#135 – Soja: commodity produzido com trabalho escravo

No Brasil, janeiro é o mês que marca o início da colheita da soja, embora, na safra atual, ela já venha acontecendo desde dezembro do ano passado. O Brasil é o maior produtor mundial de soja, tendo sido responsável por 40,3% de toda a soja produzida no mundo em 2025, conforme divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O estado do Mato Grosso é o maior produtor de soja do país, tendo sido responsável por 29,8% da produção nacional no mesmo período.

Embora a soja seja uma commodity muito importante para as exportações brasileiras e para o crescimento do PIB, nem sempre isso é revertido para todos os trabalhadores do setor. 

De acordo com dados do projeto Perfil do Resgatado no Brasil, da ONG Repórter Brasil, desde 1995, foram autuados 104 casos de trabalho análogo ao escravo no cultivo de soja no Brasil, o que resultou no resgate de 1.894 pessoas escravizadas. O trabalho em lavouras é o terceiro com mais casos de pessoas escravizadas desde o início da série histórica (1995): com 322 casos, fica atrás apenas da pecuária (1.140 casos) e do carvão vegetal (406). Dentre os casos de trabalho escravo encontrados em todos os tipos de lavoura, os casos no cultivo de soja representam 32,3%. 

O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), informa que a produção de soja bateu recordes no Brasil em 2025. Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq-USP (Cepea), a previsão para 2026 é ainda mais otimista, devido a condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras do país. A consultoria AgRural estimou, em dezembro de 2025, que a produção de soja deve chegar a 180,4 milhões de toneladas em 2026, um aumento de 8,7% em relação à produção de 2025, que foi de quase 166 milhões de toneladas.

O crescimento da produção de soja nos últimos anos parece ser consequência, entre outros fatores, da concessão de benefícios fiscais. De acordo com um estudo feito pela organização não governamental ACT Promoção da Saúde, a cadeia produtiva de soja é fortemente favorecida pela política tributária brasileira, tendo recebido uma estimativa de R$ 57 bilhões em incentivos fiscais no ano de 2022. O impacto, no entanto, nem sempre é positivo: com o incentivo fiscal que estimula a produção de soja, outros produtos agrícolas passam a ser produzidos em menor escala, como ocorreu com diversos alimentos, levando ao aumento de preços.

Diante disso, quem se beneficia com a produção de soja? Os lucros daí advindos são direcionados aos sócios e acionistas de poucas grandes empresas que concentram a maior parte da produção no país – ou seja, não alcançam os trabalhadores que estão na base da cadeia. Em muitos casos, esses trabalhadores sequer são contemplados com direitos básicos, como salários e condições de trabalho dignas, o que configura situações de trabalho análogo ao escravo.

Foto: Repórter Brasil

EDUCARB

#135 – Soja: commodity produzido com trabalho escravo

 15/01/2026

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