17/04/2013 - 19:36

Diretor do grupo GEP alega ‘traição’ de fornecedores por caso de trabalho escravo

Versão de representante das marcas Cori, Emme, Lugi Bertolli e GAP do Brasil sobre flagrante de escravidão é alvo de questionamentos em audiência na Assembleia Legislativa de SP

Por Guilherme Zocchio | Categoria(s): Notícias

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São Paulo (SP) – O diretor do grupo GEP, Nelson Volpato, voltou a culpar seus fornecedores pelo caso de trabalho escravo na produção das roupas que a empresa comercializa, em audiência na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) ocorrida nesta quarta-feira (17). A companhia detém as marcas Cori, Emme, Luigi Bertolli e representa a grife GAP no Brasil. “A empresa que contratamos nos traiu e não cumpriu aquilo que exigimos. Tenho certeza que jamais compactuamos com qualquer violação dos direitos humanos ou exploração indevida”, declarou, durante reunião da Comissão de Direitos Humanos da Alesp, sobre o flagrante de escravidão ocorrido em 19 de março. O posicionamento do empresário não convenceu o público e foi questionado pelos deputados e outras autoridades presentes.

“O senhor afirma que controla a qualidade das peças que os fornecedores produzem para sua empresa. Mas diz, por outro lado, que não sabia da existência de trabalho escravo. Isso parece absolutamente contraditório”, indagou ao diretor do grupo GEP o deputado responsável por convocar a audiência, Carlos Bezerra Jr. (PSDB), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. “Com qual versão eu devo ficar? Porque me parece que as duas se anulam”, completou.

Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) encontrou, em 19 de março, 28 imigrantes bolivianos costurando peças para o grupo GEP em condições análogas às de escravo, numa oficina têxtil clandestina na Zona Leste de São Paulo. As vítimas cumpriam jornadas exaustivas, acumulavam dívidas e estavam sujeitas a condições degradantes, por problemas de segurança e higiene no interior do estabelecimento. Na ocasião, a companhia manifestou que “a utilização de mão de obra irregular por contratado contraria a política de relacionamento com nossos fornecedores”.

Ao todo, 28 trabalhadores foram resgatados pela fiscalização

Ao todo, 28 trabalhadores foram resgatados pela fiscalização de 19 de março

“A empresa que contratamos traiu a gente e não cumpriu aquilo que exigimos. Também achamos que é um absurdo esse sistema de trabalho escravo”, declarou Nelson Volpato em resposta ao questionamento do deputado Carlos Bezerra Jr. O empresário se refere à Silobay, oficina com sede no bairro do Bom Retiro contratada para produzir para o grupo GEP e que foi enquadrada como intermediária do caso de trabalho escravo aferido pelos fiscais do MTE. “Ao alegar que desconhecem a situação, isso não os exime da responsabilidade. Porque quem fica com os lucros é a sua empresa. Seus argumentos não me convencem”, rebateu o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp.

Cadeia produtiva
O auditor-fiscal do Ministério do Trabalho presente na audiência, Renato Bignami, responsável por coordenar a fiscalização em que houve o flagrante de trabalho escravo em 19 de março, classificou como “estranho” o posicionamento da empresa. Segundo ele, a auditoria realizada pelo MTE na cadeia produtiva das marcas Cori, Emme e Luigi Bertolli verificou que a Silobay, há algum tempo, não contratava mais costureiros e repassava suas demandas para outras oficinas. “Quer dizer, o grupo GEP já contratou a Silobay sabendo que a intermediária não poderia arcar com a produção das roupas por si própria”, explicou.

Para o fiscal do MTE, não existem dúvidas sobre a responsabilidade da companhia. “A costuraria existia somente para externalizar os custos de produção da intermediária do grupo GEP”, lembrou. A oficina onde os imigrantes trabalhavam em condições análogas às de escravo não tinha capital de giro, muito menos propriedade das máquinas, que eram emprestadas pela Silobay, de acordo com o auditor. “Desse modo a confecção estava presa à cadeia produtiva das marcas Cori, Emme e Luigi Bertolli”, explica.

Renato Bignami também mostrou documentos que comprovam a monitoria da GEP sobre a cadeia produtiva das roupas que comercializa, como tabelas com o controle de qualidade dos produtos e pedidos de fornecimento de materiais. As provas foram coletadas no decorrer das investigações do MTE sobre a produção das roupas com trabalho escravo. Entre os papéis, a fiscalização encontrou até um recado informal, anotado em uma folha de caderno, de um funcionário do departamento comercial do grupo GEP para o dono da oficina onde foi flagrado o emprego de mão de obra escrava.

Falha

Audiência da Comissão de Direitos Humanos da Alesp (Foto: Guilherme Zocchio)

Audiência da Comissão de Direitos Humanos da Alesp (Foto: Guilherme Zocchio)

O deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos, perguntou ao diretor do grupo GEP se já havia tomado conhecimento de casos de trabalho escravo no setor têxtil em São Paulo. Nelson Volpato disse, em resposta, que “já tinha ouvido falar desse tipo de trabalho escravo”. O empresário, por outro lado, minimizou a responsabilidade de sua companhia e admitiu publicamente que houve um erro no caso. “Nunca soube que nossos fornecedores trabalhavam com essas oficinas em que há trabalho escravo. Falhamos em nunca ter verificado desta vez”, declarou.

Outros questionamentos dos deputados da Alesp também levantaram a possibilidade da existência de outras oficinas com trabalho escravo na cadeia produtiva da empresa. “É um caso isolado”, se defendeu o representante do grupo GEP. O diretor disse que o caso não representa uma prática sistêmica na confecção dos produtos comercializados pelas marcas Cori, Emme e Luigi Bertolli. Ele também apresentou um histórico do processo de regularização da cadeia produtiva do grupo GEP, que diz ter começado em 2012. “Logo que tomamos notícia do caso contratamos uma auditoria internacional. Repassamos um rigoroso código de conduta da empresa a ser seguido por nossos fornecedores”, acrescentou.

“Não parece que simplesmente possa ser uma questão de dizer que não sabia sobre o caso de trabalho escravo na cadeia produtiva”, apontou a parlamentar Beth Sahão (PT), integrante da Comissão de Direitos Humanos. Para ela, soa estranho reduzir a questão simplesmente a uma “falha”. “Alguém que contrata uma mão de obra terceirizada tem de se responsabilizar sobre essas práticas. Parece cinismo dizer que não sabia de nada”, completou.



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Tags: Adriano Diogo, Alesp, Beth Sahão, Carlos Bezerra Jr, Cori, Direitos humanos, Emme, GAP, GAP do Brasil, GEP, grupo GEP, Luigi Bertolli, ministério do trabalho e emprego, ministério público do trabalho, Nelson Volpato, Setor têxtil, Trabalho escravo

12 comentários

  1. LÉIA AUXILIADORA NEVES disse:

    JA FUI FUNCIONÁRIA DA GEP E ME SURPRIENDE COM TAL REPORTAGEM, POIS A EMPRESA É UMA EMPRESA IDONIA ONDE SEMPRE TRATOU TODOS OS FUNCIONARIOS COM MUITO RESPEITO.ACREDITO SIM QUE A EMPRESA NÃO TINHA CONHECIMENTO DO QUE ESTAVA OCORRENDO, POIS A EMPRESA SEMPRE TEVE CUIDADO COM SEUS FUCIONARIOS . AO MEU PONTO DE VISTA , VEJO QUE OS CULPADOS SÃO OS BOLIVIANOS, E NAO PODEMOS DEIXAR QUE PESSOAS DE FORA CHEGAM AQUI NO NOSSO PAÍS QUERENDO GANHAR DINHEIRO FÁCIL DESRESPEITANDO UM SER HUMANO.OBS: ELES TROUXERAM SEUS CONTERRANEOS PORQUE SÁBEM QUE BRASILEIRO JAMAIS SUJEITARIA UMA COVARDIA DESSA, É FAZER AS PESSOAS DE IMBECIS. UM RECADO PRA EMPRESA GEP: DÊ EMPREGO AOS NOSSOS BRASILEIROS, TEM MUITOS CUSTUREIROS DESEMPREGADOS, VAMOS CUIDAR DO NOSSO POVO , QUEM PRECISA CRESCER É O BRASIL. OBRIGADO POR UM DIA TER FEITO PARTE DESSA EQUIPE. LÉIA NEVES

  2. Simone Oliveira disse:

    Descordo Leia, a empresa é responsável por toda a sua cadeia produtiva, a empresa deveria realizar fiscalização para o não acontecimento deste tipo de situação, mas como sempre, quando há lucro, fecha-se os olhos. E se, por qualquer motivo, os bolivianos migram para o Brasil, isso não é motivo de fecharmos os olhos, pois são seres humanos e estão neste País, e devem ser tratados conforme as leis daqui.

  3. Mauricio Mirra disse:

    Léia não culpe os bolivianos mas sim empresários que podem até ser idôneos mas que são”descuidados” quando tratam de contratar oficinas. São corresponsáveis sim.

  4. Carlos Roberto Coelho disse:

    COMENTÁRIO DESSA SENHORA FOI COMPRADO PELA GEP,
    SEM SOMBRA DE DÚVIDA, NÃO PODEMOS NOS ESQUECER DA
    ZARA QUE FAZIA A MESMA COISA, “REGIME DE ESCRAVIDÃO”
    ÊSSES VAGABUNDOS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA NUNCA
    SE INTERESSARAM EM MELHORAR AS CONDIÇÕES DE TRABALHO DOS EMPREGADOS EM GERAL, SÓ O FIZERAM AGORA POR ESTAR PERTO DAS ELEIÇÕES E PORQUE OS FATOS
    REPERCUTIRAM NA TELEVISÃO,
    POVÃO, NÃO ACREDITEM EM NEHUMA PALAVRA DE POLÍTICOS.
    ÊLES SÃO OS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS POR TUDO DE ERRADO
    QUE ACONTECE EM NOSSO PAÍS.
    EXISTEM COISAS PIORES QUE ISTO,
    VOCES LEMBRAM QUANDO O LULA FALOU QUE A SAÚDE NO
    BRASIL ESTAVA MUITO BOA, TEM GENTE QUE ACREDITOU,
    OLHA O RESULTADO HOJE, A SAÚDE É UM CAOS TOTAL,
    GENTE MORRENDO POR FALTA DE REMÉDIOS, ATENDIMENTO
    DIGNO, MÉDICOS E ENFERMEIROS SEM QUALIFICAÇÃO ADEQUADA P/ O CARGO.
    VAMOS VOLTAR A FALAR
    SDS
    ROBERTO

  5. Carlos Roberto Coelho disse:

    GOSTARIA QUE QUALQUER EMPRESA TENTE VENDER UM
    DETERMINADO PRODUTO PARA ESSAS EMPRESAS DE PORTE
    MÉDIO/GRANDE, SE NÃO SERÃO SUBMETIDOS A RIGOROSO
    PROCESSO DE SELEÇÃO. ?
    ÊLES CONTRATAM UMA EMPRESA TERCEIRIZADA JUSTAMENTE
    P/ FICAREM ISENTOS DE PROCESSOS TRABALHISTAS,
    POIS TEÊM COMO PROCEDIMENTO, PAGAR POUCO PELO TRABALHO MANUAL, PARA OBTER LUCROS EZORBITANTES.
    A DISPOSIÇÃO DESSA CADEIA É,
    CONTRATAÇÃO DE TERCEIRIZADA QUE CHUPA O SANGUE DOS
    EMPREGADOS, GARANTINDO PREÇO BAIXO, QUE DEPOIS OS
    PRODUTOS ABASTECEM AS LOJAS DE GRIFE, SENDO EXIBIDADAS NAS VITRINES SOFISTICADAS, VENDENDO A
    PREÇOS ABSURDAMENTE ALTOS.
    SDS
    ROBERTO

  6. Carlos Roberto Coelho disse:

    PESSOAL, QUEM PRATÍCA ESCRAVIDÃO NO BRASIL NÃO
    SÃO OS RICOS, NÃO OS POBRES.
    TRAIÇÃO AO PAÍS E AO POVO, VEM DOS POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS CORRUPTOS, OU NÃO ?
    SDS
    ROBERTO

  7. Lucinda Rolnic Rodrigues disse:

    Estudos da Ciência já comprovam que a redução das conexões no córtex pré-frontal, uma parte do cérebro responsável pelo comportamento do homem, torna este insensível, impulsivo e anti-social. E enquanto a Ciência não ajudar a divulgar a periculosidade convivendo normalmente na sociedade como indivíduos normais, os psicopatas continuarão sem nenhum sentimento de culpa ou medo, descascando suas vítimas como bananas quando não as devorando como um abacaxi.

  8. [...] Read more: Diretor do grupo GEP alega 'traição' de … – Repórter Brasil [...]

  9. MRTT disse:

    Mais uma vez o famoso “Eu não sabia!” …. pior que tem muita, mas muita gente que acredita. Ingenuidade não é virtude.

  10. Angela disse:

    TRABALHO SOZINHA EM CASA COM COSTURA NÃO TENHO CNPJ POIS TENHO O NOME SUJO POR ISSO ACABO PERDENDO A OPORTUNIDADE DE TRABALHAR DIRETO COM AS EMPRESAS (CONFECÇÕES) SÓ CONSIGO PEGAR DE OFICINAS Q TEM CNPJ E PEGAM DIRETO DAS EMPRESAS ELES PASSAM PREÇO BAIXO DE 1,20 À 3,00 A FABRICA OU CONFECÇÃO NÃO TEM O CONHECIMENTO QUE TRABALHO INDIRETAMENTE PRA ELES.
    AS VEZES ACABO NÃO RECEBENDO OS VALORES OU SEJA TOMO CALOTE, MAS INFELIZMENTE TENHO 2 FILHOS PRA SUSTENTAR E COMO NOSSO BRASIL TEM MUITA BUROCRACIA NÃO TENHO COMO ME LEGALIZAR E TRABALHAR DIRETO COM OS FABRICANTES, PORTANTO A CULPA NÃO É NEM DA GEP E MENOS AINDA DOS BOLIVIANOS E SIM DOS Q USAM AMBOS

  11. […] seus desdobramentos legais”, explica Bezerra, que no ano passado convocou representantes dos grupos GEP (dono das marcas Cori, Emme, Lugi Bertolli e GAP do Brasil), e Restoque (Le lis Blanc e Bourgeis Bohême – Bo.Bô) para prestar […]

  12. […] e seus desdobramentos legais”, explica Bezerra, que no ano passado convocou representantes dos grupos GEP (dono das marcas Cori, Emme, Lugi Bertolli e GAP do Brasil), e Restoque (Le lis Blanc e Bourgeis Bohême – Bo.Bô) para prestar esclarecimentos à […]


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