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Fiscais flagram escravidão envolvendo grupo que representa a GAP no Brasil

Ao todo, 28 bolivianos foram libertados produzindo peças para a GEP, empresa formada pelas marcas Emme, Cori e Luigi Bertolli, e que pertence a grupo que representa grife internacional

Fiscalização realizada nesta terça-feira, 19, resultou na libertação de 28 costureiros bolivianos de condições análogas às de escravos em uma oficina clandestina na zona leste de São Paulo. Submetidos a condições degradantes, jornadas exaustivas e servidão por dívida, eles produziam peças para a empresa GEP, que é formada pelas marcas Emme, Cori e Luigi Bertolli, e que pertence ao grupo que representa a grife internacional GAP no Brasil. O resgate foi resultado de uma investigação de mais de dois meses, na qual trabalharam juntos Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Receita Federal. A Repórter Brasil acompanhou o flagrante. Foram encontradas peças das marcas Emme e Luigi Bertolli. A fiscalização aconteceu na mesma semana que a São Paulo Fashion Week, principal evento de moda da capital paulista.

Ao todo, 22 trabalhadores foram resgatados em condições consideradas degradantes pela fiscalização

Ao todo, 28 trabalhadores foram resgatados em condições degradantes. Fotos: Anali Dupré

Os costureiros, todos vindos da Bolívia, trabalhavam e moravam na oficina clandestina, cumprindo jornadas de, pelo menos, 11 horas diárias. A oficina repassava a produção para a Silobay, empresa dona da marca Coivara baseada no Bom Retiro, também em São Paulo, que, por sua vez, encaminhava as peças para a GEP. A intermediária também foi fiscalizada, em ação realizada na quinta-feira, 21.

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Registro de dívida de passagem e visto (clique para ampliar)

Tanto o MPT quanto o MTE e a Receita Federal consideraram a “quarteirização” uma fraude para mascarar relações trabalhistas. Para os auditores fiscais Luís Alexandre Faria e Renato Bignami e a procuradora do trabalho Andrea Tertuliano de Oliveira, todos presentes na fiscalização, não há dúvidas da responsabilidade da GEP quanto à situação degradante em que foram encontrados os trabalhadores da oficina clandestina.

Procurada, a assessoria de imprensa do grupo GEP não retornou até a publicação desta reportagem. No fim desta sexta-feira (22), encaminhou nota pública em que afirma que “repudia com veemência toda prática de trabalho irregular”, responsabilizando seus fornecedores pela situação encontrada. “Faz parte de sua política corporativa o respeito intransigente à legislação trabalhista e o combate à utilização de mão de obra submetida a condições de trabalho inadequadas. Por essa razão, somente contratamos fornecedores que sejam homologados pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), certificação que exclui empresas que utilizem qualquer forma de mão de obra irregular”, diz a empresa, em comunicado à imprensa (leia na íntegra a nota divulgada no fim da tarde)*.

A ABVTEX, por sua vez, nega que a empresa fornecedora em questão tenha sido certificada (leia posicionamento na íntegra). De acordo com a assessoria de imprensa da ABVTEX, a Silobay havia obtido apenas um “atestado de participação”. A reportagem tentou contato também com a GAP internacional, por meio da sede da empresa em São Francisco, na Califórnia, e do departamento responsável por relações internacionais na Inglaterra, mas também não obteve retorno.

Aliciados no país vizinho, os imigrantes já começaram a trabalhar endividados, ficando responsáveis por arcar com os custos de transporte e visto de entrada no país. As dívidas se acumulavam e aumentavam com a entrega de “vales”, adiantamentos descontados do salário. Mesmo os que administravam a oficina se endividavam, acumulando empréstimos para compra de novas máquinas e contratação de mais costureiros.

Entre os problemas detectados pela fiscalização na oficina clandestina estão desde questões de segurança, incluindo extintores de incêndio vencidos, fiação exposta e botijões de gás em locais inapropriados, com risco agravado pela grande concentração de tecidos e materiais inflamáveis na linha de produção, até problemas relativos às condições de alojamento e trabalho. Os trabalhadores viviam em quartos adaptados, alguns com divisórias improvisadas, alguns dividindo espaço em beliches. Além disso, alimentos foram encontrados armazenados junto com produtos de limpeza e ração de cachorros.

Sistema era de pagamento por produção. Mesmo durante a fiscalização, trabalhadores continuaram costurando

Pagos por produção, trabalhadores continuaram costurando mesmo durante a fiscalização

O grupo trabalhava das 7h às 18h,  de segunda-feira à sexta-feira, com uma hora para refeições. Aos sábados, os próprios empregados cuidavam da limpeza e manutenção do local. Todos ganhavam por produção, recebendo cerca de R$ 4 e R$ 5 para costurar e preparar peças das grifes que abastecem os principais shoppings do país. “Quanto mais peças costurarmos, mais dinheiro ganhamos, então preferimos não parar”, afirmou um dos resgatados durante a operação. Mesmo com a presença dos fiscais, todos continuaram costurando, só parando quando as máquinas foram lacradas e a produção oficialmente interrompida.

A desembargadora Ivani Contini Bramante, representante do Conselho Nacional de Justiça, e a juíza Patrícia Therezinha de Toledo, do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, da Vara Itinerante de Combate ao Trabalho Escravo, acompanharam a ação.

Indenizações 
Um dia após a fiscalização, representantes da GEP concordaram em assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com pagamento de R$ 10 mil para cada uma das vítimas por danos morais individuais, além de mais R$ 450 mil por danos morais coletivos, valor que deve ser repartido e encaminhado ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), à Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo e a uma organização da sociedade civil que trabalhe com imigrantes. Além da indenização por danos morais, os empregados resgatados receberão também, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, verbas rescisórias em média de R$ 15 mil, valor que pode chegar a R$ 20 mil conforme cada caso. Eles também terão a situação regularizada, com acesso à seguro-desemprego e registro adequado em carteira.

Trabalhador em um dos quartos localizados ao lado da oficina

Trabalhador em um dos quartos localizados ao lado da oficina

As três marcas da GEP são consideradas referência na moda nacional. A Cori, há mais de quatro décadas no mercado, foi uma das que abriu os desfiles da São Paulo Fashion Week na segunda-feira, dia 18, e possui lojas próprias em centros comerciais de luxo de diferentes cidades. A Luigi Bertolli tem unidades próprias também em todo país. Já a Emme, a mais recente das três marcas, é considerada um exemplo de “fast-fashion”, tendência marcada por lançamentos constantes voltados a mulheres jovens.

A GEP é uma das empresas signatárias da Associação Brasileira do Varejo Têxtil e informa que a empresa fornecedora havia sido certificada pelo Programa de Qualificação de Fornecedores para o Varejo, selo que, segundo o projeto, deveria ser concedido apenas a empresas com a produção adequada, após parecer de auditores independentes e monitoramento detalhado da cadeia. A ABVTEX nega que a fornecedora em questão tenha sido certificada. Em fevereiro, outra empresa certificada foi flagrada com escravos na linha de produção.

A GEP pertence à empresa Blue Bird, que, por sua vez, controla a Tudo Bem Tudo Bom Comércio LTDA., empresa anunciada em dezembro como responsável por administrar a marca GAP no Brasil (leia anúncio oficial em inglês). Na ocasião, o diretor de Alianças Estratégicas da GAP, Stefan Laban, afirmou considerar que o país possibilitaria uma oportunidade “incrível” de expansão dos negócios.

A GAP deve abrir as primeiras lojas da marca em São Paulo e no Rio de Janeiro no segundo semestre de 2013, com a ajuda da intermediária. Não é a primeira vez que a grife internacional se vê envolvida em casos de exploração de trabalho escravo. Em 2007, crianças de dez anos foram encontradas escravizadas na Índia produzindo peças da linha GAP Kids, a marca infantil da loja. Na ocasião, de acordo com reportagem do jornal inglês The Guardian, a empresa afirmou que a produção foi terceirizada de maneira indevida e alegou desconhecer a situação.

Pedido com o nome da empresa GEP, dona das marcas Core, Emme e Luigi Bertolli

Pedido com o nome da empresa GEP, dona das marcas Cori, Emme e Luigi Bertolli

Leia também:
Especial: flagrantes de trabalho escravo na indústria da moda

* Texto atualizado às 20h desta sexta-feira com posicionamento do Grupo GEP e da ABVTEX.

Veja mais imagens – fotos Anali Dupré

 


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9 Comments

  1. Moro do lado de uma oficina clandestina de costura no bairro da Freguesia do Ó, que aparentemente passa pelo mesmo problema.
    Inclusive já vi crianças e adolecentes costurando,lavando roupas e enrolando linhas em carretéis.
    Acredito que seja interessante a averiguação, a certeza que tenho é que eles trabalham 24 horas, pois posso escutar as máquinas funcionando pela madrugada a fora.

    Estou a disposição para fornecer o endereço.

    Obrigado e parabéms pelo trabalho.

    Reply
    • Leomar,

      Agradecemos as gentis palavras. A Repórter Brasil noticia, mas não realiza fiscalizações. Pedimos a gentileza de que encaminhe sua denúncia aos órgãos competentes. Sugerimos que formalize, ainda que de maneira anônima, o que relatou ao Ministério Público do Trabalho, por meio do formulário para denúncia disponível neste link: http://www.prt2.mpt.gov.br/denuncia/denuncia.php. E que também procure a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo, que ainda não dispõe de um serviço de denúncias online, mas aceita denúncias por escrito por carta nos endereços indicados neste link: http://portal.mte.gov.br/delegacias/sp/gerencia-regional/.

      No caso em questão, por se tratar de uma oficina clandestina na Freguesia do Ó, você deve escrever para:

      A/C Setor de Fiscalização
      Gerência Regional do Trabalho e Emprego na ZONA NORTE
      Endereço: Av. General Ataliba Leonel, 2764 – Parada Inglesa – CEP 02242-000

      Pedimos ainda a gentileza de que nos mantenha informados quanto ao andamento de tais denúncias por meio do e-mail contato@reporterbrasil.org.br. Se medidas não forem tomadas, cobraremos os órgãos competentes.

      Redação
      Repórter Brasil

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  2. Gostaria primeiramente de parabenizar os fiscais do Ministério do Trabalho. São heróis!!! Fizeram e fazem justiça e edificam a imagem dos trabalhadores de todos das as áreas dos mais diversos graus de hierarquia. Parabéns meus heróis!!!!! Heróis verdadeiros são os bombeiros, os fiscais do IBAMA, a Polícia Federal e os fiscais do Ministério do Trabalho porque fazem cuidam dos nossos direitos.
    Janaina Souto Mestre em psicologia, professora de graduação e pós-graduação, residente em João Pessoa, PB.

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  3. O maior polo de confecções do país, localizado em São Paulo, mantem há várias décadas a tradição de utilizar mão de obra semi-escrava. Bairros como Bom Retiro, Barra Funda, Casa Verde, Brás, Canindé e Pari frequentemente aparecem na mídia em notícias de autuações de oficinas de costura clandestinas, efetuadas pelo Ministério Público do Trabalho. Empresários, donos de grifes sofisticadas, não têm vergonha de baixar custos de produção submetendo imigrantes sul-americanos a condições de trabalho que lembram os primórdios da Revolução Industrial Inglesa. Depois de autuados, divulgam nota na imprensa para reparar os danos à imagem da empresa afirmando “desconhecimento dos integrantes da cadeia produtiva.” É muita cara de pau !

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  4. Boa tarde ,

    Só estou passando pra agradecer o belo trabalho que vocês vem desenvolvendo , mostrando a todos que ainda precisamos melhorar e muito , e que a omissão tanto de quem contrata ou presencia , e até mesmo das autoridades ( quando e alguns casos elas são as perpetradoras ) , a divulgação combinada a fiscalização dos órgãos competentes passa a ser vital , por isso continuem com força & fé sempre, nós agradecemos !

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  5. como poso denunciar a firma que naõ fez pagamento

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  6. moro em uma rua sem saida , onde existem 5 casas em um dela funciona uma oficina de costura onde moram bolivianos que trabalham em sistema de revesamento, em uma casa mofada bem umida, eles ate desmontaram um banheiro pra que possam caber mais, eles tem direito a dois pratos de comida por dia, e dois pães a sorte do bebe que mora na casa é que no meu bairro existem agentes comunitarias da UBS e vem visita-lo para ver se esta tudo bem com a saude dele pois a mae desse bebe dificilmente ve a cor do ceu…ate agua de chuva eles chagaram a beber

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