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Terceirizadas da Mendes Júnior atrasam salários nas obras do Rodoanel

Mais de 100 funcionários que trabalhavam na construção do trecho norte do anel viário foram demitidos sem receber a rescisão

“Todo mundo vai curtir o Natal e o fim de ano enquanto a minha família vai para a rua”, diz Auricélio Modesto da Silva, de 28 anos. Quase um mês depois de ser demitido pela Braenc, umas das terceirizadas da Mendes Júnior na expansão do Rodoanel em São Paulo, ele e outros 117 ex-funcionários ainda esperam pelo salário do último mês trabalhado e a verba rescisória. “Meu aluguel custa R$700 e já avisaram que vou ser despejado na próxima semana se não quitar.”

Enquanto Silva conta os centavos para pegar dois ônibus e uma vã para ir quase todo dia reclamar seus direitos pelo trabalho na construção do trecho norte do Rodoanel, a Mendes Júnior figura entre as 22 empresas investigadas por formação de cartel na construção do trecho sul do anel viário. O valor do contrato com o consórcio Mendes Júnior e Isolux Corsán pelo trecho norte é de R$ 785 mi. Ambas empresas estão em recuperação judicial.

É grande o contraste entre os valores envolvidos no suposto esquema e a dívida da construtora com o trabalhador. As obras do trecho sul, que ocorreram entre 2004 e 2015, custaram cerca de R$ 10 bi aos cofres públicos e são alvo de dois inquéritos administrativos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que investiga formação de cartel durante governos do PSDB em São Paulo.

Enquanto isso, a Braenc, terceirizada da Mendes Júnior, negocia duro com os trabalhadores da obra do trecho norte. A empresa propôs pagar em seis vezes o que deve aos funcionários demitidos, segundo o sindicato da categoria, o Sintrapav. A justificativa seria que a subcontratada não recebeu da Mendes Júnior. Se o acordo fosse fechado, Silva receberia cerca de R$ 600 por mês, valor insuficiente para quitar os R$ 700 de aluguel da casa onde mora.

O auditor do Ministério do Trabalho que acompanha o caso, Oton Abreu, afirmou à Repórter Brasil que nem a Braenc nem o Sintrapav nem a Mendes Húnior informaram a situação dos trabalhadores demitidos que estão sem pagamento e sem rescisão nas últimas reuniões, em 13 e 19 de dezembrom respectivamente. Em todas, estiveram presentes representantes do sindicato, da Braenc, da Mendes Júnor e da Dersa. A reportagem teve acesso aos documentos. “Eles omitiram essa informação. Os trabalhadores precisam, com urgência, ir até o Ministério do Trabalho”, afirmou.

Procuradas diversas vezes por telefone e por e-mail, a Mendes Júnior e as subcontratadas não retornaram os pedidos de entrevista da reportagem.

Para pagar as terceirizadas, a Mendes Júnior repassa pagamentos da Dersa. Em nota, a Dersa esclareceu que cada construtora precisa entregar uma série de documentos para receber os pagamentos. “No caso do Lote 1 do Trecho Norte do Rodoanel Mario Covas, o consórcio contratado tem encontrado dificuldades para apresentar todos os documentos em tempo hábil. Isso tem postergado a conclusão do processo. A Dersa, portanto, não reconhece qualquer atraso em seus pagamentos.”

Ao todo, duas subcontratadas da Mendes Júnior atrasaram pagamentos de cerca de 300 funcionários durante todo o ano, resultando em paralisações das obras, segundo Wellengton Santos, assessor do Sintrapav. Além da Braenc, está a Tardelli. “Fizemos uma reunião com os representantes das terceirizadas, a Mendes Júnior e o Ministério do Trabalho. Eles prometeram marcar uma reunião em fevereiro para resolver o atraso. Quando o salário atrasa, a gente se organiza e os funcionários param. Mas e os que foram demitidos e ficaram sem receber?”

Silva trabalhou por quatro meses na obra, o terceiro trabalho registrado que conseguiu desde 2011, ano em que saiu do povoado Pedra Branca, no interior da Bahia, para a periferia de São Paulo. Uma viagem que muitos migrantes como ele não fazem por escolha, mas por falta dela. “Lá não tinha emprego, então eu quis tentar”, disse. Como seus conterrâneos, ele pensa em voltar – os retornos das correntes migratórias passam os 40%, segundo o IBGE. “Eu já saí de uma outra construtora porque atrasavam o salário e agora isso. É um desgosto só”, diz o trabalhador baiano.

Um dos funcionários demitidos pela Braenc pediu para não ser identificado porque tem medo de, em um futuro próximo, não ser recontratado. Esse medo não cabe em Silva porque, segundo ele, o medo de passar fome é maior. “Eu não estou aqui pedindo favor nenhum. Eu estou pedindo os meus direitos.” Silva disse que procurou o Ministério Público do Trabalho, mas não fez denúncia com receio do resultado levar semanas ou meses – um tempo que ele não tem.

Esta reportagem foi realizada com o apoio da DGB Bildungswerk


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