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Terceirização e trabalho análogo ao escravo: coincidência?

A adoção da terceirização potencializa a capacidade de exploração do trabalho e reduz a probabilidade de atuação dos agentes que poderiam impor limites

Dois dos fenômenos do chamado mundo do trabalho mais divulgados, pesquisados e debatidos no Brasil nas últimas duas décadas são a terceirização e o trabalho análogo ao escravo. Eles estão envoltos em ferrenha disputa no bojo das relações entre capital e trabalho, assim com no conjunto da sociedade, pois constituem, respectivamente, estratégia central no atual perfil predominante de gestão do trabalho e o limite do assalariamento no capitalismo brasileiro.

Trabalhadores flagrados em condições análogas às de escravos realizam reparos e construção de postes da Cemig (Fotos:  MTE)

Trabalhadores terceirizados submetidos à escravidão realizavam reparos e construção de postes da Cemig. Fotos: Divulgação/SRTE-MG

Estamos na iminência de possível inflexão da regulação da terceirização e do trabalho análogo ao escravo. Quanto a este último, foi promulgada este mês emenda à Constituição que prevê a expropriação de propriedade na qual for flagrada exploração de trabalhadores nessas condições. Contudo, empregadores e suas entidades representativas estão tentando aproveitar a regulamentação dessa emenda para alterar o conceito de trabalho análogo ao escravo.

Sua intenção é restringir o crime à coerção individual direta e absolver todas as formas de opressão típicas da coerção do mercado de trabalho, que são aquelas próprias do capitalismo**. Assim, se reduziriam drasticamente os limites à exploração do trabalho.

Terceirização no STF
Quanto à terceirização, o Supremo Tribunal Federal decidiu reconhecer repercussão geral à decisão que será tomada em processo sobre o tema, que servirá como precedente fortíssimo à atuação de todo o Judiciário, demais instituições de regulação do trabalho e, em especial, às empresas. O ministro Luiz Fux deu provimento ao recurso patronal de embargos declaratórios em recurso extraordinário com agravo regimental em 2013 (baixe a decisão em PDF), no que foi integralmente acompanhado pelos demais componentes da Turma, para reconhecer repercussão geral ao tema da terceirização de atividade-fim, em 1º de abril de 2014  (baixe a decisão em PDF). Acompanhe os desdobramentos da ARE 713211 MG direto no site do STF.

As empresas que terceirizam buscam, dentre outros objetivos, externalizar custos e diversos riscos (dos adoecimentos laborais ao próprio sucesso do negócio). Além disso, tentam transferir (afastar) a incidência da regulação exógena (Estado e sindicatos) do seu processo de acumulação, externalizando ao ente interposto o encargo de ser objeto de qualquer regulação limitadora.

Centrais protestam contra PL 4330 em São Paulo (SP), no dia 6 (Foto: Guilherme Zocchio)

Centrais sindicais protestam contra PL 4330 na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Guilherme Zocchio

A adoção da terceirização pelas empresas potencializa a capacidade de exploração do trabalho e reduz a probabilidade de atuação dos agentes que poderiam impor limites a esse processo. É exatamente nessa combinação de fatores que reside a relação entre terceirização e trabalho análogo ao escravo.

Supremacia empresarial
Ao incrementar a supremacia empresarial sobre o trabalhador, e diminuir as chances de atuação de forças que limitam esse desequilíbrio, a gestão do trabalho por meio da terceirização engendra tendência muito maior a ultrapassar as condições de exploração consideradas como limites à relação de emprego no quadro jurídico brasileiro.

Dos 10 maiores resgates de trabalhadores em condições análogas à de escravos no Brasil em cada um dos últimos quatro anos (2010 a 2013)[4], em 90% dos flagrantes os trabalhadores vitimados eram terceirizados

Assim, a terceirização tende a promover o trabalho análogo ao escravo mais do que uma gestão do trabalho estabelecida sem a figura de ente interposto, se vinculando às piores condições de trabalho apuradas em todo o país.

Dos 10 maiores resgates de trabalhadores em condições análogas à de escravos no Brasil em cada um dos últimos quatro anos (2010 a 2013), em 90% dos flagrantes os trabalhadores vitimados eram terceirizados, conforme dados obtidos a partir do total de ações do Departamento de Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae) do Ministério do Trabalho e Emprego.

Note-se que esses dados não discriminam setor da economia, porte das empresas, ou regiões do país. Poder-se-ia alegar que seriam terceirizações espúrias, constituídas por empresas informais, ou pessoas físicas, como “gatos”. Ou seja, não estaríamos tratando da “verdadeira” terceirização, mas apenas da “má”.

Trabalho escravo
Para analisar a procedência dessa eventual alegação, vejamos os dados concernentes aos resgates nos quais os trabalhadores eram formalizados, casos típicos da presumida “verdadeira” terceirização. Entre os resgates ocorridos em 2013, nos 8 maiores casos em que a totalidade dos trabalhadores eram formais, todos eles eram terceirizados formalizados por figuras interpostas. Já no grupo de resgates com parte dos trabalhadores com vínculo formalizado, das 10 maiores ações, em 9 os trabalhadores resgatados eram terceirizados.

Trabalhadores foram contratados para venda ambulante de bebidas no festival (Fotos: MTE)

Bob´s terceirizou contratação de vendedores ambulantes no Rock´n Rio e foi responsabilizado pela situação a que eles foram submetidos. Fotos: SRTE/RJ

Entre esses resgates com terceirizados formalizados figuravam desde médias empresas desconhecidas, até gigantes da mineração e da construção civil, do setor de produção de suco de laranja, fast food, frigorífico, multinacional produtora de fertilizantes, obras de empresas vinculadas a programas do governo federal.

O setor que mais tem se destacado em número de flagrantes de trabalhadores em situação análoga à de escravos nos últimos anos confirma essa incidência de trabalho terceirizado nos resgates. Dos 22 flagrantes ocorridos em construções em 2011 e 2012, 19 ocorreram com terceirização, incluindo desde pequenas empresas, até gigantes do setor.

Assim, há fortes indícios de que terceirização e trabalho análogo ao escravo não simplesmente caminham lado a lado, mas estão intimamente relacionados.

* Vitor Araújo Filgueiras é doutor em Ciências Sociais (UFBA), pós-doutorando em Economia (UNICAMP), Pesquisador de Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (CESIT) da UNICAMP e auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego. 

** Para saber mais sobre a dinâmica de disputa pela regulação, acesse: Trabalho análogo ao escravo e o limite da relação de emprego: natureza e disputa na regulação do Estado.

Baixe a versão integral deste artigo, em documento formato PDF com dez páginas.

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4 Comentários

  1. Adriano Diamarante

    Gostei muito da matéria e obrigado pelos dados.

  2. Erminio Lima Neto

    Primeiramente é de bom alvitre ressaltar que o conceito de trabalho análogo a escravo, ainda está longe de se chegar a um consenso, tanto que o tema continua aberto no Congresso Nacional. Os “resgates” que estamos assistindo, trata-se de de uma análise unilateral, e subjetiva, dos fiscais do trablho e/ou do MPT, que, data venia, neste tema, não têm as insenções nescessárias,pela exagerada presença ideológica. Em segundo lugar é um absurdo querer transparecer, induzir, qualquer semelhança de escravidão com o trabalho terceirizado, o que, conclui-se, que a “esquerda utópica”, continua, após a queda do muro de Berlim, sua luta hercúlea em busca de uma bandeira.

  3. Chega de pensar que nosso povo é burro, terceirização nesses casos é o mesmo que "pagar um laranja" para assumir riscos e consequentemente sair por cima, dizendo que não sabia, inocente não? É trabalho escravo sim senhor, e ninguem quer transparece

    Chega de pensar que nosso povo é burro, terceirização nesses casos é o mesmo que “pagar um laranja” para assumir riscos e consequentemente sair por cima, dizendo que não sabia, inocente não? É trabalho escravo sim senhor, e ninguem quer transparecer FATO É FATO, quem tem alguma dúvida ainda é só assistir A LIGA e ver o capítulo trabalho escravo, os “terceirizados” são tão vítimas quanto os demais, chega de HIPOCRISIA e falar de direita e de esquerda. Tomem vergonha na cara e vão trabalhar ao invés de sugar o sangue do povo trabalhador.

  4. Michel Guedes

    Data vénia, discordo do Sr. Erminio, que a posição do MTE e MPT seja ideológica, ao contrário, é uma interpretação da Constituição, mas especificamente, do princípio da dignidade da pessoa humana aplicada as relações de trabalho. Aliás, não entendo o por que de qualquer avanço na área social ser taxada pelos setores mais conservadores de “utopia esquerdista”. O Brasil não está fazendo nada diferente do que os EUA ou Europa fazem, que é construir um modelo politico-social baseado na efetividade “normativa” da Constituição. Na minha visão, quem quer ressuscitar o muro de Berlin é a direita ortodoxa brasileira, movendo o debate da esfera “legal-jurispridencial” para área ideológica, onde o juiz é apenas o “Boca da Lei”. Basta citar o ilustre jusfilósofo Ronald Dworkin (que é americano e liberal): Norma é um tipo que é composto de dois subtipos que são Regras e Princípios. Na falta da regra como afirmou o Sr. Erminio, ou no caso de haver colisões entre duas delas, aplica-se os Princípios, que não são ideologias, mas tem o mesmo cunho normativo que as anteriores. Ex. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, de cunho Constitucional. Portanto MTE e MPT não estão fazendo “Filosofia Marxista” e sim aplicando o Ordenamento Jurídico Brasileiro.

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