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“A dona ficava com o nosso salário”

Bolivianos contam como eram as condições na oficina que fornecia à Zara em 2013. No ano seguinte, eles foram resgatados do local como vítimas de trabalho escravo

Os bolivianos Bruno e Fábio (nomes trocados) se conheceram em uma oficina de costura suja e escura na periferia de São Paulo. Eles passaram os dois últimos anos costurando, das seis da manhã às nove da noite, para marcas como Zara e Renner – entre outras. O relato da dupla revela a ineficácia das ações tomadas pela Zara, empresa que se comprometeu em controlar sua rede de fornecedores depois que foi responsabilizada pela exploração de trabalho escravo contemporâneo.

Pressionada pela opinião pública e órgãos de fiscalização, a empresa firmou um Termo de Ajustamento de Conduta em 2011. Nele, comprometia-se a tomar medidas corretivas para garantir que suas peças fossem costuradas dentro das leis trabalhistas. Mas depois de uma longa investigação, o Ministério do Trabalho e Emprego chegou à conclusão de que a empresa não tomou medidas mínimas nem mesmo para garantir que não haveria mais a exploração de trabalho escravo em sua rede de fornecedores.

As mesmas oficinas onde Bruno e Fábio trabalhavam, e que forneceram para a Zara em 2013, foram flagradas explorando trabalho escravo em novembro de 2014. Nessa ocasião, eles estavam costurando para a Renner. Segundo o relato dos trabalhadores, as condições em 2013 e 2014 eram similares.

Eles deram a seguinte entrevista à Repórter Brasil sob a condição de anonimato, pois sofreram ameaças depois de procurar ajuda:


porta renner igor

“A gente começava a trabalhar às seis da manhã e ía até às nove da noite, às vezes meia noite. Mas a mulher que batia nosso ponto marcava sempre o horário das sete da manhã às seis da tarde.

O trabalho era cronometrado. Se não tirasse 30 peças em uma hora, ela descontava como hora incompleta. Depois tinha que trabalhar mais.

Tinha um gerente muito violento. Ele levava uma faca na cintura, gritava com a gente, mandava limpar o chão do banheiro. Ele bateu em um funcionário na nossa frente.

Tinha uma adolescente trabalhando lá e duas crianças, que ficavam no meio das máquinas.

A dona ficava com o nosso salário, ela mentia, dizia que o banco brasileiro cobra taxa de juros alta. A gente tinha acabado de chegar, confiamos nela.

Trabalhamos muito um ano inteiro, economizando, sem gastar nada que não fosse preciso. A dona guardava tudo. Depois ela disse que não podia devolver nosso dinheiro, que a gente procurasse a justiça. Até hoje não recebemos por parte desse ano de trabalho.

Depois que procuramos ajuda, começaram as ameaças. O gerente e seus parentes ficavam espionando quando a gente ligava para o advogado.

Ficamos com medo e fugimos para outra cidade. Foi difícil porque não conhecemos ninguém. A gente vem para trabalhar e acaba assim.”

 

Leia a reportagem completa sobre o caso:

Zara corta oficinas de imigrantes e será multada por discriminação


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