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Certa vez, uma educadora me ligou e contou: “No município X do Maranhão, a cada semana partem até seis ônibus de trabalhadores que seguem para fazendas em todo canto do Brasil, muitos acabam escravizados. Mas, na semana passada, um trabalhador que já estava em um, aguardando para partir, disse para os outros 40 colegas de carona: ‘Gente, nós tivemos aquela palestra sobre trabalho escravo, né? Eu acho que estamos indo para o trabalho escravo. Eu não vou mais, não’. Ele desceu do ônibus, e os demais o acompanharam. Naquele dia, nenhum ônibus de trabalhador partiu da cidade”.
“Aquela palestra” foi uma das inúmeras ações formativas que realizamos no âmbito do Escravo, nem pensar!, o programa da Repórter Brasil de prevenção ao trabalho escravo, vigente há 22 anos. Quase a mesma idade da Repórter Brasil, que completa 25 anos em outubro.
Se conseguirmos evitar que um homem sequer não tenha passado pela experiência hedionda de ser escravizado, cada dia de trabalho nesses 25 anos valeu a pena.
Essa não foi a primeira nem a última vez em que o trabalho que fizemos mudou os rumos da vida de trabalhadores em situação de vulnerabilidade.
Até 2020, por exemplo, a única coisa que se sabia sobre mulheres escravizadas era que representavam 5% do total de vítimas. Naquele ano, a Repórter Brasil apresentou uma pesquisa inédita sobre o perfil delas: raça, escolaridade, idade, local de origem e de exploração. Mas, sobretudo, incitamos a reflexão acerca do não reconhecimento da atividade laboral feminina – especialmente a doméstica e a de cuidado – e, consequentemente, da subnotificação das denúncias e resgates.
Hoje, auditoras fiscais do trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego e procuradoras do trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT) expressamente atribuem à pesquisa a revisão de procedimentos de resgate, principalmente para casos de trabalho escravo doméstico e exploração sexual. Na época, por causa da divulgação das informações sobre as escravizadas, o MPT abriu um grupo de estudos para tratar das questões de gênero e raça relacionadas ao trabalho escravo.
O resultado disso é que a porcentagem de vítimas mulheres subiu para 14% em 2025. Esse número não significa que mais mulheres sejam escravizadas, mas sim que a percepção do Estado e da sociedade sobre a exploração tem se ampliado, tornando os casos de trabalho escravo feminino visíveis.
Se seguimos contribuindo para retirar mulheres de situações cativas, de onde passariam todos os anos de suas vidas até a morte, vamos continuar trabalhando até que essa realidade seja impossível.
A mudança completa do estado de coisas em relação ao contexto do trabalho escravo no Brasil infelizmente ainda deve levar tempo. Daí desejo que a Repórter Brasil seja longeva para continuar cumprindo a sua missão de contribuir com a erradicação da exploração mais vil a que um ser humano possa estar submetido.
25 anos investigando para mudar.
A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.
Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!