Marina Silva: um exemplo a não ser seguido

A nova ministra do Meio Ambiente deu seu testemunho de vida para uma platéia lotada hoje no Fórum Social
Por Ana Aranha
 27/01/2003

Maria Osmarina Marina Silva de Souza. Um nome nada comum para uma trajetória de vida única. Nasceu em uma família de nordestinos que optou por uma sobrevivência mais úmida entre os seringais do Acre. A menina que escalava o fogão todo dia às quatro horas da manhã para preparar o café da família, que aos 14 anos perdeu a mãe, que se tornou responsável por sete irmãos, que foi medicada com remédios para malária quando tinha hepatite. A menina em que nenhum médico acreditou.

“Não cabia mais nem uma mosca”, foi o comentário de um dos organizadores da sala 3 de eventos da PUC. O testemunho estava marcado para as 13h30, momento em que qualquer movimento estranho na porta era motivo para aplausos precipitados. Um cordão foi formado para impedir que as pessoas entrassem pela frente do palco, o chão estava coberto de jovens sentados. No fundo, os atrasados não desistiam de se apertar.

Marina também se atrasou, mas quando chegou não teve que se apertar. Finalmente: aplausos, gritos, bandeiras. O mediador fez uma introdução rápida e amedrontada. O público queria Marina.

Marina Silva, principal voz da Amazônia, ex-senadora pelo Acre e atual ministra do Meio Ambiente.

Abriu o testemunho falando sobre sua trajetória. “Eu não acredito em potencialidades”, frase inicialmente um tanto contraditória, vinda de quem veio. “Eu acredito em oportunidades”. Marina se lembra de quanta potencialidade tinha, desde o início, e de quantas barreiras impossíveis de serem derrubadas encontrou. Se irrita com a possibilidade de ser usada pelo discurso do “aquele que se esforça sempre alcança”. Recusa-se a ser seu exemplo vivo. Sabe que é mentiroso. “Existem milhares, milhões, de Marinas, de Lulas, de Beneditas pelo Brasil”. Milhares de potencialidades, sem oportunidades, sem encontrar a “brecha muito estreita” de que fala Marina. “Não sou a regra, sou a exceção”. E arranca aplausos do público, só o início de uma longa série, ao explicar qual deveria ser a verdadeira regra: “condições básicas para que todos os brasileiros possam desenvolver plenamente suas potencialidades”.

Após a ressalva, deu início a sua história. Impossível de ser transcrita fora de um livro.

A farofa de ovo como café-da-manhã. As seringueiras. A morte dos dois irmãos 15 dias antes da perda da mãe. As seringueiras. Os oito irmãos para cuidar aos 14 anos. As seringueiras. A hepatite seguida do erro médico. A depressão que durou um ano, causada pela falta das seringueiras. A luta com o pai para sair de casa. O tratamento médico. O trabalho de doméstica. O tratamento. A alfabetização de dois meses do Mobral. O tratamento. O desafio do ginásio acompanhado de muito trabalho. O tratamento. O estudo fora de hora escondido das freiras, comprava velas e colava papel na janela para esconder luz na madrugada. O tratamento. O sono de duas horas. O tratamento. Os anos de luta para passar em um vestibular. O tratamento.

Marina convenceu. Não é um exemplo a ser seguido. Não há como achar bonita sua história. Assim como não se acha as dos “milhares e milhões de Lulas e Beneditas” adormecidos. Que nunca convenceram o pai. Que nunca passaram no vestibular. Que nunca lotaram uma sala de auditório. E que continuarão dormindo, até que o Brasil resolva despertá-los.

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