As conexões das Forças Armadas do Reino Unido com o desmatamento no Brasil

Carne servida a militares do Reino Unido no Oriente Médio tem origem em uma empresa brasileira cujos fornecedores desmataram ilegalmente mais de 8.000 hectares de terra, na Amazônia e no Cerrado
Por Redação
 06/05/2020

As Forças Armadas britânicas no Oriente Médio estão recebendo carne bovina de uma empresa brasileira cujos fornecedores desmataram ilegalmente mais de 8.000 hectares de terra – incluindo áreas dos biomas Amazônia e Cerrado. O caso foi revelado por um novo relatório da ONG Earthsight, em parceria com a Repórter Brasil.

O relatório mostra que a carne bovina distribuída pelo Ministério da Defesa do Reino Unido no Bahrein é fornecida por Frigorífico Sul Ltda (Frigosul), parte do grupo FugaCouros – um dos maiores produtores de couro do Brasil.

A empresa comprou milhares de bois de agricultores que foram multados em um total de 33,5 milhões de reais por fiscais do Ibama por desmatamento ilegal, falsificação de documentos e poluição.

A Frigosul disse à Earthsight que monitora seus fornecedores através de uma empresa terceirizada e, portanto, não é possível que a empresa possa comprar de fazendas sancionadas pelo Ibama. A empresa disse que por convicção e princípios não compra gado de propriedades rurais que estão em listas de embargos.

No entanto, a investigação revela que, desde 2018, duas plantas da companhia obtiveram animais de fornecedores que haviam desmatado mais de 8.000 hectares. Dois terços dos R$ 33,5 milhões em multas acumuladas pelos fornecedores da Frigosul nas últimas duas décadas permanecem sem pagamento, diz o relatório.

Falta de rastreabilidade

Além da Frigosul, a empresa brasileira Minerva também é fornecedora das Forças Armadas do Reino Unido no Bahrein.

Minerva disse à Earthsight que as compras de gado na Amazônia são “100% feitas em fazendas monitoradas”. Se alguma irregularidade for identificada, explicou em comunicado, o departamento de sustentabilidade da companhia bloqueia compras do fornecedor.

No entanto, a investigação identificou um fornecedor conhecido do Minerva em Rondônia que movia gado de uma área embargada para outra “limpa”, a fim de evitar os filtros do Minerva. Os animais seguiam então para as instalações da empresa em Rolim de Moira, que por sua vez enviava a carne para as forças do Ministério da Defesa do Reino Unido no Bahrein.

Minerva disse à Earthsight que não possui meios eficazes de verificar e rastrear fornecedores indiretos. Quando informada do caso, a empresa disse que iria investigar e tomar medidas apropriadas se fosse encontrada alguma irregularidade. Em sua declaração, acrescentou que o problema de monitorar fornecedores indiretos está profundamente enraizado no setor. Segundo a empresa, atualmente não há dados e estatísticas acessíveis e confiáveis ​​sobre toda a cadeia do gado para determinar o número de fornecedores indiretos no Brasil.

APOIE

A REPÓRTER BRASIL

Sua contribuição permite que a gente continue revelando o que muita gente faz de tudo para esconder

LEIA TAMBÉM