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Monocultivo de soja invade região do Araguaia, no Mato Grosso

Plantações mecanizadas substituem pastos da pecuária e transformam a região. Com financiamento público, produção é marcada por uso intenso de agrotóxicos

São Félix do Araguaia (MT) – Aos poucos, a região do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso, vai sendo toda ocupada pela soja. São plantações mecanizadas e marcadas pelo uso intensivo de veneno se espalhando por áreas onde antes eram pastos e mata nativa nos municípios de Cana Brava do Norte, Confresa, Luciara, Porto Alegre do Norte, Santa Cruz do Xingu, Santa Teresinha e Vila Rica. A expansão foi impulsionada por financiamentos públicos e abertura de estradas e intensificou-se de tal maneira em 2012 que mesmo terrenos de Bom Jesus do Araguaia, considerados inapropriados para esse tipo de lavoura, por serem baixos demais e sujeitos a alagamentos, estão sendo aterrados e cultivados. As lavouras começam na beira da estrada, quase no asfalto, e ocupam planícies inteiras.

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Plantação de soja próxima a São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Fotos: Daniel Santini

Toda terra é cobiçada pelos fazendeiros e as plantações chegam aos limites e cercam vilas, cidades, aldeias e terras indígenas. O gado, antes comum na região, passou a ser criado confinado, em pastos cada vez menores, com uso de hormônios que também objetivam aumento de produtividade. “Em Santa Teresinha estão pensando em cortar até as seringueiras para dar lugar à soja”, afirma Cláudia Araújo, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Porto Alegre do Norte.

A tentativa de fazer a terra render cada vez mais se dá pela utilização de grande volume de agrotóxicos e pelo uso hiperintensivo do solo. Além da safra normal, os produtores aceleram a produção para obter mais colheitas na chamada “safrinha”. Como na época de chuvas os grãos podem apodrecer, muitos utilizam os dessecadores, como são conhecidos os agentes químicos capazes de fazer um campo todo verde amarelar e ficar seco em questão de dias.

Preocupados com os impactos do uso de veneno, moradores de diferentes comunidades da região protocolaram nesta semana um pedido de investigação no Ministério Público Estadual. “Para nós ribeirinhos é uma preocupação grande, o veneno está afetando os rios. Temos visto não só peixes pequenos morrendo, mas até botos, tartarugas, pirarucus e tucunarés”, diz Marionildo Alves da Silva, presidente do sindicato. “A região é plana. Na época da seca, muitos rios ficam parados, a água não se renova e o que temos visto é a morte de peixes. Nunca vimos nada assim. Os aviões pulverizam tudo, até as cabeceiras dos rios”, diz Jorge Ribeiro dos Santos, outro dos moradores que manifestaram a preocupação. “Sou nascido na beira do Araguaia e nunca vi acontecer dessa forma”, completa Agemiro Ferreira dos Santos.

A denúncia coletiva foi feita em encontro durante o seminário “1970-2012: a Luta pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil”, realizado em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Os depoimentos foram registrados em vídeo pela Repórter Brasil.


A invasão da soja no Araguaia
por Repórter Brasil no Vimeo

Financiamento público
A expansão da soja recebe amplo incentivo do governo federal. Na última safra, de julho de 2011 a junho de 2012, foram disponibilizados praticamente R$ 4 bilhões (R$ 3,998 bilhões) para custeio, investimento e comercialização da soja na região Centro-Oeste. Os fazendeiros do Mato Grosso estão entre os principais beneficiados pelos financiamentos públicos. No ano passado, o estado foi o terceiro que mais recebeu recursos em programas de financiamento do Banco Nacional para Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Só de crédito rural, os fazendeiros mato-grossenses tiveram acesso a mais de R$ 1 bilhão, para soja e outras culturas. Na frente entre todos os estados, só os do Paraná, que receberam R$ 2 bilhões, e os de Minas Gerais, com R$ 1,2 bilhão. Os dados foram divulgados no final de 2012 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (clique aqui para baixar documento PDF com todas as informações).

Os gastos públicos para viabilizar tal expansão não se limitam à concessão de crédito direto. Além de financiamentos, o governo investe também na infraestrutura para escoamento da produção crescente de grãos, marcada pelas exportações. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é que o Brasil se torne o principal exportador de óleo, grão e farelo de soja este ano, aumentando em mais de 50% a produção e ultrapassando os Estados Unidos. Milhões são gastos com abertura de portos e expansão dos existentes, e com a construção e manutenção de estradas. Nas rotas da região os caminhões não param. A carga pesada danifica o asfalto e favorece o aparecimento de crateras nas pistas, forçando o poder público a gastar constantemente com reparos.

“Nunca foi assim, nunca viajamos tanto pelo Araguaia”, conta Maurício Pereira Júlio, motorista da empresa Júlio Simões, que fabrica colheitadeiras mecânicas que chegam a pesar 17 toneladas e valer R$ 700 mil. “Desde novembro, a gente vai e volta, até para locais que a gente nunca ia.”

Caminhão com colheitadeira gigante de 17 toneladas atravessa região da Terra Indígena Marãiwatsédé, no Mato Grosso

Caminhão com colheitadeira gigante de 17 toneladas atravessa região da Terra Indígena Marãiwatsédé, no Mato Grosso

Veja fotos de campos de soja na região do Araguaia:


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9 Comments

  1. Sou a favor da produção de alimentos para o mundo, sou a favor da valorização das terras e da região, é preciso alimentar esta população que não para de crescer. Chega de viver do passado temos que valorizar a região do araguaia , que tanto sofre com estradas e desemprego. O governo federal tem sim ajudado o pequeno produtor , atraves das linas de credito do pronaf, são milhões aplicados no pequeno produtor e ele tem melhorado sua renda e de sua familia tem vivido melhor.

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  2. A ganância desses infelizes, põe em risco o futuro da região norte e do bem mais precioso que temos “água doce”. a lavoura extensiva dessa praga (soja) e grandes latifúndios não respeitam a história e nem a sobrevivência do povo ribeirinho nativo, que mais tarde vai povoar as periferias das grandes cidades, pois não encontra na natureza meios de sobrevivência, e as grandes lavouras oferecem um posto de trabalho a cada 500 ha de cultivo. É desumano, e com a conivência do meu governo socialista. Dom Pedro Casaldaliga, já lutava contra essa opressão há mais de 40 anos passados e até hoje pouco ou quase nada se fez, é triste.

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  3. Uma visão fria e meramente capitalista, fora do contexto social ou subserviente do capital, quando alguém defende a plantação de soja como alimento (eles plantam preocupados em produzir alimentos e não pelo lucro fácil, triste utopia) exportação a soja in natura sem agregar valor e importamos feijão, batata, farinha, sim o país com a área mais agricultável do mundo importa feijão e vende uma soja suja, produzida em detrimento de biomas milenares que só restam no Brasil, pior ainda em terras griladas e tomadas a força do verdadeiro dono e guardião da terra e os jornais estampam figuras como REI DA SOJA, MEGA EMPRESÁRIO, AGRO NEGÓCIO (legitimação do latifúndio)

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  4. Tem um pouco de verdade e quase 90% de MENTIRA nessa materia pois tenho 27 anos de idade nasci e fui criado aqui (Administrador), estamos no alvo do crescimento na produção de grãos, mais isso é o que mais queremos nesta região desprezada por todos, até chamada de ´´vale dos esquecidos“ o que não é mais pois temos terras boas e iremos crescer, porque para baixo não mais existem terras de produção hehehe… Mais nossa região não esta sendo devastada não, depoientos visto acima podem SER COMPRADOS….

    VAMOS PLANTAR e VAMOS COLHER!

    CHEGOU NOSSA VEZ

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  5. Nossos líderes estão de olho em tudo assim como no minério de POSTO DA MATA.

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  6. Sou Eng. Agrônomo e entendo a preocupação das pessoas que não tem conhecimento sobre as técnicas utilizadas e os produtos utilizados no cultivo da soja; Porém quem realmente se preocupa com o meio ambiente deveria pressionar não os produtores mas sim que tem a responsabilidade de fiscalizar se os defensivos agrícolas estão sendo utilizados da forma correta. E quem tem o poder e o dever de fazer isso, só que não o faz é o CREA, pois todas as propriedades deveriam ser assistidas por Agrônomos mas esta não é a realidade (assim como uma farmácia necessita de um farmacêutico em tempo integral).
    Falo isso pois conheço o Mato Grosso e moro na Região do Araguaia e vejo todos os dias a miséria que muitas pessoas ainda passam, conheço e sei também da problemática indígena e sabemos que o que realmente todos necessitam, sem distinção entre índios e não índios, é de saúde, moradia, educação e trabalho.
    Porém o poder público não tem capacidade de resolver tudo e assim a expansão da agricultura nessa região é sim uma saída para que o desenvolvimento alcance estas pessoas, agricultura que tem de cumprir e cumpre com tudo o que a nossa legislação ambiental determina.
    Para aqueles que se dizem defensores da floresta e o dos índios os convido a deixarem o conforto de seus lares nos grandes centros e virem morar em municípios como Serra Nova Dourada, Luciara, Novo Santo Antônio, São Félix do Araguaia e sentir na pele que é estar desassistido de tudo e ver a miséria que índios e não índios vivem.

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  7. Querem honestamente preservar o meio ambiente ? Então partam para o controle de natalidade, pois enquanto houver bilhões de bocas para alimentar a natureza estará em risco. Porque ninguém consegue enxergar isto ? Religiões e quem se diz militante delas que insiste em desconhecer isto não está preparado para tal debate.

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  8. já que querem tanto os índios porque a dilma e o lula não coloca índio nas fazendas do lula no para e no mato grosso a e os que moran e cidades grandes porque VOÇES NAO VIVEN SEN CARNE ARROS E FEIJAO índios nao planta quen planta e os latifudiarios que voçes falan

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  9. uma pergunta que todo ser humano deveria fazer:
    depois que destruir a terra, nós vamos morar onde?
    lembre-se seu ignorante. o dia que você derrubar a última árvore e matar o último
    animal , você desaparecerá de forma trágica e melancólica. não destrua você mesmo

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