Comissão da Verdade tem acesso a documentos sobre perseguição a sindicalistas

Rede de repressão era integrada por 'sucursais' do Sistema Nacional de Informação no Ministério do Trabalho, por empresas e agentes infiltrados nos sindicatos
Por Marsílea Gombata

Rede de repressão era integrada por ‘sucursais’ do Sistema Nacional de Informação no Ministério do Trabalho, por empresas e agentes infiltrados nos sindicatos

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) teve acesso a documentos do Ministério do Trabalho e Emprego que comprovam a existência de uma ampla rede de perseguição a sindicalistas e ajudarão a fornecer mais detalhes sobre como as empresas colaboraram com a ditadura no Brasil.

A rede era integrada pelas DSIs (Divisão de Segurança e Informações) e ASIs (Assessoria de Segurança e Informações), espécies de sucursais do Sistema Nacional de Informação (SNI) no ministério e nas delegacias regionais do trabalho, pelos interventores ou agentes infiltrados nos sindicatos e por empresas que forneceram informações sobre seus empregados aos agentes do governo.

“Encontramos caixas de documentos sobre cassação de trabalhadores e intervenções nos sindicatos, com os quais poderemos reconstruir um painel informativo e rico sobre a repressão contra o movimento sindical”, disse Rosa Cardoso, membro da CNV responsável pelo Grupo de Trabalho Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical.

Dos cinco acervos encontrados, três ficam na sede do Ministério, em Brasília: o arquivo geral, o arquivo do gabinete do ministro e o arquivo dos processos de anistia do Ministério do Trabalho. Os outros dois arquivos ficam em um depósito nos arredores do Distrito Federal e no centro de referência Leonel Brizola.

De acordo com a pesquisadora San Romanelli Assumpção, há também correspondências enviadas ao ministro do Trabalho, além de caixas com documentos sobre eleições sindicais e cassação de diretorias recém-eleitas.

Historiadores diversos já haviam tido acesso aos depósitos e encontrado neles documentos que remontam à desaparecida DSI do ministério. No entanto, explicou Rosa, “dependendo do ministro que assumia a pasta do Trabalho, este negava a existência dessa documentação”. O destino dos documentos encontrados é o Arquivo Nacional.

Dentre as empresas que devem constar nos arquivos como colaboradoras da ditadura estão nomes como Cobrasma, Scania, Toshiba, Chrysler, Volkswagen, Mercedez, Ford, Tecnoforjas e Monark.

Segundo Sebastião Neto, sindicalista e diretor da ONG Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas, essas empresas forneceram não apenas os nomes, mas fichas completas de empregados grevistas. “Muitos foram demitidos e nem sabiam que eram perseguidos políticos”, observou.

A previsão é que um relatório preliminar sobre os documentos encontrados seja apresentado até maio de 2014.

Texto originalmente publicado no site da revista Carta Capital.

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