É hora de ferir o capitalismo,diz ativista indiana

Srilata Swaminathan, participante do Painel “A Luta por igualdade: Mulheres e Homens, como implementar uma mudança real”, desta sexta-feira no Fórum Social, afirma também que homens e mulheres devem se unir contra a exploração
Por Julián Fuks
 24/01/2003

“É preciso lutar também contra a exploração da mulher pela mulher, e encontrar formas de ferir de uma vez por todas o capitalismo.” A frase, da ativista indiana Srilata Swaminathan, surpreendeu a todos os presentes, na grande maioria mulheres, suscitando até manifestações contrárias, durante o Painel “A Luta por igualdade: Mulheres e Homens, como implementar uma mudança real”.

Presidente do All India Progressive Women’s Association (AIPWA) e membro do comitê central do Partido Comunista da Índia, Srilata afirma, em entrevista exclusiva ao site Repórter Brasil, ser a hora de começar a agir fortemente contra a exploração capitalista.

A senhora disse, em seu discurso, que é hora de propor medidas e estratégias para ferir o capitalismo. Quais seriam elas?

Só sentar, conversar e fazer conferências não vai ferir o capitalismo nem um pouco. Se você quer mudar a estrutura sócio-político-econômica do mundo, vai ter que ser numa grande batalha. Porque eles é que têm todo o poder, todo o dinheiro, os exércitos, as armas, a mídia. Eles têm tudo na mão. E não vão abrir mão disso sem lutar. Ora, se você quer tomar o poder, que é o que tentamos fazer, e diz não à globalização, qual é a sua alternativa? Queremos tomar o poder e ter um sistema que seja pró-camponeses, pró-trabalhadores, pró-mulheres, pró-pobres, pró-ecologia. O slogan do capitalismo é claro: ‘lucros antes das pessoas’. Nosso slogan deveria ser ‘pessoas antes dos lucros’.

Que tipo de luta seria essa contra o capitalismo?

A luta tem muitos níveis. Não estou dizendo que todos devem pegar armas e realizar uma revolução. Talvez em algum momento isso seja necessário, mas a luta agora é para acordar as pessoas, uni-las, fazê-las resistir. Porque hoje rege o fator TINA, que quer dizer ‘there is no alternative’ [‘não há alternativa’, em inglês], e o discurso capitalista quer que as pessoas pensem que sua única alternativa é se ajustar a ele. O comunismo está morto, o socialismo está morto, tudo está morto, só resta o capital, não há nada mais. Temos que fazer as pessoas saírem desse condicionamento. Há uma alternativa, nós podemos fazer um mundo melhor. As pessoas não têm que aceitar essa besteira.

O que o feminismo pode fazer nessa luta?

A minha idéia de feminismo não é ‘abaixo os homens’. Homens e mulheres vão ter que dar as mãos. Não estamos nos opondo aos homens. Certamente nos opomos a certas formas de patriarcado e a certos mecanismos de exploração na religião, na cultura, que mantêm as mulheres abaixo e não as deixam subir. Mas não lutamos por um mundo só de lésbicas ou coisa assim, e eu não concordo nem um pouco com essa forma de feminismo.

Que malefícios esse tipo de feminismo pode causar?

Ele nos separa. Ao invés de nós lutarmos juntos, eu luto contra você. As mulheres têm de lutar junto com os homens contra o capitalismo. O capitalismo quer que existam as ultrafeministas, porque elas lutam contra os homens, e isso ajuda o capitalista, que assim segue explorando os dois. Por que não nos juntamos, derrotamos esse explorador, e decidimos como dividir o mundo de modo que tanto eu quanto você tenhamos o que queremos? É uma questão de tática.

O que você achou da escolha da Índia como sede do próximo FSM?

Será um grande desafio para nós. Na Índia, onde há dez indianos, deve haver 12 partidos. Sediar o Fórum significará que teremos que nos unir, que teremos que encontrar um terreno comum na luta anti-globalização. Significará enterrarmos os sectarismos estreitos e paroquiais. Mas repito que temos que ir além das conferências. Não podemos ter um Fórum Social por ano e pensar ‘Ah, fizemos nossa luta’. Porto Alegre foi muito bom em nos mostrar que podemos nos unir e que temos um inimigo comum. Agora que três Porto Alegres mostraram isso, com essa nova força, vamos fazer alguma coisa. Não adianta só sentarmos por aqui, nos divertirmos, dançarmos, samba. Eu não quero que Porto Alegre se torne mais um Carnaval, que teremos uma vez por ano.

Mas o que se pode fazer nesse momento?

Agora que descobrimos nossa força, podemos fazer muito. Se vem uma multinacional à Índia, por que não podemos nos unir em todo o mundo para boicotá-la, parando de comprar seus produtos? Por que estamos tomando Coca-Cola aqui? Se todos voltamos aos nossos países e dizermos não à Coca-cola, ela vai cair de joelhos. Nós temos a força necessária.

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