A INSOLO, empresa do setor de grãos controlada pelo bilionário Ricardo Faria, tem produção agrícola em uma área com embargo no sul do Piauí, conforme registro no portal de transparência ambiental do governo estadual. Conhecido como “Rei do Ovo”, o empresário apareceu em 2025 na lista da revista Forbes das pessoas mais ricas do Brasil, com patrimônio estimado em R$ 17,5 bilhões.
A atividade agrícola fica na região do Matopiba, região que lidera o desmatamento no Cerrado. O plantio ocorre dentro de um polígono embargado que se sobrepõe à Fazenda Serra do Ovo. Os indícios de cultivo agrícola aparecem em imagens de satélite registradas em janeiro de 2026, analisadas pela organização holandesa AidEnvironment, a pedido da Repórter Brasil.
Segundo a AidEnvironment, há indícios de uso agrícola do solo mesmo após o embargo, registrado em 2023, com padrões de “reverdecimento” compatíveis com os ciclos de plantio e colheita até os dias atuais.

Procurada, a Insolo confirmou atuar em áreas vinculadas à Fazenda Serra do Ovo desde julho de 2025 por meio de contrato de parceria rural, modalidade semelhante ao arrendamento. A empresa reconheceu a sobreposição parcial entre o polígono embargado e a área explorada, mas afirmou que desconhecia o embargo ao assumir a operação. Também disse que só soube da sanção ambiental da área após ser questionada pela reportagem. Em seguida, acionou o responsável legal pela propriedade para solicitar a revisão do banco de dados ambiental.
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A Insolo não reconhece o nome em que a sanção está registrada. “O [embargo] AI4318 diz respeito a uma pessoa estranha à relação contratual que possuímos. […] Além de não termos conhecimento de quem seja a pessoa mencionada, é importante citar que o CAR [Cadastro Ambiental Rural] apontado não faz parte do imóvel cuja operação iniciamos em julho do ano passado. […] É possível tratar-se de alguma tentativa de invasão feita por terceiro, estranho aos proprietários das áreas”, diz a empresa.
A Insolo afirma ainda que o CAR sancionado foi cancelado por decisão administrativa e que a permanência do embargo no portal da transparência do Piauí ocorre por falta de atualização. A empresa também declarou que o imóvel sob sua posse tem CAR ativo e licenciamento ambiental vigente. A resposta completa da Insolo pode ser lida aqui.
A Semarh-PI (Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí) informou que não fornece dados adicionais aos já publicados no portal da transparência ambiental do estado. Diante das alegações da Insolo sobre possível desatualização do embargo, a Repórter Brasil enviou novo questionamento ao órgão e aguarda resposta. A reportagem será atualizada em caso de retorno da secretaria.
Área foi embargada por desmatamento sem autorização
O embargo à área da Fazenda Serra do Ovo foi aplicado em novembro de 2023, após a supressão de 1.800 hectares de vegetação nativa sem autorização do órgão ambiental estadual. A fazenda fica próxima de uma região com mais casos de contestação fundiária.
A área integra desde 2024 um bloco operado pela empresa Sierentz Agro Brasil. Posteriormente, a SLC Agrícola anunciou ter adquirido 100% das operações da Sierentz. A SLC informou à Repórter Brasil que parte das áreas operadas pela empresa foi repassada à Terrus, razão social da Insolo.
Em nota, a SLC declarou que não atua e nunca atuou no Bloco Serra do Ovo, nem como proprietária nem como arrendatária, e que suas operações ocorrem fora do perímetro embargado.
A Repórter Brasil mostrou em novembro de 2025 que a SLC Agrícola arrendou terras de fazendeiros acusados de grilagem por membros de comunidade tradicional da região. Questionada à época e novamente em janeiro deste ano, a SLC informou que a parte arrendada da fazenda não está sobreposta à comunidade tradicional e que “para a compra ou arrendamento de novas áreas, a avaliação considera a possibilidade de sobreposição com territórios de grupos tradicionais”. A companhia explicou que caso identificada a sobreposição, a empresa não dá continuidade à negociação. A resposta completa da companhia pode ser lida aqui.
Crédito público em outra fazenda arrendada pelo grupo
Em outra propriedade arrendada pela Insolo no sul do Piauí, a Fazenda Esmeralda, o Banco do Nordeste liberou R$ 63 milhões em crédito subsidiado do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste para cultivo de milho e soja entre 2022 e 2025, segundo apuração da Repórter Brasil e do Joio e o Trigo. A fazenda integra um conjunto de áreas operadas pela Terrus.
A Esmeralda está no centro de um conflito fundiário com comunidades do povo Akroá Gamella nos municípios de Santa Filomena e Baixa Grande do Ribeiro (PI). Moradores denunciam, há mais de duas décadas, ações como invasão de territórios, destruição de casas, contaminação de águas e ameaças atribuídas à Damha Agronegócios, proprietária das terras arrendadas. Relatórios e processos judiciais citam casos de intimidação e violência. A Funai também relaciona a fazenda a impactos como desmatamento, uso de agrotóxicos e pressão sobre as comunidades.
“Diferentemente do que ocorre em uma compra e venda, em um contrato de arrendamento não é realizada uma due diligence completa que abranja a origem dos imóveis”, afirmou a Insolo. A empresa disse ainda que a análise se limita à área contratada, onde afirma não haver registro de conflitos com comunidades tradicionais. A empresa também confirmou ter recebido crédito rural do Banco do Nordeste para plantio de soja na Esmeralda, em valores estimados em R$ 1,5 milhão por safra. A resposta completa da empresa pode ser lida aqui.
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