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Repórter Brasil, 15 anos

Artigo escrito por ocasião dos 15 anos de fundação da Repórter Brasil defende que uma organização da sociedade civil que trabalha com mídia deve promover os direitos humanos, identificar vítimas e violadores, e, sobretudo, desvendar o sistema.

Como costuma dizer um velho professor da USP, o jornalismo deve ser independente, mas jamais imparcial.

Afinal, como manter a imparcialidade diante da miséria, da fome, do sofrimento, da exploração?

Nascido em Portugal, Manuel Chaparro fora criado no paradigma jornalístico europeu e emigrou para o Brasil já profissional formado.

Sua visão sobre o jornalismo, marcada por um senso ético de interesse público, rapidamente se conectava a de muitos alunos que chegavam à universidade com energia nas alturas, sonhando em mudar as coisas, denunciar, defender os necessitados.

São lembranças dos corredores universitários o que primeiro me vêm à memória ao escrever sobre jornalismo e direitos humanos, quando se completam 15 anos da fundação da Repórter Brasil.

Não há como ser imparcial diante das iniquidades brasileiras. Não há como conceber um jornalismo que não se guie pela defesa dos direitos negados às pessoas.

Parece um clichê dizer isso – até porque o ideal dos direitos humanos está cristalizado entre a maioria de nós. É uma das ideologias hegemônicas que temos hoje.

As históricas lutas antimonárquicas legaram aos marcos internacionais que todos nascem iguais em dignidade e direitos. Esse é, aliás, o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Mas quem é que vai dizer que os direitos humanos viraram realidade? Há tanta gente sem moradia, crianças fugindo de guerras, imigrantes sendo chutados, trabalhadores escravizados.

Lembrando o “Mito da Caverna”, de Platão, referência usual nas faculdades de jornalismo, é fundamental que cada vez mais gente saia da gruta e traga diferentes versões sobre a realidade.

É o que tenta fazer a Repórter Brasil, explorar o exterior da caverna, onde prisioneiros acorrentados só acreditavam nas projeções feitas na parede pela luz de uma fogueira.

Sob a luz do sol, há que se bater perna no interior do país a entrevistar o povo de periferias, aldeias e comunidades historicamente esquecidas. Em tese, ele tem todos os direitos. Na prática…

Mas a verdade é que não basta contar essas histórias. É fundamental um olhar humanizador – sem pieguices.

Tenho pra mim que a solução mental que muitos de nós adotamos para conviver com as tragédias do dia a dia é desumanizar as vítimas. Nos distanciamos, não as vemos como seres humanos.

É mais fácil entender o que digo se pensarmos no que falam sobre criminosos por aí: “direitos humanos são para humanos direitos”. No fundo, queremos dizer que bandidos não são seres humanos.

É interessante que essa visão não nega necessariamente os valores dos direitos humanos. A pessoa diz: veja, eu defendo direitos humanos, mas não para o fulano que fez isso ou aquilo.

É na luta contra esse discurso que a Repórter Brasil encontrou uma trincheira. Muito mais do que fazer um jornalismo que promova os direitos humanos, deseja-se reportar a humanidade dos que têm sido sistematicamente desumanizados.

Com reportagens que contam histórias de maranhenses escravizados em fazendas de boi no Pará; indígenas que perderam terras para sojicultores no Mato Grosso do Sul; bolivianas que amamentam bebês enquanto costuram em oficinas de São Paulo.

Mas é preciso dar mais um passo além. Não basta falar sobre os que tiveram seus direitos violados. As pessoas querem saber quem viola, e por que viola.

Tradicionalmente, esse peso é colocado sobre os Estados. Conforme o sistema internacional criado após a Segunda Guerra, são eles que devem proteger e pagar por crimes cometidos contra indivíduos.

É dentro dessa referência que a mídia tradicional ajustou sua missão, cobrindo delitos cometidos por exércitos e polícias, alertando para a incapacidade de governos cumprirem seus deveres em políticas públicas.

Mas a expansão das empresas transnacionais exigiu uma atualização que muitos órgãos de imprensa não foram capazes de fazer. Grandes transnacionais movimentam mais recursos financeiros do que diversos Estados, e também causam danos aos direitos humanos.

O tema não é novo. Ainda nos anos setenta, a ONU lançou o Centro sobre Corporações Transnacionais, para discutir a atuação delas e monitorá-las. Mas o órgão não prosperou e acabou extinto na década de noventa.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) acabou desempenhando importante papel nessa regulação, e em 2011 o Conselho de Direitos Humanos da ONU lançou os Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, de caráter voluntário e, por isso mesmo, ainda de pouco efeito.

Não há espaço aqui para discutir porque a mídia tradicional não tem sido capaz de estender a cobertura crítica que faz a governos em direção a grandes empresas. Talvez a necessidade do financiamento publicitário seja uma hipótese a ser explorada.

Mas a questão é que organizações da sociedade civil que atuam com jornalismo e não dependem da grana de anúncios têm potencial para colocar as empresas no centro do debate sobre direitos humanos. A Repórter Brasil é exemplo.

Nos últimos anos, reportagens revelaram a ligação de grandes marcas globais, como Coca-Cola e Zara, com casos de trabalho escravo. De Bunge e Raízen, com a compra de matéria prima em áreas reivindicadas por indígenas. De JBS e Brasil Foods, com o desmatamento na Amazônia.

Veja que são empresas de setores diferentes que se beneficiaram da exploração do trabalhador ou do meio ambiente.

De certo modo, não faltam casos em que Estado e transnacionais operam unidos para violar os direitos das pessoas, assumindo a vilania na luta de classes.

E não são casos isolados, o sistema funciona assim, muitas vezes sustentado por financiamento estatal e legislação camarada.

Isso me lembra de outra aula de jornalismo, desta vez oferecida por Martin Baron, retratado no premiado filme “Spotlight” quando editor do diário “The Boston Globe”.

Ao discutir a publicação das reportagens sobre abusos sexuais de padres contra crianças, ele defendeu que o destaque deveria ser dado ao “sistema” – ou seja, ao fato de a Igreja esconder o escândalo – e não aos casos individuais. O impacto e os efeitos seriam maiores, acreditava.

Estou de acordo. É com essa estratégia que o jornalismo pode ser relevante na vida das pessoas, em especial na seara dos direitos humanos.

Não basta promovê-los, é preciso identificar vítimas e violadores. Não basta descrever casos, é preciso desvendar o sistema – é o que espero que a Repórter Brasil consiga fazer ainda mais nos próximos 15 anos.

*Marcel Gomes é secretário-executivo da Repórter Brasil. Jornalista e mestre em Ciência Política pela USP, e doutorando em planejamento de sistema energéticos pela Unicamp.


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