A Repórter Brasil está sob censura judicial desde o dia 9 de outubro de 2015. Saiba mais.

Um grave acidente. E tudo seguiu como antes

Exposta a graves riscos de contágio após contato com seringa, camareira Rafaela [nome fictício] fez tratamento com o coquetel anti-HIV e conseguiu superar o episódio. No hotel, contudo, nada mudou depois do ocorrido

“Trabalho atualmente como camareira em um grande hotel na região sul de São Paulo. Sou registrada. Estou há cerca de três anos nesse emprego. É meu primeiro trabalho em uma rede de hotel.

Já trabalhei em várias empresas do setor metalúrgico, na região de Guarulhos. E trabalhei de atendente na Cacau Show. Durante mais ou menos seis anos em que estive na área metalúrgica, nunca tive nada, nenhum problema. Sempre participei da Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes]. Acho que nesse setor os trabalhadores são mais respeitados, mais organizados.

Leia mais:
O que hotéis não contarão a seus hóspedes neste verão
Um grave acidente. E tudo seguiu como antes
Sonhos e decepções de um imigrante haitiano no Brasil
Sindicato dos trabalhadores aposta em ações judiciais contra hotéis

Na rede hoteleira, foca-se muito no hóspede, no atendimento, em agradar – e acabam não enxergando a pessoa que trabalha. Querem que esteja tudo perfeito para o hóspede, a imagem do hotel, e acabam esquecendo o funcionário. Ele só tem que produzir, fazer tudo, é muita pressão.  Já vivenciei casos de a pessoa estar bem doente, mal mesmo, não estar aguentando, e falarem para ela ‘só vai sair daqui quando acabar o relatório’. Como se a pessoa fosse de ferro, uma máquina.

Arte: Eugênia Pessoa Hanitzsch

Sofri um acidente. O hóspede jogou uma agulha usada no lixo do banheiro. Não tem caixinha para recolher seringa descartável ou coisas semelhantes, não tem nada assim no hotel. Coloquei o saco de lixo do banheiro dentro do saco preto do lixo geral. Quando fui empurrar o carrinho, senti algo furando a minha perna. Fui tatear o saco e falei: ‘é uma agulha!’. Tiramos tudo do lixo e achamos a agulha. A supervisora falou na hora: ‘vai no médico!’. A princípio, fui no hospital do convênio, mas disseram que não atendia, que eu precisava ser atendida no hospital público. Fui no hospital Padre Bento, em Guarulhos. Fui muito bem atendida, a médica me atendeu imediatamente.

De cara, ele já veio com o coquetel e também com remédio contra hepatite. É uma medicação muito forte, muito forte mesmo. Você fica muito ruim por uns 15 dias, que é o tempo em que se toma o coquetel nesse primeiro momento. Me encaminharam então para o Emílio Ribas, que é referência no assunto, para ter o acompanhamento do caso. Em Guarulhos, só havia o atendimento de emergência.

“No hotel eles até falam para a gente usar a luva, mas eu não furei [com a agulha] na mão, foi na perna.”

Imagine passar por uma coisa dessas? Sua cabeça pira mesmo. Tive acompanhamento psicológico no Emílio Ribas. Faz uma checagem com 30 dias, depois com dois meses, três meses, seis meses, um ano. Hoje, graças a deus, está tudo bem. Fiz um último exame agora em 2016.

Mas tanto a hepatite quanto o vírus HIV não se desenvolvem de um dia para o outro. Podem levar anos para se desenvolver. Depende também do organismo de cada pessoa.

No hotel eles até falam para a gente usar a luva, mas eu não furei na mão, foi na perna. A luva não vai prevenir esse tipo de coisa. Já houve caso no hotel de a agulha furar a luva e a mão da pessoa. São 14 dias para tomar o remédio, muito forte, dá tontura. E o setor de governança do hotel dizia que, se eu estava ‘bem’, era para trabalhar. Me deram uma advertência verbal, de que eu precisava produzir.

Outra coisa que é feita nessa área de saúde pelos hotéis é que eles tratam de jogar nossa folga para o dia que temos consulta: não nos deixam fazer a consulta no dia de trabalho. Ou marcamos a consulta no dia da nossa folga, ou jogam a folga pro dia da nossa consulta!

Na prática, depois do ocorrido comigo, não mudou nada, nada, nada. Continua do mesmo jeito. A gente é que tem que tomar um cuidado milimétrico.

No meu caso foi agulha usada para insulina, de alguma pessoa que sofre de diabetes, risco menor de ser infectado. Mas a gente sempre encontra, sempre tem agulha, sonda… A maioria é por questão de saúde. Mas tem caso também de uso de droga. E muitas vezes descartada sem cuidado algum.

Eu gosto muito de mim. Me cuido. Muito. Cuido da minha saúde. E uma coisa assim abala a gente demais. A empresa não se preocupa, não pergunta se está bem. Quer que faça exame e vá ao médico, mas só na folga. Só que a consulta é pelo SUS, não tem como marcar de acordo com a folga.

Somente nessa rede, já sei de outras três pessoas que viveram acidentes parecidos. Pelo menos três pessoas! Eu sei que uma outra senhora passou por uma situação semelhante, mas não foi atrás desses cuidados como eu fui. Ela não teve orientação do hotel, não falaram para ela que tinha que ir de imediato ao médico. Só depois de cerca de um mês, quando ela falou conosco é que ela foi ao médico, mas falaram para ela que já não adiantava tomar o coquetel”.


Apoie a Repórter Brasil

saiba como

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *