Casos de trabalho escravo investigados pela Repórter Brasil embasam ação contra JBS

Ministério Público do Trabalho afirma que frigorífico manteve relações comerciais com fornecedores flagrados explorando trabalhadores em condições análogas à escravidão e pede na Justiça indenização de R$ 118,9 milhões por danos morais coletivos
Por Daniela Penha | Edição Poliana Dallabrida

CASOS DE trabalho escravo na cadeia de fornecimento da JBS investigados pela Repórter Brasil embasam uma ação movida pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) contra a gigante da carne. O órgão pede na Justiça que a empresa pague R$ 118,9 milhões por danos morais coletivos e seja obrigada a adotar medidas que previnam a prática em toda sua cadeia produtiva no estado do Pará, da cria do gado até o consumidor final.

Na ação, aberta em 9 de abril na Vara do Trabalho de Xinguara (PA), o órgão afirma que a JBS “manteve relações comerciais regulares e duradouras com fornecedores flagrados explorando trabalhadores em condições análogas às de escravo”.

O MPT cita sete casos de pecuaristas autuados pela prática e que integraram a cadeia de fornecimento da JBS antes, durante ou depois da publicação de seus nomes na Lista Suja do Trabalho Escravo. O cadastro, mantido pelo governo federal, torna públicos os nomes de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por trabalho escravo. Dos sete casos detalhados na ação, cinco foram identificados e divulgados em investigações da Repórter Brasil

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A ação do MPT contra a JBS integra o projeto Reação em Cadeia, criado em 2020 com o objetivo de buscar a responsabilização de empresas que, direta ou indiretamente, estejam ligadas ao trabalho análogo à escravidão em cadeias produtivas no Brasil. Como resultado da primeira fase do projeto, o MPT divulgou na última quarta-feira (29) que mais de 30 grandes empresas – entre elas a JBS – compraram R$ 48 bilhões em insumos de fornecedores flagrados por trabalho escravo entre 2024 e 2025. 

Na ação que tem a JBS como ré, o MPT afirma que, somente em transações comerciais dos sete pecuaristas analisados, a empresa movimentou R$ 118,9 milhões – valor da indenização pedida pelo órgão na Justiça. O montante foi calculado a partir da análise de notas fiscais e GTAs (Guias de Trânsito Animal). Ainda de acordo com os procuradores, 53 trabalhadores foram resgatados entre 2014 e 2025 nas sete propriedades vinculadas pelo MPT à cadeia produtiva da JBS.

Apenas os pecuaristas que transferem o animal da fazenda diretamente para o abate é que são 100% monitorados pelos frigoríficos. Produtores envolvidos em etapas anteriores da criação escapam no radar (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Apenas os pecuaristas que transferem o animal da fazenda diretamente para o abate é que são 100% monitorados pelos frigoríficos. Produtores envolvidos em etapas anteriores da criação escapam no radar (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O órgão sustenta que a JBS mantém um “modelo de gestão que ignora direitos humanos e permite que a empresa continue extraindo vantagem econômica de cadeias produtivas violadoras da legislação trabalhista e penal”. 

Procurada pela Repórter Brasil, a JBS disse não comprar animais de fazendas incluídas na Lista Suja do Trabalho Escravo e que “auditorias externas independentes têm demonstrado o cumprimento deste critério”. O frigorífico também apontou que suas compras “seguem procedimentos rigorosos”, o que inclui o monitoramento geoespacial e consultas a bases de dados públicas de milhares de potenciais fazendas fornecedoras diariamente. A JBS complementou a nota ressaltando ser signatária do Termo de Ajustamento de Conduta da Carne Legal, organizado pelo Ministério Público Federal, e das normas do protocolo Boi na Linha. 

Pecuarista continuou na rede de fornecimento após Lista Suja 

Um dos casos investigados pelaRepórter Brasil e citado na ação contra a JBS é o da pecuarista Vanúbia Silva Rodrigues.

Em outubro de 2023, Rodrigues foi incluída na Lista Suja após o resgate de dois trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em uma de suas fazendas, a Presente de Deus, em São Félix do Xingu (PA), em julho de 2022. À época, a Repórter Brasil mostrou que a pecuarista era fornecedora direta de duas unidades da JBS no Pará. Na ocasião, após o questionamento da reportagem, a empresa informou que iria bloquear a pecuarista de sua lista de fornecedores.

Nova investigação da Repórter Brasil, publicada em outubro de 2025, mostrou que após a entrada da pecuarista na Lista Suja, a Fazenda Presente de Deus forneceu gado para engorda a ao menos dois fornecedores diretos da JBS. 

Na ação judicial, o MPT afirma que a JBS manteve relações comerciais com Rodrigues antes, durante e depois da publicação do nome da pecuarista na Lista Suja, com transações comerciais que somaram R$ 1,1 milhão entre 2021 e 2023. 

O caso da Fazenda Presente de Deus é descrito no relatório “FORA DO RADAR – Como pecuaristas flagrados com trabalho escravo entram na rede de fornecimento dos maiores frigoríficos do país”, publicado pela Repórter Brasil em parceria com a organização Climate Rights International, com sede nos Estados Unidos. Além da relação da JBS com Vanubia Rodrigues, outros dois casos investigados no relatório embasam a ação do MPT. 

Na maioria dos casos investigados pela Repórter Brasil, vítimas de trabalho escravo dormiam em barracas de lona no meio da mata e não tinham acesso à água potável (Foto: Divulgação/MTE)
Na maioria dos casos investigados pela Repórter Brasil, vítimas de trabalho escravo dormiam em barracas de lona no meio da mata e não tinham acesso à água potável (Foto: Divulgação/MTE)

Em resposta aos questionamentos enviados pela Repórter Brasil à época da publicação da segunda reportagem, Vanubia Rodrigues declarou que firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o MPT, que, segundo a pecuarista, foi cumprido na íntegra. Já a JBS não comentou casos específicos descritos no relatório e informou apenas que “todos os produtores que constam na lista suja do trabalho escravo estão bloqueados”.

MPT cobra ações 

Além da indenização de R$ 118,9 milhões por danos morais coletivos, o MPT requer que a Justiça obrigue a JBS a adotar 44 medidas ligadas à promoção e ao respeito aos direitos humanos em sua cadeia produtiva.

Entre as ações listadas está a de adotar medidas para assegurar e incentivar, ao longo prazo, “a redução dos níveis de intermediadores, atravessadores ou recrutadores de mão-de-obra em sua cadeia produtiva” e a divulgação de uma campanha publicitária permanente sobre os “prejuízos do trabalho infantil, a proibição do trabalho escravo e tráfico de pessoas e as condições adequadas de saúde e segurança no trabalho”.

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