A Repórter Brasil está sob censura judicial desde o dia 9 de outubro de 2015. Saiba mais.

Um siri aventureiro invade o rio São Francisco

O Velho Chico está perdendo a luta contra o mar. Partes do rio próximas à foz estão mais salinas e a prova disso são as visitas inesperadas de siris e a captura de peixes de hábitos marinhos em localidades ribeirinhas

Recife – Em junho de 2000, tivemos a notícia que pescadores estavam capturando peixes de hábitos marinhos em municípios ribeirinhos do rio São Francisco. Este fato ocorreu quando fomos convidados a proferir conferência sobre o projeto da Transposição, no "I Encontro dos Promotores de Justiça da Região Sul de Alagoas", promovido pela Associação do Ministério Público de Alagoas (AMPAL). A notícia veiculada naquele encontro pode ter sido considerada, pelos mais descrentes, como mera "conversa de pescador". Ocorre que retornando recentemente a Penedo, convidados pela mesma AMPAL, para nova conferência sobre o projeto, fomos testemunhas de um fato inusitado: a aparição de um siri nas margens do Velho Chico.

Ora, como todos sabem, o siri é um crustáceo de hábitos marinhos e, portanto, a sua presença em locais distantes de regiões estuarinas (Penedo está localizada, aproximadamente, a 40 km da foz do São Francisco) dá-nos margem a outros tipos de constatação, principalmente no que concerne à degradação do ambiente natural do rio, motivada, dentre outras causas, por uma gestão desastrosa de sua bacia hidrográfica.

O certo é que o "siri aventureiro" não estava em Penedo admirando a sua arquitetura colonial, nem, tampouco, a riqueza de seus fatos históricos. A sua presença ali foi motivada por uma série de fatores que, combinados, proporcionaram índices elevados de salinidade à água do rio e, portanto, adequados à sua sobrevivência. Se isso não fosse verdadeiro, o siri não estaria lá. Mas quais seriam esses fatores?

O rio São Francisco freqüentemente está registrando baixas vazões em sua foz (em fevereiro de 2008 foi de 1.100 m³/s, inferior, portanto, à vazão mínima estipulada pelo Ibama, de 1.300 m³/s), conseqüência direta dos mais variados usos a que suas águas são submetidas. Da geração e transmissão de energia para o Nordeste e para outras localidades do país, passando pelos projetos de irrigação, pelo abastecimento das populações até chegar à expressiva evaporação reinante no ambiente.

Diante de tudo isso, parece que as incursões das águas do mar pelo interior do rio estão sendo maiores do que as incursões naturais das águas do rio em direção oposta. Em outras palavras, o rio São Francisco está perdendo a luta contra o mar, o ambiente que antes era rio está salinizando e a prova disso são a visita inesperada do siri a Penedo e a captura de peixes de hábitos marinhos em algumas localidades ribeirinhas do Velho Chico.

E as baixas vazões voltaram a ser recorrentes na foz do São Francisco. Essa assertiva foi devidamente socializada por nós em artigo publicado na internet neste ano.

O que preocupa, na ocorrência das baixas vazões do São Francisco, é a possibilidade do abastecimento de populações utilizando-se água de qualidade inferior (salobra), devido à existência de teores de sais acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para se ter a grandeza do problema: 60% da população da cidade de Aracaju são abastecidos com águas do rio São Francisco, coletadas através de uma adutora situada em Propriá (SE), em local muito próximo àquele em que foram registradas as pescarias de peixes de hábitos marinhos. É possível, portanto, que a população de Aracaju já esteja sendo abastecida com águas portadoras de elevados teores de sais. 

As denúncias sobre essa questão não devem demorar a vir à tona. Constatamos esse fato em recente viagem de trabalho ao município de Propriá, com pernoite em Aracaju. O indício maior de nossa certeza, com relação à qualidade das águas sergipanas, foi a dificuldade que tivemos em produzir espuma com o sabonete do hotel. Nesses casos, os sais em proporções elevadas na água, "cortam" as ações do sabão, fato este muito comum com as águas oriundas do embasamento cristalino da região semi-árida nordestina, sabidamente portadoras de elevados teores salinos.

Exemplos inusitados como esses, em um momento no qual o projeto da Transposição do São Francisco mal saiu do papel, aliados ao descompromisso dos governadores nordestinos quanto à condução desse projeto, nos dão a certeza de que outros distúrbios na bacia do rio surgirão. Com possibilidades de desdobramentos mais impactantes, não só em relação ao ambiente natural sanfranciscano, mas, e sobretudo, à vida da população do nordeste setentrional. Só nos resta ficar na torcida para que existam saídas técnicas viáveis para a solução desses problemas.

João Suassuna é engenheiro agrônomo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas na questão hídrica nordestina.


Apoie a Repórter Brasil

saiba como

4 Comments

  1. excelente materia João,
    o impcto da barragem do Castanhão no Rio Jaguaribe também tem muitos impactos negativos incluindo erosão das praias acentuando o avanço do mar – o problema é que faltam estudos sobre o tema.
    René

  2. Sou e serei sempre sua fâ de carteirinha.Excelente artigo Joquinha. É importante a divulgação, pois vamos tomando conhecimento da real situação do rio. Parabéns meu irmão. Adorei o título…bem nordestino.Grande beijo. DIBE

  3. Bastante informativa a matéria, trazendo à luz a gravidade das condições ambientais do Rio São Francisco. O que torna ainda mais preocupante os possíveis impactos que advirão das obras de transposição.
    Chama a atenção para necessidade da sociedade brasileira – e a população atingida – se informar sobre as reais consequências desta obra, e se mobilizar contra os efeitos deletérios que ela poderá causar, sem considerá-la um fato consumado.

  4. Hoje a vazão do S. Francisco é regularizada basicamene pelas barragens, na medida que o desmatamento de sua bacia hidrográfica diminuiu o fluxo subterrâneo. É de se esperar, portanto, um aumento de sua salinidade, devido à maior evaporação. Chamar de salobra é exagero. O que me espanta é ver a fixação da comunidade ambientalista no projeto de transposição, ao invés de fazer uma crítica generalizada e contudente à forma como esta bacia vem sendo exaurida: desmatamento, mineração, uso perdulário, processos equivocados de irrigação, lançamento de esgotos sem tratamento, e etc. Nesta catástrofe não há mocinhos, só malfeitores. Lembra-me a fábula do lobo e o cordeiro. Quem está a montante?