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Confira a íntegra do roteiro do episódio Trabalheira #14

Trabalheira é um programa da Rádio Batente, a central de podcasts da Repórter Brasil, cujo objetivo é discutir o futuro do trabalho

Roteiro referente ao programa Trabalheira #14: Você repensou o trabalho doméstico na pandemia?

Caju

Oh… Ana. Esse episódio do Porta dos Fundos é sensacional, né?

Ana

Nossa, demais da conta, Caju! E é bem por aí mesmo: você só se dá conta da bucha que é lavar louça, cuidar da roupa, tirar a poeira, quando sai de casa e vai morar sozinho. Porque, mesmo que você tenha sido criado fazendo as tarefas domésticas, sempre sobra um fardo bem pesado de trabalho que cai nas costas da mamãe, né?

Caju

Falou tudo, Ana. Se tem uma discussão em que a questão de gênero é fundamental é nesse lance de trabalhos domésticos. Filhos e marido até fazem alguma coisa aqui e ali, mas a gestão do trabalho doméstico, na esmagadora maioria das vezes, fica mesmo a cargo das mulheres.

Ana

É a famosa carga mental.

Caju

Minha esposa fala muito sobre esse conceito, Ana. E não tem como discordar. A mulher acaba acumulando todas aquelas responsabilidades aparentemente pequenas do dia a dia.

Ana

Nossa, nem me fale! O macacão do bebê ficou pequeno, não serve mais – quem corre atrás da roupinha nova? A cortina do quarto está suja e precisa ser lavada: quem se liga nisso? A geladeira tá cheia de comida velha – quem joga no lixo? Se bem que nesse item eu também não tenho moral nenhuma, que lá em casa as batatas criam vida na frutera!

Caju

Existe uma outra opção também. Pra quem tem condições, é possível contratar uma pessoa – ou algumas pessoas – pra tomar conta dessas tarefas

Ana

Mas não muda em nada o nosso papo sobre gênero, né? A empregada doméstica – ou seja, a mulher – é uma personagem tão central, mas tão central da nossa sociedade, que influencia na organização dos espaços que a gente frequenta e na própria arquitetura das casas. Pensa no elevador de serviço: quer exemplo maior que esse? Sem falar na questão da discriminação… elevador separado é barra pesada…

Caju

E o famoso “quartinho de empregada”?

Ana

Exato. Quantas famílias não dedicam um espacinho micro pra pessoa que cuida de absolutamente tudo? Da casa toda? O que mais tem hoje são apartamentos, que nem de longe exigem os cuidados de mansões de cinema… e mesmo assim, tá lá ele, nos fundos, espremido ao lado do tanque: o quartinho!

Caju

Nossa… isso me lembrou um documentário ótimo, chamado “Doméstica”, dirigido pelo cineasta Gabriel Mascaro. A proposta do filme é muito interessante: o diretor dá uma câmera pra vários adolescentes de classe média e de classe alta registrarem a relação deles com as empregadas domésticas. Aquela coisa: todo mundo convivendo na mesma casa, todo santo dia.

Enfim… Não vou dar spoiler, mas o filme é um choque de realidade, uma aula sobre como opera, no dia a dia, uma casa brasileira.

Ana

Filmaço mesmo, Caju! Pra quem ficou curioso, dá pra achar fácil no Youtube: “Doméstica”, do Gabriel Mascaro. E, só pra retomar o fio da meada, em geral quem cuida da relação com essa funcionária também é a mulher, né? Se a gente pensar na família do comercial de margarina – papai, mamãe e filhinhos sorridentes – nunca é o pai que assume essa função. Aliás, a empregada nem aparece nos comerciais, olha que contradição!

Caju

Nossa, Ana… a gente já falou de tanta coisa nessa abertura que dá pra sacar que o programa de hoje vai ser movimentado. E acho que ele vem bem a calhar porque muita gente foi obrigada a repensar a relação com o trabalho doméstico por causa da pandemia, né?

Ana

É… Eu também percebi isso, Caju: uma galera que pôde ficar isolada em casa na pandemia – o que, convenhamos, também é privilégio pra uma minoria – começou a se dar conta de que cuidar de casa dá muito, mas muito trabalho.

Caju

E quem ganha a vida como empregada doméstica – tô falando no feminino porque esse é um trabalho feito majoritariamente por mulheres – precisa e merece ser valorizada. E, se a gente parar pra pensar, é uma loucura lembrar que as empregadas domésticas só passaram a ter os mesmos direitos de todos os outros trabalhadores com carteira assinada no Brasil há menos de uma década. Surreal, isso, né? Taí uma herança pesada da nossa cultura escravagista…

Ana

Bom, a gente vai falar de tudo isso hoje! Então, seja bem-vinda, seja bem-vindo a mais um episódio do Trabalheira, um programa da Rádio Batente, a central de podcasts da Repórter Brasil. Eu sou a Ana Aranha.

Caju

E eu sou o Carlos Juliano Barros, o Caju. Aqui no Trabalheira a gente fala sobre o mundo do trabalho de um jeito leve e criativo. E a Rádio Batente está nas principais plataformas de áudio. Também dá pra ouvir e conhecer um pouco mais sobre a proposta do podcast no nosso site: reporterbrasil.org.br/radiobatente. Tem outros programas bem legais também.

Vinheta

Veronica Oliveira

Eu acho que muitas pessoas não se sentem parte da casa nesse sentido. E muito por conta da forma como a gente foi criado. E eu até me incluo nessa também.

Ana

Essa é a Veronica Oliveira, uma influencer bastante conhecida e criadora do perfil Faxina Boa, que bomba nas redes sociais.

Veronica Oliveira 

A gente cresce com duas percepções: ou de uma coisa que a gente acha que não vale a pena a gente fazer, como se nós fossemos muito melhores que aquilo. Ou, pior ainda, como se fosse um castigo. Às vezes, o pai – para brigar com você – vai lá e manda fazer. E é sempre mandando de um jeito ruim: vai arrumar sua cama, vai lavar louça, você não fez tal coisa, está de castigo e vai fazer.

E a gente não consegue estabelecer que isso é uma coisa importante dentro da nossa rotina… é isso, tinha que ser parte da nossa rotina. Acordar, arrumar a cama. Da mesma forma como a gente escova os dentes, a gente tem que cuidar da casa porque ajuda a manter a nossa saúde da mesma forma.

E as pessoas vão deixando isso de lado e vão passando isso pra outras pessoas, até que chega num ponto que a pessoa realmente não tem relação com a casa, não tem relação com os filhos. Ela vai ter relação com o que, sabe?

Ana

A história da Veronica é bem interessante. Antes de perceber que ela era muito boa em fazer faxina, e que podia ganhar uma graninha legal com isso, ela chegou a trabalhar com telemarketing. E aí, no finalzinho de 2016, ela ficou famosa ao brincar com o título de uma série da Netflix pra fazer propaganda do trabalho dela na internet  – aquela “Better Call Saul”. No caso dela, o slogan virou “Better Call Veronica”. Traduzindo pro português, seria algo como: “É melhor chamar a Veronica”. 

Caju

Nossa… Genial

Ana

Totalmente genial! Bom, essa coisa das redes sociais deu tão certo pra Veronica que, em um único dia, ela chegou a receber nada mais, nada menos que 60 pedidos de serviço. Isso quer dizer que o cliente entrava em contato agendando a faxina para dali a dois meses. Bom… a Veronica ficou por três anos nesse esquema, mas desde o final de 2019 ela parou de trabalhar com limpeza pra se dedicar exclusivamente às atividades de palestrante, de escritora e de produtora de conteúdo pro Faxina Boa. E hoje ela comanda um trabalho de educação super importante: sensibilizar as pessoas pra importância do trabalho doméstico e pra necessidade de valorizar as pessoas que ganham a vida com isso. 

Caju

Ana, você sabe que, enquanto eu ouvia a Veronica falar, eu me lembrei daquele episódio da temporada passada aqui do Trabalheira, em que a gente debateu a Renda Básica Universal. A gente falou bastante do André Gorz – aquele filósofo franco-austríaco que foi um dos grandes gurus dos protestos de Maio de 68 na Europa. Digo isso porque o André Gorz defendia a Renda Básica como uma possibilidade de as pessoas trabalharem menos e terem mais tempo pra se dedicar aos cuidados com a família, com a casa, com o bairro.

Ana

Sim…. Tem tudo a ver mesmo com essa discussão e com o que a Veronica defende.

Caju

Seguindo essa mesma onda, eu bati um papo com o Guilherme Zocchio. O Guilherme é jornalista do site O Joio e o Trigo, que cobre temas relacionados à alimentação. Mas não é dica de como emagrecer, não – eles se pautam pela ideia de que “comer é um ato político”. Pra quem não conhece, vale muito a pena acessar.

Ana

Eu sou fã do Joio. E aliás, Caju, o podcast deles é bem legal também! Chama “Prato Feito”.

Caju

Boa dica, Ana! Mas, como eu estava dizendo, eu conversei longamente com o Guilherme. E ele me disse que, por conta da pandemia, ele passou a refletir bastante sobre a importância do trabalho doméstico.

Guilherme Zocchio

Eu acho que dá pra gente assumir, sim, algumas tarefas de casa. É meio padrão da classe média brasileira essa coisa de: eu trabalho bastante, o trabalho doméstico eu não faço. Isso de certa forma é até uma falácia. É muito louco porque uma das coisas que eu mais pensei é: as pessoas trabalham nove, dez horas fora da casa delas, no dia a dia, e pagam uma pessoa pra ficar oito horas dentro da casa dela. Provavelmente essa pessoa passa mais tempo dentro da casa dela do que ela e aí chega o fim de semana e está numa casa que é um espaço meio estranho. Que é outra pessoa que gerencia a casa pra ela. Pensei bastante nisso.

Mas aí foi um ano fazendo faxina sozinho. E aí… no começo da pandemia não sabia como o vírus era transmitido, tinha aquela noia de lavar compra. Então, ficava um pouco noiado de que minha casa tem que ficar limpa para não ter vírus. Piso frio na minha casa. Virou uma tortura no começo, porque a coisa veio meio fora de proporção, do razoável. Veio meio exagerada. Era trabalhando de segunda a sexta, vendo o noticiário, vendo a desgraça toda acontecer.

E chegava sábado, em vez de descansar, relaxar a cabeça, ia ficar fazendo faxina. No começo é legal. Porra, fiz faxina, do caralho, minha casa tá limpa! Fiz um puta trabalho bom, aquela sensação de recompensa. Na segunda vez, putz… Fiquei meio dolorido de fazer aquilo. A terceira, vamos lá de novo. Na quarta, não limpei tão bem. Depois, acordava de mau humor só de pensar que tinha que fazer faxina.

Ana

Cara, eu entendo totalmente o Guilherme! De fato, a gente não precisa ir pro extremo de delegar tudo pra outras pessoas. Só que na pandemia essa necessidade de limpeza veio mesmo fora de proporção porque veio num contexto de overdose da casa, né? E aí pode até ter atrapalhado a construção de uma relação saudável com a faxina.

Caju

Mas, voltando ao Guilherme, ele foi um dos que continuou pagando a diária da faxineira, mesmo sem contar com o serviço dela durante a pandemia. E ele também disse que pretende continuar chamando a faxineira uma vez por semana ou a cada quinze dias. Mas essa história toda fez com que ele repensasse não só a relação dele com as profissionais da limpeza, mas com o próprio conceito de limpeza.

Guilherme Zocchio

Uma das coisas também que eu percebi é que não dá pra querer o padrão de limpeza maravilhoso toda hora, se você quiser viver sua vida. Se você quiser só trabalhar e fazer faxina, você pode. Você vai ter uma casa limpa, vai estar trabalhando numa casa limpa e sua vida vai se resumir a basicamente isso.

Mas com certeza eu diminuí a minha necessidade, porque eu também fui construído com esses valores – tem que estar super limpo, o espelho tem que estar brilhando, essas coisas.

Ana

Isso me lembrou sabe do quê? Daquelas pessoas que viajam pra outros países, e eu estou falando aqui também de países ricos e desenvolvidos, e que ficam impressionadas com… eu não diria falta de higiene… mas com um padrão de higiene mais relaxado, menos rigoroso, vamos dizer assim, do que o do Brasil. 

Caju

É bem o que você falou, Ana. Esse senso de higiene supostamente mais apurado do brasileiro só é possível porque muitas pessoas – as que podem pagar por isso, claro – estão acostumadas a ter alguém faxinando a casa delas todos os dias. A Elizabeth Silva, que pesquisa esse tema há bastante tempo e é professora de sociologia da Open University, uma universidade pertinho de Londres, fez uma reflexão bem interessante, comparando Brasil e Inglaterra, onde ela mora atualmente. 

Elizabeth Silva

A disponibilidade de trabalho doméstico na Inglaterra é muitíssimo menor do que a que existe no Brasil. Por quê? Isso tem a ver com a questão da diferenciação da estrutura social. Apesar da desigualdade que existe no Reino Unido, existe muito maior igualdade do que existe no Brasil. A sua pergunta e a sua reflexão sobre o trabalho doméstico no Brasil basicamente me lembra de uma problemática de classe média empregando uma classe pobre.

É que se compra muito trabalho doméstico no Brasil porque esse trabalho é barato. Então, quando você compra esse trabalho, você tem que usar esse trabalho. E você usa criando trabalho. Você precisa de tudo muito limpo, você precisa de muita roupa limpa o tempo todo, muita lavação de roupa. Alguém tem que cuidar. E quando você não faz você manda fazer. Porque você tem o poder de comprar o tempo de alguém pra fazer a sua demanda, pra fazer o que você precisa.

Ana

“Você usa o trabalho criando trabalho”. Cara… é isso! O que as pessoas inventam de missão impossível pra empregada doméstica… E essa fala é uma ótima deixa para a gente mudar um pouco o rumo da nossa conversa: não tem nem uma década que as empregadas domésticas passaram a contar com os direitos trabalhistas básicos – os mesmos que já eram garantidos há bastante tempo a todas as outras categorias. Isso só aconteceu em 2013, com a chamada “PEC das Domésticas”. (Só lembrando que a sigla PEC quer dizer Proposta de Emenda Constitucional).

Caju

É impressionantemente recente mesmo, Ana. Na verdade, a luta por direitos das trabalhadoras domésticas vem de longa data, tem mais de século – só que os direitos propriamente ditos foram conquistados a conta-gotas. E, pra entender como a legislação trabalhista evoluiu com o passar do tempo, a gente ouviu a Sayonara Grillo. Ela é desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho, a segunda instância da Justiça Trabalhista, e também é professora da UFRJ – a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sayonara Grillo

Essa população que lá nas suas origens trabalhava nas casas dos senhores de engenho, não teve nenhuma reparação. Foram muitos anos e décadas de luta. Em 1972, houve uma primeira lei – a lei 5.859 – que trouxe alguns direitos para as trabalhadoras domésticas. Mas muito pouco direitos.

Com a Constituição de 1988, ela foi realmente um grande marco na luta das trabalhadoras porque constitucionalizou esse trabalho, reconheceu as trabalhadoras como trabalhadoras sujeitas à proteção constitucional.

Então, lá na Constituição de 88, nós já tínhamos os trabalhadores domésticos obtido direito ao salário mínimo, à irredutibilidade salarial, a licença gestante. Todavia, não tinham, por exemplo, direito à estabilidade gestante. A estabilidade das trabalhadoras gestantes só foi obtida na época do governo Lula com a lei 11.324 em 2006, que ampliou as férias das trabalhadoras domésticas, que até então eram de 20 dias para 30 dias, assegurando um terço.

Essa lei de 2006 foi muito importante porque ela vedou uma prática muito desigual, que ocorria em muitas famílias no Brasil, que descontavam das trabalhadoras domésticas, as despesas com alimentação e com moradia da remuneração dessas trabalhadoras. Vejam, elas eram muitas vezes obrigadas a trabalhar sem cessar nas casas, e ainda assim eram descontadas de suas moradias e da alimentação.

Ana

Cara, isso também é surreal…. A lei que proíbe que patrões descontem despesa com moradia e alimentação das empregadas domésticas tem apenas quinze anos!

Caju

E mesmo assim tem gente que ainda acha que pode fazer isso, né? O que a gente vê e ouve de reportagem sobre esse assunto é uma grandeza.

Ana

Acho que o caso mais recente – e revoltante – que teve bastante repercussão foi aquele da Madalena Gordiano, em Minas Gerais.

Caju

A Madalena é aquela moça que trabalhou por quatro décadas pra uma família sem receber salário, né?

Ana

Esse mesmo, um caso chocante demais. Fico até mal de lembrar dos detalhes! A família fez a Madalena casar com um parente idoso e militar pra receber a pensão dele – um dinheiro, claro, que ela nunca viu. Ouve só esse trecho de uma reportagem do Fantástico

Mas, voltando aqui pra nossa discussão, ainda não ficou muito claro pra mim quais foram as novidades, em termos de direitos, que a PEC das Domésticas trouxe em relação à Constituição de 88.

Caju

Eu já tinha deixado passar, Ana. Mas eu vou pedir ajuda pros universitários – no caso, pra professora Sayonara Grillo, de novo.

Sayonara Grillo

Mas essa regulação, embora tenha sido uma conquista lá em 88, ela não significou a isonomia de direitos. Ou seja, direitos iguais aos dos demais trabalhadores. A segregação ocupacional, a segregação de direitos, a desigualdade continuou existindo até a aprovação da chamada PEC das Domésticas.

Portanto, hoje as trabalhadoras têm direitos iguais a uma relação de emprego protegida nos termos do inciso 1o da CF, direito ao FGTS, ao adicional noturno, ao seguro desemprego, seguro contra acidente de trabalho, salário família, proibição de discriminação, proibição de trabalho abaixo dos 18 anos.

Ana

É bom ouvir gente que manja do assunto porque só assim a gente se dá conta dos detalhes. Olha só quantos direitos eram negados às empregadas domésticas…

Caju

Na verdade, Ana, mesmo assim a lei ainda abre brechas. Tem o lance das diaristas – que podem fazer limpeza até duas vezes por semana numa mesma casa, sem que isso configure vínculo empregatício. O que, se a gente para pra pensar, não faz muito sentido porque todos os elementos da relação de emprego estão presentes: subordinação, pessoalidade, habitualidade. Não é todo dia? Não é. Mas duas vezes por semana – uma que seja – já é bastante coisa. 

Ana 

E, como você tocou nessa questão das diaristas, Caju, também não dá para deixar de falar dos aplicativos de faxina. Um tempo atrás rolou o maior bafafá nas redes sociais quando uma dessas empresas anunciou um preço promocional por uma faxina express, bem basiquinha mesmo, por R$ 19,90. 

Caju

R$ 19,90? Rapaz…

Ana

Pois é… a empresa até chegou a se defender, dizendo que o valor era baixo porque era subsidiado para o cliente – ou seja, a trabalhadora receberia mais. E também dizia que, como a faxina era jogo rápido, rolaria de fazer mais de uma num mesmo dia, como se fosse a coisa mais viável do mundo se deslocar de transporte público pra lá e pra cá. Enfim… desculpinha tem para tudo. Agora, isso me lembrou de outra parte da conversa com a Veronica, do Faxina Boa. Ela disse que, quando o Faxina Boa estourou e ela já não dava mais conta da demanda, ela chegou a idealizar uma empresa de faxinas que pagasse bem as pessoas. Mas nunca conseguiu levantar um real sequer de investimento…

Caju

Por que não estou surpreso, né?

Veronica Oliveira

Quando eu fui trabalhar com pessoas que já vinham do modelo de aplicativos, eu fiquei em choque que tinha gente que falava: eu só recebo depois que eu faço cinco faxinas. Tá… e até você receber? Tinha pessoa que falava “não tinha dinheiro nem pra transporte, e tinha que me virar, pegava emprestado, ficava sem comer, pra depois receber o valor da faxina”. Eu falava: gente, é um modelo muito, muito absurdo. Então, eu queria realmente ter tido a chance de mostrar que era possível trabalhar de uma outra forma, sem que as pessoas precisassem passar por esse tipo de absurdo.

E aí, quando eu tentei abrir uma empresa, eu queria exatamente ir na contramão do que os aplicativos faziam, eu não consegui absolutamente nenhum tipo de investimento ou de recurso que me permitissem fazer isso de uma forma dentro da lei e tudo bonitinho porque as pessoas riam da minha cara quando eu dizia que, para mim, o impacto social da proposta era mais importante do que o lucro, justamente porque eu vinha de um modelo de trabalho muito exploratório desde a época do telemarketing.

Eu imagino que daqui a um tempo a gente consiga ter empresas nos moldes da empresa que eu cheguei a planejar na minha cabeça. Mas que isso demanda tempo e educação. E me dá um baita de um desânimo ter que falar coisas tão óbvias em 2021. Que você tem que respeitar a pessoa que tá trabalhando dentro da sua casa. Que você tem que pagar bem por um trabalho super difícil. Eu escuto muito que limpar a casa qualquer um faz. E geralmente quem fala isso não é capaz de limpar a própria casa.

Caju

Rapaz… essa fala da Veronica arrepiou, hein, Ana?

Ana

Da cabeça aos pés. E acho que a mensagem está muito clara: é preciso criar uma relação mais saudável com o trabalho doméstico, encarar e assumir algumas tarefas que a gente delega pra outras pessoas, sem necessidade. Agora, se a pessoa realmente precisa recorrer a um profissional da limpeza, ou porque não tem tempo ou porque realmente não dá conta e precisa de ajuda, então, é preciso dar valor e pagar dignamente.

Caju

Com certeza! O Guilherme, do site O Joio e o Trigo, que a gente ouviu agora há pouco, falou algo parecido.

Guilherme Zocchio

É um trampo que tem que ser valorizado, cara. A gente lega esse trabalho pras pessoas de mais baixa escolaridade, pras pessoas que são consideradas vulneráveis socialmente, e a gente não valoriza esse trabalho. E tem que valorizar, cara. Porque é um trampo que exige muito conhecimento. Tem coisas que você só vai aprender limpando… e mesmo limpando você vai ver que alguém que tem mais experiência fazendo a coisa vai fazer muito melhor que você.

Caju

Essa fala do Guilherme me fez pensar numa coisa: o mais louco é que praticamente não existe progressão de carreira para as empregadas domésticas. Essa questão da experiência é muito pouco valorizada. A pessoa que trabalha com isso há 40 anos pode ganhar o mesmo – ou algo muito próximo – do que aquela que começou agora. Só uma reflexão final pra não passar batido…

E com esse papo a gente termina mais uma temporada do Trabalheira.

Ana

Pô! Agora que a gente tava esquentando os motores, Caju?

Caju

Pois é… mas a gente volta, Ana. A terceira leva de episódios já tá na agulha!

Ana

Demorou, Caju!

Caju

O Trabalheira é uma produção da Rádio Novelo pra Rádio Batente, a central de podcasts da Repórter Brasil. A coordenação geral é da Paula Scarpin.

O roteiro original é de minha autoria, Carlos Juliano Barros. O tratamento de roteiro é do Renan Sukevicius.

A edição e a montagem são da Julia Matos. A nossa música tema é composta pela Mari Romano e também pelo João Jabace. O Jabace é da Pipoca Sound e também faz a finalização e a mixagem do programa.

A coordenação digital é da Juliana Jaeger.

Ana

A gente se vê em breve, Caju.

Caju

Te espero, Ana.



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