MARCA USADA por celebridades como as apresentadoras Angélica e Ticiane Pinheiro, a Alphorria foi autuada pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) após fiscais encontrarem oito bolivianos – entre eles dois adolescentes, de 13 e 16 anos – produzindo roupas da grife em uma oficina de costura em Belo Horizonte (MG). Segundo a fiscalização, o local tinha instalações precárias, mantinha funcionários sem registro e praticava jornadas superiores aos limites legais.
O flagrante, revelado agora com exclusividade pela Repórter Brasil, ocorreu em junho de 2023. No local, além de roupas da Alphorria, também eram costuradas peças da Charth, outra marca conhecida por vestir celebridades e influenciadoras. A Charth também foi autuada pela fiscalização.
O processo administrativo da Modelitos, responsável pela Alphorria, segue em andamento, com recursos da empresa. O processo da Chart foi arquivado, após a empresa realizar o pagamento administrativo das autuações, segundo o MTE.
A adolescente de 13 anos flagrada na operação, segundo apurou o órgão federal, fazia a limpeza da oficina e cozinhava para os costureiros. Já o adolescente de 16 anos operava uma máquina de costura no momento da inspeção – situação que, na avaliação dos fiscais, está legalmente enquadrada entre as piores formas de exploração do trabalho infantil devido à exposição a instrumentos cortantes sem a proteção adequada.
Ainda de acordo com o MTE, a oficina de costura funcionava no quintal de uma residência onde viviam os oito trabalhadores, além de quatro crianças. O local, segundo os auditores, possuía apenas um banheiro para todos, além de instalações elétricas precárias que expunham os costureiros ao risco de incêndios, explosões e choques.
Angélica e Ticiane Pinheiro aparecem entre as celebridades que usam as roupas da Alphorria em um post nas redes sociais da marca divulgando a sua coleção verão 2026. A Repórter Brasil procurou ambas as apresentadoras, mas não obteve respostas até o fechamento da reportagem. O espaço ficará disponível para futuras manifestações.


Também procurada, a Alphorria informou que, após o episódio, contratou uma auditoria independente e intensificou a fiscalização própria da regularidade trabalhista entre as oficinas que costuram suas roupas. Disse ainda que “a marca não compactua com qualquer prática que possa ferir os direitos do trabalhador”.
Já a Charth declarou que, por conta do caso, firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público do Trabalho e que “o episódio motivou uma reestruturação profunda no compliance da cadeia de suprimentos e nos processos internos da empresa”.
A resposta completa das empresas pode ser lida aqui.
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Marcas são divulgadas por celebridades e influenciadoras
Ambas as grifes têm suas peças promovidas em postagens de influenciadoras e celebridades.
A atriz Rafa Kalimann exibiu peças da Alphorria na capa da revista Quem em agosto de 2025. Procurada pela Repórter Brasil, ela respondeu que não tinha conhecimento sobre a fiscalização. Sua equipe disse ainda que “não concorda com essa iniciativa” e que Rafa não voltará a usar a marca.

A atriz Camila Queiroz, por sua vez, já participou de desfiles apresentando a coleção de verão 2026 da Charth. Procurada, ela não respondeu à reportagem.

A Charth divulga em seu site uma lista de influenciadoras classificadas como “Charthgirls”. A relação inclui Camila Coelho, que soma mais de 10 milhões de seguidores no Instagram e foi incluída na lista das vozes digitais mais influentes de 2025 pela revista Time. Ana Paula Siebert (3,7 milhões de seguidores) e Lala Rudge (1,6 milhões) são outras personalidades da lista.
Siebert informou que “mantém com a mencionada marca um contrato estrito de Prestação de Serviços de publicidade”, e que não tem ingerência sobre a sua gestão interna. Também afirmou que não tinha conhecimento sobre a fiscalização do MTE.
Rudge também ressaltou não ter ingerência sobre a cadeia produtiva da Charth ou conhecimento sobre o episódio flagrado pelos fiscais trabalhistas quando realizou uma parceria publicitária com a grife.
As artistas Maisa Silva (47,9 milhões) e Mari Gonzalez (9,6 milhões) exibiram looks da Charth em publicações de moda ao longo de 2025. Procurada, Gonzales informou que não conhecia as irregularidades citadas e que, “diante das informações apresentadas, não pretende mais utilizar ou divulgar a marca”. Maisa Silva não se manifestou.
As manifestações completas das influenciadoras podem ser lidas na íntegra aqui. O texto será atualizado em caso de manifestação futura.
Grifes ‘já mandam tudo cortado, a gente só costura’, diz trabalhador
Os valores pagos aos costureiros pela Charth, segundo apurou a fiscalização no flagrante de 2023, variariam entre R$ 10 e R$ 60, dependendo do grau de dificuldade do trabalho demandado. Mas, no varejo, a marca vende roupas por até R$ 21 mil. Além de estar presente em diversos pontos de venda no país, a Charth também informa comercializar peças em boutiques dos Estados Unidos.
“Eu sei que essas roupas custam caro”, conta um dos trabalhadores da oficina autuada, em entrevista à Repórter Brasil concedida em 2026. Seu nome foi preservado a pedido. “Nenhuma empresa paga o preço correto”.
Ele conta ter chegado com a esposa ao Brasil há cerca de quatro anos, e confirmou a rotina de trabalho de segunda a sábado, das 7h às 20h, descrita pela fiscalização – com pequenas pausas apenas para almoço e café. “Trabalhamos muitas horas para juntar dinheiro. Queremos trabalhar dois, três anos e voltar para a Bolívia”.
Segundo ele, a chegada ao Brasil limita as alternativas. “Eu cheguei aqui e nem falava a língua. Não tinha nada. Procurei um boliviano, porque era mais fácil para mim. É por isso que a maioria mora no lugar do trabalho. Senão, não tem nem como alugar uma casa”.
Apesar das condições encontradas pela fiscalização, ele diz que segue na costura. “Aqui está melhor do que na Bolívia. A gente não tem muita opção.”
Fiscalização vê subordinação da oficina às marcas
Segundo os auditores do MTE, o gestor da oficina fiscalizada seguia determinações das marcas contratantes. O relatório da fiscalização afirma que a empresa aberta por ele não tinha capital mínimo compatível com o número de empregados encontrados no local.
“Se uma empresa contrata uma oficina, a coleção dela depende disso. Então, ela tem que fiscalizar se há mão de obra suficiente e se essa mão de obra está regularmente contratada e tem boas condições de trabalho”, analisa Tatiana Leal Bivar Simonetti, procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas do Ministério Público do Trabalho.
Para Lívia Ferreira, auditora do trabalho, diretora do Sinait em São Paulo (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho), e uma das autoras do livro “Trabalho escravo na indústria da moda no Brasil”, a contratação de oficinas externas adotada pela indústria da moda nas últimas décadas favorece o desrespeito às normas trabalhistas.
“Há um controle muito rígido das empresas em relação às regras de costura, à qualidade das peças e aos prazos de entrega. Mas, ao que parece, há uma parte do controle que optou-se por não fazer: a que diz respeito às condições dignas de trabalho”.

Para Ferreira, atrelar a moradia dos trabalhadores às oficinas propicia a exploração. “São as oficinas do suor. Ali, o trabalhador trabalha, come e dorme. Trabalha, come e dorme. A vida ali se confunde com o trabalho”.
“São pessoas que estão por trás daqueles processos, daquelas roupas, e pessoas em situação de muita vulnerabilidade. Então, nós precisamos defender o direito delas”, afirma Paula Leal, coordenadora executiva do Fashion Revolution Brasil, organização que atua para acelerar a transição da moda brasileira rumo à justiça social e climática.
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