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Invisibilidade, constrangimentos e sobrecarga nos quartos dos hotéis

Camareira de uma grande rede localizada nas imediações do shopping Ibirapuera, a trabalhadora Luzinete [nome fictício] denuncia excesso de trabalho e os consequentes problemas de saúde. “O que importa é o relatório com as metas de limpeza e arrumação do dia. Nós não existimos”, denuncia.

Arte: Eugênia Hanitzsch

Às vésperas de receber um grupo grande para as Olimpíadas 2016 no Rio, Luzinete [nome fictício] passou por uma situação que nunca imaginava que iria passar na vida: atividades de treinamento para enfrentar eventuais situações de terrorismo no período dos jogos no Brasil. O ineditismo da situação acentuou-se pelo fato de que, treinamento, para as trabalhadoras do setor, é artigo raro.

“Não temos ninguém para olhar por nós”, lamenta, afirmando que são muitos os problemas enfrentados pelos trabalhadores no setor. “E o sindicato não faz nada. Pegamos muitos apartamentos, muitos quartos. Muita gente fica insatisfeita, tem problemas, falta, faz o atestado. E eu acabo fazendo o meu serviço e o da outra pessoa”.

Há 13 anos no setor, Luzinete classifica sua relação com o que faz como “muito insatisfeita”. O hotel em que ela trabalha conta com mais de 600 apartamentos, divididos em duas torres. “Ficamos lá e cá, indo de um prédio para o outro. Eles mandam e a gente obedece. O pessoal sai arregaçado”.

De acordo com Luzinete, o hotel costuma ficar cheio, dada a localização, próxima ao aeroporto de Congonhas e ao shopping Ibirapuera. “Tem de tudo na região, e quem sofre com essa lotação somos nós. Porque não temos funcionários suficientes”.

Embora o excesso de trabalho seja evidente – e tenha suas consequências –, ela afirma que “o que mais me incomoda é que a gente não pode falar nada, reclamar. Não somos ouvidos”. Em sua rotina diária, Luzinete cuida de cerca de 28 a 30 apartamentos para arrumar. “Tentamos dizer que é muito, mas no dia seguinte é a mesma coisa de novo. A gente se sente muito explorada”.

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Para cuidar das duas torres do hotel, normalmente o turno conta com quatro pessoas. No entanto, nos casos de uma pessoa ficar doente, ou em horários de almoço, há situações de uma única pessoa ficar cuidando de toda aquela torre. “No domingo, isso acontece também. Eles querem fazer economia nos explorando. E não pode reclamar!”

Para Luzinete, se o hotel entende que não é o momento de contratar mais gente, a fim de economizar e não assumir mais gastos, uma saída (que sequer para as Olimpíadas foi aplicada) seria utilizar os serviços de uma cooperativa ou de uma agência. “Está cheio de gente querendo trabalhar. Enquanto a gente fizer todos os apartamentos determinados para um dia, não vão fazer nada”.

A dinâmica do trabalho é determinada por um relatório entregue aos trabalhadores no início do dia, e a pessoa só vai embora quando fechar o relatório. “Não pode ser assim. Não pode se matar para fechar o relatório”, afirma. “Não consigo imaginar como uma mãe chega em casa e ainda vai cuidar dos filhos dela, cozinhar, arrumar a casa”.

As horas extras são também artigo raro. A maior parte do trabalho feito além da jornada diária “vai para o tal ‘banco de horas’. E a folga decorrente do banco de horas os empregadores “dão quando querem”. “Com isso, enrolam muito a gente. Eles que controlam tudo e decidem quando vamos folgar”, afirma.

Ao deus dará

Luzinete enxerga a sua categoria “ao deus dará”, com os funcionários muito desmotivados. “Nós não temos valor. Não existe um cuidado, uma palavra amiga. Nós não somos reconhecidos. Quanto mais a gente se mata, menos é reconhecida”.

Ela se lembra de um episódio em que uma cliente deu por falta de algumas notas fiscais – e falou que a camareira teria mexido em sua coisas, acusando depois a trabalhadora de ter roubado sua carteira. “Mas estava tudo na bolsa da cliente”. Segundo Luzinete, depois a rede botou panos quentes no episódio e não deu nenhum retorno à funcionária. “Ela foi para casa chorando e ficou por isso mesmo”, relembra.

“Somos a pior classe que tem dentro do hotel”, considera Luzinete. “Se some algo, vão para cima da gente que nem uma cobra. Isso me revolta. A nossa palavra não vale nada. A do hóspede que vale!”. Ela avalia que, se um funcionário já trabalha há cinco anos, dez anos no lugar, é por ser de confiança. “Ou confia em nós ou manda embora. Se você tem sua equipe, tem que confiar nela. Não levar para fazer inquérito na salinha”.

“Se some algo, vão para cima da gente que nem uma cobra. Isso me revolta.”

Para evitar esse tipo de situação, Luzinete afirma preferir manter um certo distanciamento do hóspede. E adotar outras precauções. “Entro no quarto, já olho tudo para não ter problema”.

Quando tira férias, ela trata de pegar os 30 dias em um único período. “A gente não vê a hora de tirar férias para descansar os ossos”, conta ela, que deve ir para o Nordeste este ano por uma semana. “Minha filha me deu uma viagem de presente”, alegra-se.

Luzinete conta que muitos haitianos estão trabalhando no hotel. “Estão sofrendo muita pressão. Querendo ou não, eles estão sendo discriminados”, acredita. “Falam mais grosso com eles, com certeza”. Segundo ela, alguns haitianos que começaram a trabalhar no hotel foram embora já.

Cada um por si

O esforço exigido pela jornada das profissionais do setor cobra o seu preço no caso de muitas delas. “Uma colega nossa operou a coluna, ficou um ano afastada, voltou, não deu conta. Está com a coluna cheia de parafuso. O médico mandou parar de novo”, registra Luzinete, destacando que os problemas de coluna são recorrentes. “Tem muita gente que fica com bursite também. Uns cinco anos atrás, fiquei cinco meses afastada por um problema desses”.

Ela conta que as trabalhadoras levantam os colchões (pesados) dos quartos sozinhas a todo momento, além de empurrarem um enorme carrinho de limpeza, e ainda abaixarem a toda hora para trocar a roupa de cama de dezenas de quartos. “São muitos movimentos repetitivos e pesados”. Por outro lado, o hotel nunca contou com equipe para instruir as camareiras a fazer exercícios de alongamento e ginástica laboral. “Já até teve uma salinha boa, mas foi diminuindo, até caber só umas cinco pessoas. Devia ter pelo menos uma sala e o profissional para nos orientar”.

Não bastassem os problemas causados pelo esforço físico, é preciso tranquilidade – além de muito sangue frio e estômago forte – para lidar com o estado em que alguns quartos são deixados. “A gente encontra o pessoal voltando da balada, tem a pessoa que coloca toalha no vão da porta para não sair o cheiro da fumaça… Fora quando tem camisinha para todo o lado, vômito, vaso entupido. Esses problemas não são raros”.


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