‘Não queremos voltar a chorar’: mulheres Yanomami lançam manifesto contra Flávio Bolsonaro

Fome, violência, malária e outras doenças provocaram a morte de 420 crianças por causas evitáveis durante a crise humanitária instalada no governo de Jair Bolsonaro; Lideranças temem que eleição do candidato do PL impulsione o retorno de garimpo ilegal e crise sanitária na terra indígena
Por Isabel Harari | Edição Carlos Juliano Barros

DA TERRA INDÍGENA YANOMAMI (RR) — “Eu não quero o filho do Bolsonaro. Não quero nossos filhos cheios de malária de novo”, alerta Noemia, a primeira a falar em um vídeo gravado pelas mulheres Yanomami contra a eleição de Flávio Bolsonaro, no final de setembro. O material faz parte de um manifesto lançado por lideranças femininas para o segundo turno das eleições gerais deste ano.    

Noemia vive na região da maloca Papiu, uma das mais afetadas pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami — a maior do Brasil em extensão, com população de 31 mil habitantes e área comparável à de Portugal.  

Ela teme que o candidato do PL impulsione o retorno ao território da crise sanitária e das atividades econômicas ilegais, como o garimpo, durante o governo de Jair Bolsonaro.

Entre 2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses. O número de óbitos é quase o dobro em relação aos quatro anos anteriores, de acordo com o Siasi (Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena, do SUS (Sistema Único de Saúde). Desse total, 47 foram vítimas da malária. Outras 115 estavam desnutridas.

“O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira. O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio assente na cadeira de presidente”, diz uma carta assinada por mulheres Yanomami. 

Aerial view of a mining operation in the Yanomami Indigenous Territory. In August, White Solder became a defendant on suspicion of operating an illegal cassiterite extraction scheme in the territory (Photo: Valentina Ricardo/Greenpeace/2022)
Imagem aérea de garimpo na Terra Indígena Yanomami (Foto: Valentina Ricardo/Greenpeace/2022)

Reunidas na comunidade de Rokoari, as lideranças lembraram dos impactos do garimpo em seu território. No manifesto em vídeo, elas temem que Flávio reproduza “o caminho sujo” de seu pai Jair, e declaram apoio à reeleição de Lula.

Em janeiro de 2023, primeiro mês do terceiro governo Lula, o colapso do sistema de saúde levou à declaração de situação de emergência. “Não queremos voltar a chorar”, afirma Adneia Yanomami.

Noemia Yanomami vive na região da maloca Papiu, uma das mais afetadas pelo garimpo: 'Não quero nossos filhos cheios de malária de novo' (Foto: Mariana Greif/Repórter Brasil)
Noemia Yanomami vive na região da maloca Papiu, uma das mais afetadas pelo garimpo: ‘Não quero nossos filhos cheios de malária de novo’ (Foto: Mariana Greif/Repórter Brasil)

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Ao menos 4 mil indígenas ficaram sem assistência médica

No auge da invasão garimpeira, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou destruídos, interrompendo a assistência a 72 comunidades com mais de 4 mil indígenas, aponta um relatório do MPF (Ministério Público Federal).

“O desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a correspodente omissão do estado brasileiro em garantir segurança territorial ao povo Yanomami tiveram, por fim, o efeito disruptivo de colapsar a já fragilizada assistência sanitária no território”, diz o documento. 

Um desses postos é o Homoxi, responsável pelo atendimento de cerca de 250 indígenas. Localizado ao lado de uma cratera de garimpo, o posto foi incendiado em dezembro de 2022 – a suspeita recai sobre garimpeiros invasores do território. 

Outra unidade interditada foi a de Kayanau. Ali, os profissionais de saúde que permaneciam na área estimaram a presença de 1,6 mil garimpeiros, além de um “intenso fluxo de aeronaves, prostituição e abandono da agricultura”.

Mulheres da Terra Indígena Yanomami se mobilizam contra a candidatura de Flávio Bolsonaro. “Não queremos voltar a chorar”, afirma Adneia Yanomami (Foto: Mariana Greif/Reporter Brasil)

O garimpo e a violência também dificultaram o envio de remédios a regiões só acessíveis por via aérea. 

A Repórter Brasil teve acesso a um ofício da Hutukara Associação Yanomami de setembro de 2022 que descreve um quadro de desabastecimento em postos de saúde próximos a duas regiões invadidas: Xitei e Surucucu. 

Em um período de três semanas, entre agosto e setembro, seis crianças morreram — uma delas por um tipo de pneumonia causada pela “infestação massiva de vermes”.

Segundo a associação, não havia “medicamentos necessários para o controle de verminoses, impossibilitando o tratamento e a prevenção em comunidades inteiras”. 

Entre 2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram na TI Yanomami por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses (Foto: Reprodução/MPF)
Entre 2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram na TI Yanomami por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses (Foto: Reprodução/MPF)

Além da dificuldade de abastecimento, investigações do MPF apontam indícios de um suposto esquema de fraude e desvio de verbas públicas na saúde da TI. 

Segundo o órgão, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami empenhou R$ 3 milhões em 2021 para a aquisição de medicamentos essenciais.

Há suspeitas, porém, de que apenas uma fração dos remédios tenha sido entregue, apesar do pagamento integral das notas fiscais.

De acordo com o relatório do MPF, mais de 10 mil crianças indígenas teriam ficado sem tratamento contra verminoses,  provocando quadros severos da doença – com relatos de crianças expelindo vermes pela boca.

Cerca de 20 mil garimpeiros invadiram o território, em estimativa da Fundação dos Povos Indígenas (Funai) feita em fevereiro de 2023. Mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal estavam operando entre 2020 e 2022, segundo o Centro Gestor Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. No total, 2,2 mil hectares foram devastados nesse período.

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