OITO EM CADA DEZ intoxicações por agrotóxicos relacionadas ao trabalho em 2025 envolveram produtos utilizados na agricultura. Foram 3.322 registros desse tipo entre as 4.127 ocorrências ocupacionais notificadas no país. É o que mostram dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, analisados pela Repórter Brasil.
“Não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores e da população em geral”, afirmou o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) à reportagem, ao ser questionado sobre os números. “As regras para autorização e uso de agrotóxicos no país deveriam ser mais rigorosas”. Leia aqui a resposta completa.
De acordo com os dados, em 2025, 42% das intoxicações notificadas estavam relacionadas ao trabalho. O grupo mais exposto ao risco dos químicos usados na agricultura é o de homens entre 20 e 59 anos, que concentram 73% das ocorrências ocupacionais envolvendo pesticidas agrícolas desde 2015.
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Na nota enviada à Repórter Brasil, o MTE relaciona o avanço das intoxicações ao peso econômico e político do agronegócio, que, avalia, tem favorecido a adoção de medidas de interesse do setor e ampliado o uso de substâncias proibidas ou restritas em outros países em detrimento da saúde e do meio ambiente. A pasta destaca, ainda, que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
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Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa, afirma que, ao não contabilizar os danos causados, o agronegócio apresenta uma eficiência econômica que não corresponde à realidade. “É provável que a inclusão dessas externalidades nas estimativas reduza o valor do produto marginal dos agrotóxicos”.
Ela reforça que historicamente esse “modelo químico-dependente” de produção agrícola é incentivado por isenções fiscais e crédito rural. Só nos primeiros oito meses de 2024, por exemplo, as fabricantes de agrotóxicos já haviam deixado de pagar mais de R$ 10,8 bilhões em impostos, segundo dados do Ministério da Fazenda divulgados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos pela Vida.
Em dezembro de 2025, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu manter as isenções fiscais concedidas a esses produtos. Para Jaqueline Andrade, da Terra de Direitos, o argumento, utilizado pela maioria dos ministros do STF, de que tais benefícios buscam garantir a segurança alimentar, o acesso a alimentos e a estabilidade e o desenvolvimento econômico do país não se sustenta diante de seus danos ao meio ambiente e à saúde humana — princípios que, segundo ela, deveriam ser resguardados pela Constituição.

Trabalhadores são os mais prejudicados, diz Ministério
Para o Ministério, embora toda a população seja afetada, “os trabalhadores e trabalhadoras que atuam diretamente na manipulação dessas substâncias estão entre os mais prejudicados”.
Segundo a nota, os casos de intoxicações são acompanhados dentro da pasta por meio da Auditoria-Fiscal do Trabalho, que, nas fiscalizações dos ambientes laborais, avalia as condições de trabalho e se há gerenciamento adequado de riscos. “A precariedade — ou mesmo a ausência — dessas medidas nos locais de trabalho contribui significativamente para o agravamento da exposição e dos danos à saúde.”
O MTE ressalta que o trabalho rural tem especificidades próprias. A localização das propriedades, os processos produtivos e o perfil de empregadores e trabalhadores influenciam diretamente a organização das atividades e a gestão dos riscos.
O setor rural conta com uma norma específica, a NR nº 31 (Norma Regulamentadora nº 31), que define parâmetros para a segurança e a saúde no trabalho no campo. “Os elevados índices de acidentes e adoecimentos revelam um expressivo descumprimento dessas medidas preventivas”, alerta o ministério.
Pressão e precariedade no trabalho rural
Para Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), a dinâmica usual de trabalho no campo no Brasil ajuda a explicar por que adultos em plena fase produtiva se intoxicam com tanta frequência.
“Para se proteger, o trabalhador precisaria de uma máscara específica, com filtro adequado para agrotóxicos. Só que o patrão muitas vezes não fornece e, quando fornece, o filtro dura uma semana, enquanto o trabalhador passa 15 dias exposto”, afirma.
Ele pontua que o risco aumenta durante a colheita, quando há maior acúmulo de resíduos químicos nas lavouras. “Há muito agrotóxico acumulado na soja, no milho e, principalmente, no algodão. O trabalhador acaba fazendo jornadas acima de oito horas, com equipamento precário e sob cobrança para colher rápido e plantar de novo. Fica mais cansado, respira mais, se expõe mais”, explica.
Fiscalização limitada e falta de estrutura
Na resposta enviada à reportagem, o Ministério do Trabalho defende que a reversão desse cenário exige atuação contínua e articulada, combinando ações preventivas, campanhas educativas e fiscalizações. No entanto, reconhece que a capacidade de intervenção foi prejudicada pela redução do seu quadro funcional entre 2014 e 2025.
“As ações fiscais realizadas pelos Auditores-Fiscais do Trabalho na última década sofreram redução, em grande parte em razão do esvaziamento do quadro de servidores desde 2014”, afirma a nota. Até o final de 2025, “cerca de 50% dos cargos autorizados por lei estavam vagos”, diz. O Ministério ressalta que, em 2025, foram realizadas 4.958 ações fiscais no meio rural, com identificação de 2.446 irregularidades ligadas a operações com agrotóxicos.
A agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Ceará, acredita ser contraditório um sistema produtivo utilizar substâncias que comprometem a capacidade do trabalhador de continuar exercendo sua função. Ela argumenta que o ambiente de trabalho deve oferecer condições para que o profissional se mantenha ativo e saudável, e não o contrário. “É um trabalho que interfere diretamente na sua saúde, que compromete inclusive a sua condição de continuar nele, por causa da exposição a produtos químicos. Isso é absolutamente incoerente”, aponta.
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