Ativista ameaçado volta a Anapu, onde 22 já morreram em conflitos por terra desde 2005

Vítima de três tentativas de assassinato, Erasmo Alves Teófilo volta a viver em Anapu (PA), município marcado por conflitos por terra, onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada em 2005; desde então, outras 21 pessoas foram executadas em disputas fundiárias
Por Vinicius Konchinski | Edição Carlos Juliano Barros

O ANO DE 2025 terminou com sentimentos contraditórios para Erasmo Alves Teófilo, liderança camponesa de Anapu, no Pará, município marcado por conflitos por terra e pelo assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005, a mando de fazendeiros da região — um crime de ampla repercussão internacional

Erasmo sentiu-se aliviado ao retornar ao local descrito por ele como um “paraíso em meio à floresta” e rever seus pais, após anos de afastamento por ameaças à sua vida. No paraíso, entretanto, ele se viu com medo. Sentiu-se exposto àqueles que gostariam que ele nunca mais mobilizasse trabalhadores rurais na Amazônia.

“Eu estou feliz em voltar para meu lugar. Mas também vivo como se estivesse me entregando a matadores ou caminhando para meu próprio sequestro toda vez que preciso sair de casa”, descreve Erasmo, em entrevista à Repórter Brasil sobre seu retorno a Anapu. “Vivo com a sensação de que seria morto a qualquer momento.”

Ele deixou o município há quase cinco anos, em meio a uma onda de violência contra lideranças rurais da região no início do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Naquele tempo, viu amigos e companheiros de militância serem mortos.

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Desde o assassinato de Dorothy, outras 21 pessoas foram executadas por questões ligadas à terra, mostram dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), braço da igreja católica que atua com trabalhadores rurais. De lá para cá, ninguém foi condenado pelos crimes, segundo reportagem da Agência Pública.

Um estudo realizado pelas ONGs Justiça Global e Terra de Direitos em 2023 apontou o Pará como o estado com o maior número de casos de violência contra defensoras e defensores de direitos humanos. Em quatro anos, de 2019 e 2022, foram 143 episódios — média de 35,7 casos por ano.

Uma versão mais atualizada do mesmo estudo, divulgada em 2025, reforçou a liderança negativa do Pará e apontou que a média dos casos de violência no estado subiu entre 2023 e 2024 para 51,5 por ano.

Os dados contrariam a tendência nacional de redução verificada em todo país. Nesse período, o Pará concentrou 21,2% das ocorrências de violência tabuladas pela Justiça Global e Terra de Direitos — seis defensores de direitos humanos foram mortos no estado.

Funeral de Dorothy em 2005, em Anapu, no Pará; estado continua sendo palco de violência no campo, com 12 das 31 vítimas de 2019 (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Funeral de Dorothy em 2005, em Anapu, no Pará (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Erasmo mesmo não morreu por pouco. Chegou a ser alvo de duas emboscadas em Anapu, uma em 2019 e outra em 2021. Por conta disso, entrou para o programa federal de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas. Mudou-se para Santarém, também no Pará. Em 2023, foi descoberto e novamente vítima de um atentado a balas na periferia de Alter do Chão, balneário de água doce do Rio Tapajós. Depois disso, refugiou-se na capital Belém.

Enquanto se protegia, Erasmo recebia notícias vindas de Anapu sobre a piora da saúde de seu pai. Idoso, ele foi diagnosticado com doença de Alzheimer. A mãe de Erasmo até tentou levar o pai para outro local onde o filho pudesse ajudá-los. Não deu certo. Os pais de Erasmo voltaram à casa na floresta e ele, o único filho do casal, precisou retornar à região.

“Tive que botar a minha vida em risco”, afirma. “Assinei até um termo me responsabilizando pela minha segurança e voltei, apesar de todas as análises de risco feitas por autoridades indicarem que eu vou ser morto em Anapu.”

O MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania), responsável pelo Provita (Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas), não forneceu qualquer informação sobre a eventual relação de Erasmo com a iniciativa, alegando que ela “é regida por rigorosos protocolos de sigilo e segurança”.

“O Ministério não confirma, nem nega, a inclusão, permanência, desligamento ou eventual retorno de pessoas específicas ao convívio comunitário ou a territórios de origem, tampouco fornece informações individualizadas sobre situações de ameaça. A divulgação desse tipo de dado pode colocar em risco a integridade física das pessoas protegidas e de suas famílias, além de comprometer a efetividade do programa”, justifica. Leia o posicionamento completo do MDHC.

Rotina cronometrada

Erasmo se move numa cadeira de rodas desde a primeira infância, o que dificulta seus deslocamentos numa área sem infraestrutura urbana, como os assentamentos rurais de Anapu. Mas isso nunca atrapalhou seu trabalho como liderança na região.

Há 20 anos, Erasmo fundou uma associação de pessoas com deficiência. Em 2009, ingressou na resistência popular contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Em 2012, com a usina já em construção, Erasmo conseguiu um lote de terra em um assentamento em Anapu. 

Mesmo assim, a partir de 2015, passou a militar pela criação de outros assentamentos no município nos chamados lotes 96 e 97, glebas reivindicadas também fazendeiros da região. 

Em 2022, os lotes foram transformados oficialmente no Projeto de Assentamento Irmã Dorothy Stang. Segundo Erasmo, seu trabalho ajudou na regularização de áreas destinadas a 5 mil pessoas.

A conquista, entretanto, não tornou a vida de Erasmo mais fácil. Pelo contrário. As dificuldades para deslocamento, por exemplo, só aumentaram conforme ele ganhava notoriedade na região e passava a ser mais ameaçado.

Hoje, Erasmo só sai de casa em grupo. Quando precisa ir à cidade para fazer compras ou levar seu pai ao médico, são necessários pelo menos dois carros. Um leva Erasmo. Outro dá cobertura com colegas de assentamentos de Anapu. 

Anapu, Pará, Brasil 23-09-2023 Detalhes do túmulo da freira assassinada Dorothy Stang em Anapu Série de reportagens do projeto Pulitzer Center sobre violência no campo. Percorremos assentamentos e acampamentos em várias cidades do Mato Grosso e Pará, mostrando como a política do governo do ex–presidente Jair Bolsonaro amplificou a violência na Amazônia. ©Foto: Fernando Martinho
Em frente ao túmulo da missionária Dorothy Stang, uma cruz lembra os nomes de todas as vítimas de conflitos por terra em Anapu, no Pará (Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Erasmo conta que, além do transtorno, esse esquema de proteção gera um custo. “Cada viagem custa mais de R$ 1 mil. Não que eu tenha que pagar pela companhia, mas preciso pagar a gasolina de dois carros, a alimentação do grupo todo”, explica.

Ele vendeu o lote que tinha em Anapu para se manter enquanto esteve fora do município. Atualmente, precisando de recursos, lançou uma campanha permanente de arrecadação de fundos em suas redes sociais.

“Muita gente que eu não conheço vem me perguntar se eu voltei para ficar, se vou voltar a militar por terras”, diz Erasmo. “Há uma organização coletiva pela minha segurança, mas os fazendeiros também são organizados. Eu sei que eles fizeram uma reunião para falar sobre a minha volta a Anapu.”

Gilberto Marques, professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e articulador do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação, ratifica que Anapu é um ambiente inóspito para Erasmo. Segundo ele, a presença das forças de segurança nos assentamentos é rara. Nem sempre a relação delas com os assentados é pacífica. “A polícia em Anapu está quase sempre trabalhando em favor dos interesses dos fazendeiros”, afirma.

‘Anapu mais tranquila’

Cortado pela Rodovia Transamazônica, o município de Anapu tem 31 mil habitantes, área superior à do Catar e duas vezes maior que a do Distrito Federal.

As disputas por terra na região remontam à ditadura militar. Na década de 1970, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) concedeu terras a migrantes para que desenvolvessem atividades econômicas acordadas com o regime, como exploração de madeira e pecuária. 

Uma vistoria nos anos 1980 encontrou grandes áreas abandonadas. Com isso, os contratos de concessão foram cancelados e as terras, devolvidas ao governo federal para destinação à reforma agrária. 

O imbróglio, porém, resultou num caos fundiário. De um lado, ficaram pequenos agricultores solicitando que as terras da União fossem distribuídas. De outro, grandes fazendeiros dizendo que haviam adquirido terrenos de boa fé.

Assentados em Anapu ouvidos pela Repórter Brasil afirmam que, neste momento, o cenário local estaria mais “tranquilo”. Segundo eles, o Incra fixou marcos sinalizando o limite de lotes, o que teria reduzido contendas sobre território no município.

Esses mesmos assentados dizem que, até o presente momento, não tomaram conhecimento sobre ameaças a Erasmo desde seu retorno a Anapu. Isso, contudo, não eliminaria as preocupações sobre sua segurança. A situação realmente acalmou, mas a gente sempre tem que ter cuidado”, pondera Agnaldo Costa Lima, que militou ao lado de Erasmo em Anapu. “O perigo, o risco de morte, é uma coisa que não acaba”, complementa.

Procurada, a Defensoria Pública da União não se pronunciou. Já a Defensoria Pública do Pará informou que não cuida mais do caso de Erasmo.

A Segup (Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social) do Pará também foi procurada, mas não se posicionou. O texto será atualizado se houver resposta.

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