Tag: Biodiesel

Especial: 10 anos do Programa Nacional do Biodiesel

Especial: 10 anos do Programa Nacional do Biodiesel

No mês de dezembro de 2014, a política brasileira de biodiesel completa sua primeira década de existência. Para marcar essa data, a Repórter Brasil publicou dez reportagens sobre o tema: um balanço sobre os fracassos e sucessos da iniciativa. Lançada durante o governo Lula, em 2004, na onda do apoio aos combustíveis renováveis e para gerar ainda mais valor às cadeias de oleaginosas como a soja, a política também tinha como um eixo fundamental a inclusão da agricultura familiar. Sob alguns aspectos, o programa é um sucesso. O Brasil está hoje na terceira posição no ranking mundial de produtores de biodiesel, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. São bilhões de dólares economizados por ano com importação de diesel. Já os resultados quanto à inclusão social são bem mais modestos. A meta inicial do programa previa a entrada de 200 mil famílias de agricultores familiares nas cadeias de fornecimento de insumos para produção de biodiesel. Hoje, a metade dessas famílias participa do programa. A proposta inicial de valorizar cultivos tradicionais da agricultura familiar, como a mamona, também não teve sucesso. Os produtores que conseguem vender para as usinas trabalham, sobretudo, com a soja. As dificuldades já eram esperadas pelo governo, talvez não na proporção encontrada. Para dar tempo à estruturação das cadeias de fornecimento familiar, marcadas pela precariedade nas regiões Norte e Nordeste, o biodiesel seria misturado ao diesel em parcelas ascendentes até o patamar de 5% do composto total em 2013 – o chamado B5. Nem mesmo esse ritmo de expansão mais lento permitiu que a meta inicial fosse atingida. O programa passou por diversas reestruturações em sua curta existência,...
Agronegócio da soja domina produção de biodiesel no Mato Grosso

Agronegócio da soja domina produção de biodiesel no Mato Grosso

Campo Verde (MT) – O Mato Grosso possui atualmente 547 assentamentos, segundo balanço divulgado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em janeiro de 2014. Desse total, uma parcela diminuta – aproximadamente 15, de acordo com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado de Mato Grosso (Fetagri-MT) – abriga produtores inseridos no Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). São apenas mil famílias beneficiadas entre as mais de 130 mil famílias assentadas naquele estado. Trata-se de uma parcela irrisória também no universo das cerca de 100 mil famílias de agricultores familiares que, em nível nacional, fazem parte do PNPB. Um número que contrasta com a importância do Mato Grosso na produção de biodiesel. Estão localizadas no estado 20 das 63 usinas atualmente autorizadas a produzir o combustível pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Trata-se da unidade da federação com maior número de usinas instaladas. Elas respondem por 26% da capacidade produtiva do país. A agricultura familiar inserida localmente na cadeia produtiva do biodiesel é virtualmente toda oriunda dos projetos oficiais de reforma agrária. Tratam-se de assentamentos localizados em importantes polos agroindustriais, como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde, ou, ainda, alguns em municípios adjacentes. A grande distância da maioria dos assentamentos locais para os polos industriais do estado, infraestrutura interna deficiente – acesso à água etc. – dificuldades para o escoamento da produção devido às más condições das estradas, problemas fundiários, ambientais e de acesso a crédito, além de lacunas na assessoria aos parceleiros, são apenas alguns dos obstáculos comumente associados a uma expansão mais robusta do PNPB nas áreas de reforma agrária...
Estado e mercado podem reinventar o papel das cooperativas no Programa de Biodiesel

Estado e mercado podem reinventar o papel das cooperativas no Programa de Biodiesel

Nem tanto ao Estado, nem tanto ao mercado. Um mergulho na realidade atual das cooperativas que participam do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) demonstra que a situação das associações ainda pode melhorar – e muito. Para isso, tanto o Estado quanto o mercado podem aprimorar vários aspectos de sua atuação no programa e de seu relacionamento com as cooperativas, gerando um cenário mais positivo para todos. A Repórter Brasil viajou por três regiões do país, visitando cooperativas nos estados de Goiás, Rio Grande do Sul, Piauí e Mato Grosso, a fim de conhecer melhor a realidade das cooperativas ligadas ao PNPB. A escolha das cooperativas partiu da lista das 105 associações apresentadas como habilitadas no programa em dezembro de 2013. Os estados foram escolhidos a partir do número de cooperativas habilitadas (casos do Rio Grande do Sul, com um total de 48 cooperativas habilitadas no momento inicial da pesquisa, e de Goiás, com surpreendentes 11 cooperativas), pela liderança na agricultura nacional (caso do Mato Grosso) e pelo papel emblemático desempenhado no PNPB – caso da Cooperativa Santa Clara, no Piauí. Ao longo da pesquisa, a reportagem esteve na sede da Coomafa, Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares de Amaralina (GO). O presidente da associação, Anasor Ferreira, explica que a cooperativa atua com base em dois assentamentos, organizados a partir da atuação da Contag e da Fetaeg. O Projeto de Assentamento Água Fria conta com 157 famílias e o Zebulândia com 40. A Coomafa tem no leite seu principal produto. As terras que deram origem aos dois assentamentos eram da família Braguetto: a posse da fazenda Zebulândia...
Soja é alternativa para as cooperativas se estruturarem (e sonharem com a diversificação)

Soja é alternativa para as cooperativas se estruturarem (e sonharem com a diversificação)

Nem só de soja sobrevivem as cooperativas inseridas no Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, o PNPB. No entanto, boa parte das cooperativas visitadas pela Repórter Brasil nos meses de janeiro e fevereiro de 2014 enxerga a produção da soja como um caminho para se estruturarem – e para consolidarem a diversificação de sua produção. Algo almejado tanto no âmbito do PNPB quanto de outros projetos. José Pereira Vinhal, de 46 anos, veio da região de Ceres (GO) para participar da luta pela reforma agrária no município goiano de Santa Isabel, desde a etapa do acampamento. A mobilização levou à conquista de um assentamento em 2001. “É uma terra boa, que permite um cultivo de primeira em parte da região”. Planta-se milho, arroz e mandioca, sobretudo. A maioria das pessoas que vive no assentamento está desde o começo, alguns já mudaram. Vinhal é o atual presidente da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares do Assentamento Nova Aurora, a Coopafana, que possui 46 associados, de 40 famílias assentadas. O forte da produção local é o leite, vendido para a empresa Manacá. “Na reunião, a gente pensa em fazer mais coisas, mas tem uma burocracia danada.” Entre as coisas mais pensadas para a cooperativa, os associados debatem sobre como agregar valor ao leite, fazer novos produtos, investir em uma agroindústria e na comercialização etc. “Em seguida ao leite, vem o biodiesel”, explica Vinhal. “E tem o PNAE também. A gente vende quase tudo aqui na região. Diria que o leite responde por uns 70% da nossa receita, o biodiesel por cerca de 20% e o PNAE por 10%”. O PNAE...
No Mato Grosso, a agricultura familiar se aproxima do agronegócio

No Mato Grosso, a agricultura familiar se aproxima do agronegócio

Nova Ubiratã (MT) – No norte do Mato Grosso, a Cooperativa Agrícola Mista de Mini, Pequenos e Médios Produtores Rurais do Município de Nova Ubiratã (Coopertã) traduz de forma impressionante as desigualdades encontradas dentro da própria agricultura familiar no país, em especial quando se compara sua situação à de cooperativas no Nordeste, incluindo a da fazenda Santa Clara, no Piauí, berço do programa federal de biodiesel, que busca se reestruturar após o fracasso do projeto. Atualmente, a Coopertã busca construir uma sede própria, com três salas, dois banheiros, recepção, cozinha e sala de reuniões. A sede atual é alugada, e menor. Dilson Pedro Goi, o presidente da cooperativa, explica que a Coopertã foi criada em 1999. Que ficou um tempo parada e que, em 2009, ingressou na produção de matéria-prima para o biodiesel. “Durante dois anos, fizemos parceria com a Caibiense, de Rondonópolis, que é uma transportadora de Santa Catarina [e que produz biodiesel]. Em 2011, fizemos parceria com a Caramuru também.” A cooperativa se beneficia por estar localizada na região de Nova Ubiratã, município que cultivou quase 300 mil hectares de soja na última safra e que se encontra a cerca de 80 km de Sorriso, um dos principais centros do agronegócio nacional, onde foram cultivados mais de 600 mil hectares de soja em 2013. Dilson vive há 30 anos em Nova Ubiratã. Veio de Ijuí, Rio Grande do Sul. O presidente da Coopertã faz contas permanentemente: quase sempre de cabeça, mas eventualmente com algum auxílio mais elaborado, como uma caneta e papel. Ele explica que até 360 hectares (quatro módulos rurais na região) o agricultor no Mato Grosso pode...