A Repórter Brasil está sob censura judicial desde o dia 9 de outubro de 2015. Saiba mais.

MRV é condenada a pagar R$ 6,7 milhões por infrações trabalhistas e escravidão

Justiça do Trabalho determina que empresa pague o valor de R$ 6,7 milhões; entre as irregularidades está um flagrante de trabalho análogo à escravidão em Americana (SP)

A MRV Engenharia, uma das principais empreiteiras do país, foi condenada a pagar R$ 6,7 milhões por infrações que incluem o flagrante de 63 trabalhadores em condições análogas às de escravo nas obras de um condomínio residencial em Americana, interior de São Paulo, em fevereiro de 2011. A construção, que estava sendo executada por uma empresa terceirizada, recebeu financiamento do programa federal “Minha Casa, Minha Vida”. A decisão, de primeira instância, é da juíza do trabalho Natália Scassiotta Neves Antoniassi e, à ela, cabe recurso.

Fachada da obra da MRV pelo programa "Minha Casa, Minha Vida" em Contagem (MG) onde fiscalização constatou condições de trabalho degradantes (Foto: MTE)

Fachada da obra da MRV pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” em Contagem (MG) onde fiscalização constatou condições de trabalho degradantes (Foto: MTE)

De acordo com a sentença, do valor total a que a MRV foi condenada, R$ 4 milhões são por danos morais resultantes do uso de mão de obra escrava. A empresa também deve pagar R$ 100 mil por dificultar o andamento do processo e da fiscalização.

Outros R$ 2,62 milhões são decorrentes da multa pelo descumprimento de uma liminar deferida em janeiro de 2012. A decisão responsabilizou a MRV por diversas irregularidades com relação à segurança e saúde do trabalho, além de outras obrigações trabalhistas em duas obras em Americana. A empresa recebeu um prazo de 30 dias para regularizar a situação. Como não o fez, passou a pagar multa de R$ 10 mil por dia. Somente em novembro de 2012 uma perícia pode comprovar a regularização dos problemas apontados pela liminar.

Em sentença, juíza lamenta demora na aprovação de PEC da Escravidão

Na decisão em que determinou o pagamento de R$ 6,7 milhões à MRV Engenharia, a juíza do trabalho Natália Scassiotta Neves Antoniassi disse ser “frustrante saber que em pleno século XXI tramita pelo Congresso Nacional uma Proposta de Emenda Constitucional visando a extinção do trabalho escravo – a PEC 438/2001”. “Há 12 anos essa PEC sequer foi votada por nossos representantes das casas legislativas, e o principal motivo são os empecilhos colocados pela bancada ruralista, categoria que, segundo relatório da OIT sobre trabalho escravo, é a que mais adota essa prática”, disse.

Através do programa “Minha Casa, Minha Vida”, os bancos públicos Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil financiam casas para famílias com renda mensal de até R$ 5 mil. Na sentença, a juíza considerou “no mínimo irônico imaginar que trabalhadores análogos a escravos financiam a moradia de casas populares e que o Estado efetua regiamente os pagamentos referentes a esses contratos”. Além disso, a juíza também autorizou que o Ministério Público do Trabalho (MPT) envie ofício ao Ministério das Cidades e às Superintendências Regionais e Nacionais da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil para que se tome ciência da decisão. “O numerário público não pode, mesmo por via indireta, sustentar a manutenção de trabalho escravo”, argumentou.

Em nota à imprensa, a MRV declarou que a terceirização de mão de obra é um tema “controverso” e que a empresa já obteve “ganho de causa em processos similares”. Ela informou ainda que está “negociando a assinatura de Acordo sobre Terceirização com o MPT” e que deve recorrer da decisão, ao mesmo tempo em que “dará continuidade às negociações com o MPT”.

Trabalho escravo
Além desse caso, a MRV foi flagrada em outras três ocasiões se beneficiando com trabalho escravo. Em 2011, três meses depois do flagrante em Americana, cinco trabalhadores foram libertados em obra da empresa Bauru, também no interior de São Paulo.  No mesmo ano, uma fiscalização em Curitiba (PR) flagrou onze empregados em condições análogas às de escravo. Em abril deste ano, a construtora foi denunciada mais uma vez por manter seis trabalhadores nessas condições em Contagem, zona metropolitana de Belo Horizonte (MG). No período, a empresa foi incluída por duas ocasiões na “lista suja” do trabalho escravo, mas forçou, através de liminar na Justiça, sua retirada.

* Atualizado às 23h50 para acréscimo de informações

Leia também:
Seis trabalhadores são resgatados em obra da MRV em MG
STJ determina retirada de MRV da “lista suja” do MTE
Tentativa da MRV de forçar na Justiça saída da “lista suja” fracassa
Ações da MRV são as que mais caem na Bolsa de Valores após reinserção na “lista suja”
Construtora MRV volta à “lista suja” do trabalho escravo em nova atualização
Maior construtora do “Minha Casa, Minha Vida”, MRV Engenharia consegue via STJ sair da “lista suja”
MRV e empregadores ligados à política entram para a “lista suja”
Graves violações trabalhistas embasam representação inédita contra a MRV


Apoie a Repórter Brasil

saiba como

3 Comments

  1. Chocante realidade do “Minha casa, minha vida”. Governo federal não tem respondido imediatamente como deveria ser (anos se passam) diante de tantas denuncias de corrupção no programa. Mais ainda essa aviltante situação de trabalhadores. Há que se ter reação urgente presidenta Dilma.

    Reply
  2. infelizmente as autoridades que se dizem competentes só tomam as medidas cabíveis quando a mer** já está feita. São corruptos também.

    Reply
  3. maldito dinheiro de indenização da mrv levou meu irmão a comprar uma moto que poucos dias depois iria matá-lo infelizmente as coisas são assim mesmo para quem é trabalhdor…

    Reply

Trackbacks/Pingbacks

  1. Nota à imprensa da MRV Engenharia » Repórter Brasil - […] Parte integrante da matéria “MRV é condenada a pagar R$ 6,7 milhões por infrações trabalhistas e escravidão”. […]
  2. MRV é condenada novamente por trabalho escravo - Emorar - […] A Justiça do Trabalho condenou a construtora MRV ao pagamento de R$ 6,7 milhões por infração de trabalho escravo,…
  3. PTB, PMDB e PSD são os partidos que mais receberam dinheiro de escravocratas » Repórter Brasil - […] dois últimos anos, a MRV foi flagrada em quatro ocasiões diferentes – em Americana (SP), Bauru (SP), Curitiba (PR)…
  4. MPF dá parecer contrário e MRV pode voltar para a ‘lista suja’ do trabalho escravo » Repórter Brasil - […] • Condomínio Beach Park  Americana (SP) 63 resgatados em 2011 […]
  5. MPF dá parecer contrário e MRV pode voltar para a ‘lista suja’ do trabalho escravo | Áfricas - Notícia minuto a minuto - […] • Condomínio Beach Park  Americana (SP)63 resgatados em 2011 […]
  6. Fiscalização flagra trabalho escravo em obra de Brookfield e Emccamp do ‘Minha Casa Minha Vida’ » Repórter Brasil - […] também: Banco do Brasil é processado por trabalho escravo em obras do Minha Casa, Minha Vida MRV é condenada…
  7. Grana de campanha dos escravocratas | Altamiro Borges - […] dois últimos anos, a MRV foi flagrada em quatro ocasiões diferentes – emAmericana (SP), Bauru (SP), Curitiba (PR)e Contagem…
  8. Pela quinta vez, fiscais apontam trabalho escravo em obra da MRV » Repórter Brasil - […] • Condomínio Beach Park  Americana (SP) 63 resgatados em 2011 […]

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *