Autuados pelo Ibama já doaram R$ 6,6 milhões a 136 candidatos

Levantamento cruzou doações declaradas ao TSE com autos do Ibama lavrados desde 2000; 267 financiadores destinaram R$ 6,6 milhões a 136 candidatos a governador, senador, deputado federal e estadual
Por Daniel Camargos | Edição Carlos Juliano Barros

GOVERNADOR DE MINAS GERAIS e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD) recebeu R$ 200 mil como doação de campanha de um empresário do agronegócio autuado por desmatamento ilegal. 

No Paraná, o deputado federal Zeca Dirceu (PT), novamente postulante a uma vaga na Câmara, recebeu a mesma quantia de um empresário do setor madeireiro autuado seis vezes pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Ambos fazem parte de uma lista de 136 candidatos que receberam R$ 6,6 milhões em doações de pessoas autuadas pelo Ibama por infrações ambientais como desmatamento, descumprimento de embargo e funcionamento de atividade potencialmente poluidora sem licença. 

Levantamento exclusivo da Repórter Brasil identificou 267 doadores de campanha com autos de infração lavrados pelo Ibama desde 1º de janeiro de 2000. Juntos, eles destinaram exatos R$ 6.615.680,04 às eleições deste ano. 

A análise cruza as prestações de contas de campanha da base do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) gerada até 31 de agosto deste ano com os autos de infração registrados nos CPFs dos doadores. Infrações atribuídas a empresas das quais eles são sócios não foram incluídas. 

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Entre os doadores autuados estão investidores, grandes produtores rurais, empresários da madeira e nomes ligados ao agronegócio. Eles repassaram os valores para candidatos de diferentes campos ideológicos. Além de Simões e Dirceu, aparecem políticos do PL, PSDB, Republicanos, Avante, PSB, entre outros.

Um auto de infração não equivale a uma multa definitiva nem a uma condenação criminal. A medida pode ser contestada administrativamente, cancelada ou permanecer sob recurso. Porém, mesmo que o auto seja convertido em multa posteriormente paga pelo infrator, não há garantia de recomposição do dano ambiental. 

Os valores citados na reportagem são os valores nominais registrados pelos Ibama na época da autuação, sem correção pela inflação.

Procuradas, as campanha de Mateus Simões e Zeca Dirceu não responderam os questionamentos enviados pela Repórter Brasil.

Governador de MG recebeu doação de empresário com R$ 178 mil em autos de infração

Um dos beneficiados é o governador mineiro Mateus Simões (PSD). Advogado e ex-vereador de Belo Horizonte, ele foi secretário-geral do governo Romeu Zema (Novo), tornou-se vice-governador em 2023 e assumiu o Palácio Tiradentes em março deste ano, após Zema deixar o cargo para disputar a Presidência.

Governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD) recebeu R$ 200 mil como doação de campanha de empresário autuado por desmatamento ilegal (Foto: Guilherme Bergamini/Arquivo ALMG)
Governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD) recebeu R$ 200 mil como doação de campanha de empresário autuado por desmatamento ilegal (Foto: Guilherme Bergamini/Arquivo ALMG)

Simões recebeu R$ 200 mil de José Maria Bortoli, cofundador do Grupo Bom Futuro, conglomerado do agronegócio fundado no Mato Grosso, com atuação em grãos, algodão e pecuária. A contribuição representa 18% dos R$ 1,088 milhão em recursos privados arrecadados pelo governador até o recorte da reportagem — a campanha de Simões também recebeu R$ 2,7 milhões em recursos de partido político.

Bortoli aparece em quatro autos do Ibama que somam R$ 178,6 mil em valores nominais. Um deles, de R$ 56 mil, foi cancelado. Os demais envolvem desmatamento, dano em área de reserva e exploração de madeira sem licença válida, entre 2000 e 2011.

Procura pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa do Grupo Bom Futuro também não se pronunciou.

No Paraná, Zeca Dirceu (PT) recebeu R$ 200 mil de Odacir Antonelli, fundador do Grupo Repinho, ligado à indústria de madeira, compensados e reflorestamento. A contribuição representa cerca de 89% dos R$ 223,9 mil privados arrecadados pelo deputado até 31 de agosto. Filho do ex-ministro José Dirceu, que neste ano disputa uma vaga na Câmara por São Paulo, Zeca está no Congresso desde 2011 e tenta o quinto mandato consecutivo.

Antonelli tem seis autos do Ibama em seu nome, somando R$ 3,81 milhões em valores nominais. Três foram aplicados em julho de 2022, em Inácio Martins (PR): R$ 2,45 milhões por destruir 49 hectares de vegetação nativa em área de preservação permanente; R$ 609 mil por queimar 58 hectares de Mata Atlântica em estágio médio de regeneração; e R$ 530 mil por impedir a regeneração de 106 hectares de floresta nativa. Em novembro de 2023, recebeu outros três autos, de R$ 75 mil cada, por não cumprir determinações para retirar pinus e eucaliptos das áreas atingidas.

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Grupo Repinho afirmou que “não possui ingerência sobre atos, manifestações, relações ou questões de natureza estritamente particular de seus sócios, razão pela qual não lhe compete prestar informações, emitir juízos ou se manifestar sobre assuntos relacionados à esfera privada de qualquer um deles”.

O posicionamento informa também que a companhia recorre nas esferas administrativa e judicial. “Enquanto não houver decisão definitiva, a empresa considera inadequada qualquer antecipação de conclusões acerca das matérias ainda submetidas à apreciação das autoridades competentes”, afirma na nota enviada.

Deputado federal e candidato à reeleição, Zeca Dirceu (PT) também recebeu doação de campanha de R$ 200 mil de madeireiro autuado seis vezes pelo Ibama (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)
Deputado federal e candidato à reeleição, Zeca Dirceu (PT) também recebeu doação de campanha de R$ 200 mil de madeireiro autuado seis vezes pelo Ibama (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

Ruralistas autuados bancam campanhas em Mato Grosso

Mato Grosso concentra vários casos de financiamento eleitoral por infratores ambientais. Um dos favorecidos é Antonio Galvan (Avante), candidato a uma das duas vagas ao Senado. Produtor rural, ele ganhou projeção nacional à frente da Aprosoja Brasil, representante de produtores de grãos, e tornou-se uma das vozes políticas mais conhecidas do agronegócio durante o governo de Jair Bolsonaro.

Dos R$ 324 mil privados arrecadados por Galvan, R$ 200 mil vieram dos irmãos Felipe e Rafael Bilibio. Os dois são produtores rurais em Vera, no norte de Mato Grosso, e sócios da Agropecuária Irmãos Bilibio, dedicada principalmente ao cultivo de soja. Rafael preside o Sindicato Rural do município. 

Felipe tem quatro autos do Ibama, no total de R$ 1,1 milhão. Rafael tem três, somando R$ 1,37 milhão. Todos são de 2016. Há registros de corte raso de vegetação amazônica, impedimento de regeneração natural e intervenção em área embargada.

Em um dos autos, Rafael foi autuado em R$ 1,28 milhão por impedir a regeneração de 255 hectares de vegetação nativa amazônica na Fazenda Floresta I, em Vera, segundo o Ibama. A área estava embargada (interditada) desde 2007.

A advogada que representa os irmãos Bilibio disse que não pode informar sobre os andamentos das autuações. “Razão pela qual o mérito ou pormenores das demandas não será comentado”, afirmou. “Também não é possível que eu responda quais as motivações pessoais dos meus clientes para doações que os mesmos decidam ou não realizar”, complementou. 

Em 2021, quando presidia a Aprosoja Brasil, Galvan foi investigado no STF (Supremo Tribunal Federal) por suspeitas relacionadas ao financiamento dos atos antidemocráticos de 7 de Setembro daquele ano.

Ex-dirigente da Aprosoja, Antônio Galvan (esq) teve seu nome associado aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2022 (Foto: Divulgação/Aprosoja)
Ex-dirigente da Aprosoja, Antônio Galvan (esq) teve seu nome associado aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2022 (Foto: Divulgação/Aprosoja)

Na época, a Repórter Brasil mostrou que ele próprio havia sido multado por desmatamento de 500 hectares e respondia a disputas judiciais sobre possível plantio clandestino de soja e suposta tentativa de invasão a uma fazenda vizinha. A assessoria de imprensa de Galvan não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Já Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato ao governo de Mato Grosso, recebeu R$ 150 mil de dois financiadores com autos no Ibama. 

Osmar Ribeiro de Mello, responsável por R$ 100 mil em doações, tem quatro autos em seu nome que somam R$ 2 milhões. O maior, de R$ 1,2 milhão, foi aplicado em 2013, por destruir 251 hectares de floresta amazônica em Feliz Natal, segundo o Ibama. Em 2017, recebeu outros dois, de R$ 525 mil e R$ 215 mil, por destruição ou dano a 146,8 hectares de vegetação nativa.

Os outros R$ 50 mil vieram do ex-prefeito de Lucas do Rio Verde e fundador da Fiagril  Marino José Franz, autuado em R$ 793 mil em 2015 por executar manejo florestal em 792 hectares das fazendas Taipas I e II, em Nova Maringá, sem autorização prévia do órgão ambiental, segundo o Ibama. Nem a campanha de Pivetta, nem seus doadores responderam às perguntas enviadas pela Repórter Brasil

Também em Mato Grosso, Samantha Brunini (PL) disputa uma vaga na Assembleia Legislativa. Esposa do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), ela foi a vereadora mais votada da capital em 2024 e neste ano concorre com o nome de urna “Samantha do Abilio”. 

Até 31 de agosto havia recebido R$ 301,8 mil em recursos privados, dos quais R$ 300 mil vieram de uma única pessoa: Elizeu Zulmar Maggi Scheffer, empresário do Grupo Scheffer.

A candidatura de Samantha também recebeu o apoio explícito de Michelle Bolsonaro. No fim de agosto, a ex-primeira-dama apareceu em vídeo ao lado da candidata e de Abilio Brunini afirmando que Samantha era “minha candidata a deputada estadual”.

O Grupo Scheffer atua na produção de soja, algodão e milho, pecuária, armazenagem e fertilizantes. Scheffer foi autuado pelo Ibama em 2002 em R$ 24 mil por desmatar 200 hectares de Cerrado na Fazenda Rafaela, em Sapezal. 

Elizeu é o fundador do grupo, criado depois que sua família chegou a Mato Grosso em 1980. Nem a candidata nem o grupo Scheffer retornaram aos questionamentos da reportagem.

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