a semana, inclusive aos domingos. Para eles, não há folga. O ambiente é fechado, turvo. O peso da labuta diária se faz sentir no ar. A lenta velocidade do elevador que conduz os moradores do edifício contrasta com o ritmo frenético do cotidiano e das mãos habilidosas desses bolivianos. René, porém, pode ser considerado um vencedor. Atingiu o objetivo do qual grande parte dos bolivianos que entram irregularmente no Brasil, à procura de melhores oportunidades de emprego (os chamados "migrantes laborais"), fica alijada: montar a própria tecelagem, ainda que muito humilde. Apesar do relativo êxito, teve de enfrentar uma via-crúcis. Ao chegar de La Paz, em 1996, recrutado por um colega também boliviano, René trabalhou três meses sem receber um centavo. Depois de muito hesitar, resolveu buscar uma nova ocupação. Para tanto, a Praça Padre Bento, no Pari, famigerado ponto de encontro e de comércio informal dos bolivianos, serviu como verdadeira agência de empregos. "Há anúncios de ofertas espalhados pela praça", conta. René, então, trocou várias vezes de patrão, até conseguir dinheiro para comprar sua primeira máquina e, assim, trabalhar por conta própria. Porém, as marcas do tempo em que foi explorado não são esquecidas. Com escassas horas de descanso, geralmente após as...

O Engenho Resiste

  Paisagem angolana, de onde partiram milhares de escravos para os engenhos A história da cana de açúcar no país confunde-se com a própria história do Brasil. Presente desde a fundação das primeiras cidades até o desenvolvimento da tecnologia de automação, ela criou relações em torno de si que traçaram muito do que somos hoje. Por conta de nossa colonização, tivemos nosso processo de modernização retardado. Talvez por isso, ainda hoje, podemos encontrar engenhos em diferentes etapas de desenvolvimento, convivendo ao mesmo tempo e com relações humanas muito parecidas com as das épocas as quais pertenceram. Essa reportagem percorreu os Estados de Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e São Paulo para mostrar que, apesar da evolução da casa grande, as condições sociais da senzala continuam as mesmas de cinco séculos. Erasmos, o início Não há silêncio nas ruínas do Engenho de São Jorge dos Erasmos, no sopé do Morro da Caneleira, em Santos e de costas para o mar. Em suas paredes de pedra, erguidas em 1534, está registrado o barulho da cana sendo esmagada, do caldo cozido em tachos, resfriado, colocado nas fôrmas de cerâmica (os pães-de-açúcar que, pela semelhança, vieram a batizar o morro carioca), raspado e, então, pulverizado. Mas apesar do que dizem as paredes, o eco que hoje se ouve é de buzinas de automóveis e da gritaria das crianças dos condomínios ao lado. Uma irônica homenagem ao lugar que ajudou a ferver o desenvolvimento do país no início da colonização. Martim Afonso de Sousa aportou em 1531 em terras tupiniquins e, em 1532, dava início à colonização portuguesa. As mudas de cana-de-açúcar que balançaram semanas...