Leias as respostas completas de Cristiano Oliveira e Eduardo Gaban para a reportagem “Estudo usado por ruralistas no STF contra moratória da soja é contestado por ambientalistas”
Eduardo Gaban e Cristiano Oliveira
Agradecemos o interesse pelo nosso trabalho e a oportunidade de esclarecer as dúvidas levantadas pela reportagem. A Moratória da Soja é um tema de grande relevância para o debate público brasileiro, e acreditamos que a produção científica independente tem um papel fundamental nessa discussão — especialmente em um momento em que o tema é objeto de análise tanto no STF quanto no CADE. Respondemos a cada uma das perguntas com a mesma seriedade e transparência que orientaram a elaboração do estudo, e esperamos que as respostas contribuam para uma cobertura informada e equilibrada.
- O estudo utiliza o desmatamento agregado como variável principal. Segundo os especialistas, há o entendimento na literatura científica de que a variável de resultado deve estar diretamente ligada ao mecanismo da política, sob risco de diluição do efeito estimado. Considerando que a moratória atua sobre a conversão direta para soja, como os autores justificam o uso de desmatamento total?
É uma pergunta bastante pertinente, pois ela toca num ponto central do nosso trabalho. A escolha do desmatamento total foi intencional e reflete exatamente o que queremos medir: se a Amazônia ficou mais preservada.
Pense assim: imagine que uma cidade proíbe que caminhões despejem lixo numa rua específica. Se medirmos apenas o lixo naquela rua, pode parecer um sucesso. Mas se os caminhões simplesmente mudarem para a rua do lado, o bairro continua sujo. A política falhou no que realmente importa.
Com a Moratória da Soja acontece algo parecido. Ela proíbe que os produtores comprem soja plantada diretamente sobre áreas desmatadas. Mas os dados do próprio GTS (o grupo que monitora a moratória) mostram que essa conversão direta de floresta para soja representa apenas 2,4% do desmatamento total na Amazônia. Os outros 97,6% ocorrem por outras razões, principalmente pela pecuária, que está fora do alcance da moratória.
Se medíssemos apenas aqueles 2,4%, poderíamos concluir que a política funcionou, mas estaríamos ignorando o que acontece na floresta como um todo. Nossa pergunta de pesquisa é mais ambiciosa e mais honesta: a Amazônia foi efetivamente protegida? Para isso, só o desmatamento total responde.
Vale destacar ainda que não estamos inventando nada novo. O desmatamento total medido pelo PRODES é exatamente a mesma base utilizada pelos relatórios do próprio GTS e pelos principais estudos acadêmicos que avaliaram políticas de proteção da Amazônia, como as análises do PPCDAm e da Lista Negra de municípios feitas por Assunção e coautores. Portanto, apenas seguimos o padrão estabelecido pela literatura e pelo próprio sistema de monitoramento que a moratória adota.
- O estudo conclui que a moratória não teve impacto estatisticamente detectável e atribui a redução do desmatamento a políticas públicas. No entanto, estudos revisados por pares, como Heilmayr et al. (2020), utilizam recortes espaciais em áreas aptas à soja para isolar esse efeito e encontram redução associada ao acordo. Esse tipo de abordagem foi testado no estudo? Como os autores explicam a diferença de resultados?
Heilmayr e seus coautores fizeram um trabalho respeitável, e é natural que estudos diferentes usem abordagens diferentes. Mas há uma distinção importante que explica a diferença nos resultados.
O estudo de Heilmayr recorta o mapa da Amazônia e olha apenas para as áreas onde a soja poderia ser plantada, como se você avaliasse o impacto de uma lei antifumo medindo apenas em locais onde cigarros são vendidos. Nesse recorte menor, os números parecem mais favoráveis à moratória.
O problema é que esse recorte cria uma ilusão. Se um fazendeiro deixa de desmatar para soja numa área apta, mas outro fazendeiro desmata do lado para criar gado (empurrando a pressão para outra área), o recorte de Heilmayr registra um “sucesso” — mas a floresta continuou sendo destruída.
“O estudo de Heilmayr comete um erro básico de métrica: ele foca na probabilidade de haver desmatamento em pontos específicos do mapa, e não na área total destruída. É como tentar medir a gravidade de uma enchente contando o número de dias que choveu no mês, ignorando o volume de água que caiu em cada tempestade. O estudo fatiou a Amazônia em quadradinhos no mapa e respondeu a uma pergunta simples: ‘teve desmatamento aqui, sim ou não?’ (zero ou um). Ao descobrir que a probabilidade de um ‘sim’ caiu, os autores multiplicaram isso pela área total e cravaram que 18 mil km² foram salvos. Essa conta exige uma suposição heroica e irreal: a de que o tamanho médio das áreas desmatadas nunca muda. Se o número de focos de desmatamento cair pela metade, mas o tamanho de cada área desmatada triplicar, a probabilidade cai, mas a floresta continua encolhendo.
Por esta razão, nosso estudo optou por uma medida concreta — a área desmatada medida pelo PRODES, o sistema oficial do INPE — e por um recorte mais amplo, justamente para capturar esses efeitos indiretos. O que encontramos é que a queda do desmatamento no período coincide com a entrada em vigor de políticas públicas robustas — como a Lista Negra de municípios e as restrições de crédito rural — que atuavam sobre toda a cadeia de pressão sobre a floresta, não apenas sobre a soja. E pouco tem relação com o monitoramento pelo GTS ou com o boicote imposto pela Moratória.
- Para controlar políticas públicas, o estudo exclui municípios da lista prioritária de desmatamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que essa estratégia pode introduzir viés de seleção ao retirar justamente as áreas com maior pressão de desmate, onde o efeito da política tenderia a ser mais observável. Como os autores respondem a essa crítica?
Trata-se de uma preocupação legítima à primeira vista. Mas, com respeito aos especialistas consultados, a lógica aqui está invertida: a exclusão dos municípios prioritários não cria um viés — ela corrige um viés que existiria caso eles fossem mantidos.
Veja o raciocínio com uma analogia simples. Imagine que você quer testar se um novo remédio contra a pressão alta funciona. Mas, ao mesmo tempo em que você dá esse remédio aos pacientes, o médico também prescreve três outros medicamentos fortíssimos para os mesmos pacientes. No fim, a pressão caiu — mas como saber o que fez o quê? É impossível. Para medir o efeito real do remédio novo, você precisa de um grupo de pacientes que tomou apenas ele.
O ano de 2008 foi exatamente esse cenário para a Amazônia. No mesmo momento em que a Moratória da Soja entrava em vigor, o governo federal lançou a Lista de Municípios Prioritários — um choque de fiscalização sem precedentes, com presença permanente do IBAMA, corte de crédito rural em bancos públicos e embargos severos. Estudos independentes mostram que essa ação estatal, por si só, evitou o desmatamento de mais de 11.000 km². Se mantivéssemos esses municípios na análise, seria matematicamente impossível separar o que foi resultado da pressão do Estado do que foi resultado do acordo privado das tradings. Na prática, estaríamos atribuindo à Moratória o mérito do trabalho do IBAMA — e isso sim seria um viés grave.
Ao excluir esses municípios, o estudo cria o que os cientistas chamam de um ambiente de identificação limpo. A amostra que restou é composta por municípios com produção expressiva de soja e monitoramento ativo pelo GTS, mas sem o cerco máximo do Estado. São lugares onde a pressão por expansão agrícola existe de forma intensa e real. Se a Moratória tivesse um poder de dissuasão genuíno — se a ameaça de boicote das grandes tradings realmente mudasse o comportamento dos produtores —, esse efeito deveria aparecer com clareza justamente nesses municípios. O fato de o impacto ser estatisticamente nulo nesse ambiente controlado é a evidência mais honesta que se pode produzir sobre a política.
Por fim, vale um esclarecimento sobre o método. A abordagem que seguimos está alinhada com o que há de mais rigoroso na ciência econômica contemporânea. Essa metodologia exige que os grupos comparados sejam suficientemente parecidos entre si para que a comparação seja justa — o que os cientistas chamam de comparar “maçãs com maçãs”. Manter na amostra municípios que sofreram intervenções estatais radicalmente diferentes seria o equivalente a comparar maçãs com laranjas, e qualquer resultado obtido dessa forma seria, no mínimo, questionável.
- O estudo utiliza o estimador de Sun & Abraham (2021), desenvolvido para contextos de tratamento escalonado. Considerando que a moratória foi implementada de forma simultânea no bioma Amazônia, como os autores justificam a adequação desse método ao caso analisado?
Para responder a esta pergunta, é necessário fazer uma correção factual importante: a premissa de que a Moratória foi implementada de forma simultânea em todo o bioma é incorreta na prática. No papel, a regra vale para toda a Amazônia desde 2008. Na realidade, o monitoramento — que é o que efetivamente muda o comportamento dos produtores — chegou a cada município em momentos completamente diferentes.
O funcionamento real da política é assim: o Grupo de Trabalho da Soja, responsável pela fiscalização, só inclui um município na sua malha de monitoramento por satélite quando a produção local de soja ultrapassa 5.000 hectares. É como a instalação de um radar numa rodovia. A lei de trânsito vale para a estrada inteira, mas o risco real de ser multado só existe no trecho onde o radar foi instalado. Como a produção agrícola avança em ritmos distintos em cada região, os municípios entraram na lista de monitoramento em anos completamente diferentes. O próprio livro cita casos como Nova Bandeirantes e Aripuanã, no Mato Grosso, que só passaram a ser monitorados na safra 2022/2023 — quinze anos depois do início formal da política.
Além disso, a intensidade da própria política mudou radicalmente ao longo do tempo. De 2008 a 2016, a Moratória era um acordo provisório, renovado periodicamente, o que gerava nos produtores a expectativa de que as restrições poderiam acabar a qualquer momento. Em 2016, o acordo tornou-se permanente, alterando de forma significativa a percepção de risco de quem opera no setor. Tratar os quatorze anos de 2008 a 2022 como um bloco uniforme e simultâneo seria ignorar essa realidade institucional.
É exatamente por isso que o método de Sun & Abraham é o mais adequado. Quando uma política chega em “ondas” — município a município, ano a ano — o método estatístico tradicional comete um erro grave: ele acaba usando como grupo de comparação municípios que já estão sob monitoramento intenso há anos, como se ainda fossem um ponto de referência neutro. É como comparar o comportamento de um motorista veterano no radar com o de alguém que acabou de ver o equipamento pela primeira vez — a comparação perde o sentido. O método de Sun & Abraham corrige exatamente esse problema, garantindo que cada município seja comparado apenas com outros que ainda não entraram na malha de fiscalização. Não por acaso, essa família de métodos está no coração da tradição que rendeu o Prêmio Nobel de Economia em 2021.
Usar uma metodologia mais antiga nesse contexto não seria uma escolha conservadora, seria um erro técnico com consequências diretas sobre as conclusões do estudo.
- O estudo utiliza dados autodeclarados de produtores para estimar impactos econômicos da moratória. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que esse tipo de levantamento pode refletir percepções dos produtores, inclusive associadas a fatores como logística, clima ou acesso a mercado, e não necessariamente efeitos causais do acordo privado. Quais procedimentos metodológicos foram adotados para mitigar esses efeitos no estudo?
Trata-se de um questionamento válido para uma pesquisa de opinião comum. Mas o nosso estudo foi desenhado metodologicamente para eliminar exatamente esse tipo de viés. Adotamos três camadas de proteção contra o risco de estarmos medindo “choro de produtor” em vez de impacto real.
A primeira camada é a mais importante: a pesquisa não perguntou aos produtores o que eles achavam da Moratória. A classificação de quem foi impactado pela política foi feita de forma inteiramente objetiva, cruzando a localização da fazenda com os relatórios oficiais do próprio Grupo de Trabalho da Soja. Se o município do produtor constava na lista de monitoramento das tradings, ele foi classificado como impactado, independentemente de ele sequer saber o que é a Moratória. O preço que ele declarou ter recebido pela soja foi então comparado com o de produtores fora dessa lista. Isso não é percepção: é um dado de mercado cruzado com um documento oficial da própria política.
A segunda camada responde diretamente à preocupação com logística e clima. Utilizamos um método econométrico de última geração (chamado IPWRA, duplamente robusto) que compara apenas produtores que chamaríamos de “gêmeos estatísticos”: fazendas de mesmo tamanho, com produtores de experiência equivalente e, fundamentalmente, à mesma distância do silo ou ponto de descarga mais próximo. Em outras palavras, o frete já estava descontado antes de calcularmos qualquer diferença de preço. Mesmo após esse controle rigoroso, a fazenda localizada na área monitorada pela Moratória recebe, em média, R$ 5,40 a menos por saca.
A terceira camada é talvez a mais difícil de contestar. Realizamos duas análises completamente independentes: uma usando os dados declarados pelos produtores e outra usando bases oficiais do governo federal, como o IBGE. As duas chegaram à mesma conclusão: produtores em áreas monitoradas sofrem um deságio severo no preço recebido. Quando dados de fazendas individuais e dados macroeconômicos oficiais apontam para o mesmo resultado sem nunca terem se “falado”, não estamos mais diante de uma percepção. Estamos diante de um fato econômico confirmado por duas fontes independentes.
Por fim, há um dado do próprio estudo que desfaz de vez a tese do viés de percepção. Testamos separadamente o grupo de produtores que declararam explicitamente ter sido prejudicados pela Moratória — exatamente aqueles que, se a crítica fosse válida, deveriam apresentar os maiores “exageros”. O resultado foi o oposto: esse grupo relatou perdas menores do que a média objetiva encontrada para o município como um todo. A explicação é simples: quem sofre embargo direto das grandes tradings tende a migrar para cerealistas menores, reduzindo parte do prejuízo. Os dados não capturam indignação: capturam a dinâmica real de adaptação do mercado.
- Para controle de políticas públicas, foram excluídos municípios da lista prioritária de desmatamento. Como essa decisão foi considerada na análise dos efeitos da moratória?
Essa questão foi abordada em detalhe numa pergunta anterior, mas vale retomar o raciocínio central de forma direta.
A exclusão dos municípios da Lista Prioritária de Desmatamento não foi uma omissão. Foi uma decisão metodológica deliberada e necessária. Em 2008, exatamente o mesmo ano em que a Moratória entrou em vigor, o governo federal submeteu esses municípios a um choque de fiscalização sem precedentes: presença permanente do IBAMA, corte de crédito rural em bancos públicos e embargos severos. Manter essas áreas na amostra tornaria impossível separar o que foi efeito da Moratória do que foi efeito das políticas públicas, e qualquer resultado encontrado seria, na melhor das hipóteses, uma mistura dos dois.
Ao excluir esses municípios, o estudo não ignorou uma parte do problema: ele criou as condições para medir a Moratória de forma isolada e honesta. A análise se concentrou em municípios com produção expressiva de soja e monitoramento ativo pelo GTS, mas sem a interferência direta do Estado, exatamente o ambiente onde o efeito do acordo privado, se existisse, deveria aparecer com clareza.
- Fontes ouvidas pela reportagem classificam o estudo como uma análise com “fragilidades metodológicas” e “riscos de viés” na construção dos resultados. Como os autores respondem a essas avaliações?
Recebemos essa avaliação com respeito, mas precisamos ser diretos: críticas genéricas, sem apontar qual fragilidade específica foi identificada e por qual razão, não constituem uma avaliação científica, constituem uma opinião. A ciência avança por meio de argumentos técnicos concretos e estamos inteiramente dispostos a respondê-los, como fizemos com cada uma das perguntas anteriores.
Se as fontes ouvidas pela reportagem identificaram fragilidades concretas, o caminho natural seria submetê-las ao debate acadêmico aberto — publicando uma crítica formal, participando de seminários científicos ou propondo uma reanálise dos dados. Esse é o protocolo da ciência. Portanto, avaliações anônimas concedidas a veículos de imprensa, sem especificação técnica, não seguem esse protocolo.
O que podemos afirmar com clareza é que o estudo utiliza dados públicos e oficiais e teve todas as suas escolhas metodológicas documentadas e justificadas. Qualquer pesquisador que queira replicar, contestar ou aprimorar os resultados encontrará tudo o que precisa disponível para isso.
- O estudo apresenta argumentos semelhantes aos utilizados por entidades que questionam a moratória em processos no STF e no Cade, como soberania nacional, caracterização do acordo como prática anticoncorrencial e questionamentos sobre sua eficácia ambiental. Como os autores explicam essa convergência de argumentos?
Compreendemos a insinuação implícita na pergunta e vamos respondê-la diretamente: a convergência de conclusões entre um estudo acadêmico e outros atores não diz nada sobre a origem ou a integridade do estudo. Diz apenas que diferentes pessoas, partindo de pontos distintos, chegaram ao mesmo lugar.
A lógica inversa dessa crítica levaria a conclusões absurdas. O fato de que estudos científicos sobre os malefícios do tabaco convergem com os argumentos de advogados que processam fabricantes de cigarro não torna esses estudos suspeitos — torna-os úteis. Da mesma forma, se uma análise econômica independente conclui que um acordo privado tem eficácia ambiental limitada e gera efeitos econômicos negativos sobre produtores, é natural que essa conclusão seja citada por quem litiga sobre o mesmo tema.
O que determina a credibilidade de um estudo científico não é com quem ele concorda, mas como ele foi feito. E nesse ponto o nosso trabalho tem resposta clara: utilizamos dados públicos e oficiais, métodos reconhecidos pela literatura internacional e documentamos cada escolha metodológica de forma transparente. Qualquer pesquisador pode replicar nossos resultados — e essa replicabilidade é a única medida que importa na ciência.
Sugerimos que as mesmas perguntas sejam feitas na direção oposta: estudos que concluem pela eficácia da Moratória convergem com os interesses comerciais das grandes tradings de soja, que utilizam o acordo como certificação de sustentabilidade para acessar mercados europeus. Essa convergência também merece escrutínio?
A ciência não escolhe seus resultados para agradar ou desagradar a nenhuma parte. E é exatamente por isso que ela é útil.
- Registros públicos de agenda indicam que os autores Eduardo Gaban e Cristiano Aguiar de Oliveira participaram de reuniões no Cade, entre setembro e outubro de 2025, em encontros que mencionam Aprosoja e CNA, entidades que questionam a moratória no Cade e no STF. Em reuniões com a participação do professor Cristiano Aguiar de Oliveira, também consta a presença da advogada da CNA, Amanda Oliveira. Qual foi o objetivo dessas reuniões?
As reuniões decorreram de um trabalho anterior e separado do livro. Durante minha Licença para Interesses Particulares, elaborei um parecer técnico para a CNA sobre aspectos concorrenciais do caso em julgamento no CADE. Quando o processo avançou ao plenário, já após meu retorno à universidade, como ninguém da CNA se sentiu à vontade para responder eventuais questionamentos a respeito dos métodos empregados, fui convidado a participar de algumas reuniões para esclarecer os aspectos técnicos do parecer, que continham econometria de alta complexidade. O prof. Cristiano participou de uma ou duas reuniões presenciais e pelo menos uma outra de forma virtual, fora do seu horário de trabalho e sem prejuízo às suas obrigações acadêmicas. As demais reuniões previstas foram canceladas. No mesmo sentido, o Professor Eduardo Gaban teve uma atuação pontual e não remunerada a convite de um dos escritórios atuantes no CADE para avaliar junto ao Ministério Público Federal e ao conselheiro relator do caso no CADE a possibilidade ou viabilidade do CADE considerar parâmetros de outros acordos ambientais exitosos celebrados pelo MPF relacionados ao tema então em trâmite no CADE. Como não houve sinalização positiva por parte das autoridades, o trabalho foi encerrado naquele mesmo período.
- Essas interações podem configurar algum tipo de conflito de interesse em relação ao estudo? Caso não, por que essa relação institucional não foi detalhada no documento?
Não configuram conflito de interesse por razões objetivas. Conflito de interesse existe quando um benefício financeiro ou institucional tem o potencial de distorcer resultados de pesquisa. No nosso caso, não recebemos qualquer remuneração pela produção do livro. Nem da CNA, nem da Aprosoja, nem de qualquer outra entidade. O conteúdo do livro não foi submetido à revisão ou aprovação de partes interessadas, e publicamos exatamente o que a evidência empírica indicava. Vale destacar que uma parte relevante da análise, justamente aquela sobre o impacto no desmatamento, foi desenvolvida de forma independente e não integrou o parecer entregue à CNA, porque não era do interesse deles uma vez que estavam focados nas questões concorrenciais. Acredito que isso ilustra com clareza que a agenda do livro era acadêmica, não advocatícia.
Acreditamos que vale salientar que ter uma posição acadêmica crítica sobre uma política pública não é conflito de interesse: é o papel da ciência. Reconhecemos que, como boa prática, uma seção explícita de declaração de financiamento e vínculos teria sido bem-vinda no livro. Em retrospecto, sua inclusão teria evitado especulações desnecessárias. Mas sua ausência não altera os fatos: não há financiamento externo a declarar na elaboração e divulgação do trabalho, e não existiram instruções de terceiros sobre como conduzir ou apresentar os resultados.
- As reuniões no Cade do Prof. Cristiano foram realizadas de forma presencial? Em caso afirmativo, como foram custeadas, de forma detalhada, as despesas de deslocamento, hospedagem e alimentação relacionadas à participação?
Sim, a reunião foi presencial em Brasília. As despesas de deslocamento e hospedagem foram parcialmente custeadas pela CNA, no contexto do parecer técnico que havia sido contratado durante minha LIP. O prof. Cristiano não recebeu honorários adicionais por essa participação. O custeio, na forma de diárias, cobriu apenas parte das despesas de viagem, e o restante foi arcado por ele. Não houve qualquer remuneração pela reunião em si.
- Quem financiou o estudo elaborado pelo IBCI e a pesquisa conduzida pela consultoria responsável pelo levantamento com produtores? Houve apoio direto ou indireto de entidades do setor?
A elaboração do conteúdo acadêmico do livro — as análises econométricas e a revisão da literatura — não teve financiamento externo. Trata-se de trabalho intelectual voluntário, motivado exclusivamente pelo interesse acadêmico no tema. Quanto ao levantamento de dados primários com produtores, esse trabalho foi conduzido por uma consultoria independente, e não temos conhecimento sobre a origem dos recursos utilizados para esse fim. Fomos convidados a analisar os dados já coletados, e nossa contribuição foi estritamente técnica e não remunerada.
- Por que o estudo não apresenta uma seção com declaração de financiamento e potenciais conflitos de interesse, como é usual em pesquisas acadêmicas?
Como mencionamos anteriormente, reconhecemos que a inclusão dessa seção seria uma boa prática acadêmica e que sua ausência gerou questionamentos que poderiam ter sido evitados. Dito isso, a ausência da seção não significa que há algo a ocultar: significa que o livro, por ter sido publicado fora do fluxo tradicional de periódicos científicos, não passou por um checklist editorial que normalmente exigiria essa declaração. No mérito, não há financiamento externo a declarar, não recebemos remuneração de qualquer parte interessada, e o conteúdo foi produzido e publicado sem interferência externa.
Seja como for, em virtude desses questionamentos recebidos, vamos encaminhar uma sugestão ao IBCI para que considere incluir esse disclaimmer na versão eletrônica do livro e nas próximas tiragens impressas, se houver.
- Como os produtores foram convidados a participar da pesquisa? A divulgação foi feita por meio de associações do setor, como a Aprosoja-MT e a Famato?
O recrutamento dos produtores para o levantamento de dados primários foi conduzido pela consultoria responsável pela pesquisa de campo, etapa da qual não participamos. Não temos conhecimento detalhado sobre os canais utilizados para esse recrutamento. O que podemos afirmar é que recebemos os dados já coletados e aplicamos sobre eles métodos econométricos, documentados no livro, que controlam possíveis vieses de seleção amostral.
- Considerando o regime de dedicação exclusiva do professor Cristiano Aguiar de Oliveira, houve remuneração pela elaboração do estudo? Em caso afirmativo, como essa atividade foi formalizada junto à universidade?
Não houve remuneração pela elaboração do livro. O parecer econômico anterior, entregue à CNA, foi produzido durante a Licença para Interesses Particulares do prof. Cristiano, período em que não havia vínculo ativo com a universidade e durante o qual estava legalmente livre para exercer qualquer atividade remunerada ou não. A participação nas reuniões presenciais e online no CADE ocorreu após o seu retorno, fora do horário de trabalho e sem prejuízo às suas obrigações acadêmicas. A produção do livro em si se enquadra naturalmente entre as atividades de pesquisa esperadas de um professor universitário: produzir conhecimento e torná-lo público, especialmente sobre temas de relevância para políticas públicas em debate, é parte central da missão acadêmica.
Desejamos sucesso com a reportagem e esperamos que as respostas acima tenham esclarecido as dúvidas levantadas. Esperamos também que o texto final reflita, com a devida isenção, os argumentos que apresentamos ou ao menos os considere com o mesmo rigor com que foram elaborados.
Por fim, gostaríamos de deixar claro que pesquisadores e jornalistas comprometidos com a verdade dos fatos estão, no fundo, do mesmo lado: o lado de quem acredita que decisões públicas devem ser baseadas em evidências. Nossa pesquisa não defende interesses econômicos de nenhuma parte. Ela questiona se um mecanismo privado, controlado por grandes multinacionais do agronegócio global, está de fato cumprindo o papel ambiental que lhe é atribuído, ou se serve principalmente como instrumento de certificação sustentável para acesso a mercados europeus ou qualquer outro fim. Proteger a Amazônia é um objetivo que compartilhamos. E é exatamente por isso que achamos importante desmistificar narrativas que, ao atribuir a própria iniciativa privada o mérito da preservação, acabam desviando a atenção das políticas públicas que realmente funcionaram e que merecem ser estimuladas.