Nova vida, velhos problemas

Na terra do Padre Cícero, o Projeto Nova Vida torna menos espinhoso o dia-a-dia de bairros onde já se localizou a maior zona de prostituição do Crato.
Por Carlos Juliano Barros
 01/07/2003
Estrada de ferro desativada, no Crato, que desembocava na "comunidade do gesso"

Uma placa na entrada da cidade já avisa: esta é a terra do Padre Cícero, o líder religioso mais popular que o Brasil conheceu. Com cerca de 110 mil habitantes, o Crato forma, ao lado das vizinhas Juazeiro do Norte e Barbalha, o triângulo econômico mais importante do sul do Ceará. Lá moram os donos da Grendene, uma gigante entre as fábricas nacionais de calçados.

Também existe no Crato uma experiência que, há 12 anos, abre os horizontes de bairros bastante pobres da região central do município – como Pinto Madeira, São Miguel e Alto da Penha. Desde 1991, Hermano de Souza e sua esposa, Maria do Socorro, comandam o Projeto Nova Vida, uma verdadeira cruzada contra a miséria e, principalmente, a prostituição.

Adotar uma filho era um sonho que o casal sempre alimentou. Mas eles resolveram colocar em prática uma “adoção diferente”, para dar “atenção afetiva e efetiva a um grupo maior de crianças”, como explicam. O começo foi tímido: adolescentes e crianças tinham aulas de reforço escolar, além de complementar a alimentação que, geralmente, faltava em casa.

Hoje a situação é bem diferente. Convênios firmados com a Prefeitura do Crato, além da ajuda de uma entidade franciscana alemã, ajudam a manter uma oficina mecânica, um salão de cabeleireiras, uma sala de informática, um modesto posto de saúde… Tudo bem simples, instalado em duas casas onde, num passado não muito distante, já funcionaram as maiores casas de prostituição do Crato.

O Projeto Nova Vida se localiza na chamada “Comunidade do Gesso”. A área era o local de descarregamento de uma ferrovia – hoje desativada – aonde chegavam os trens com pedras de gesso. Décadas atrás, quem dissesse que iria até essa Comunidade estava, na verdade, usando um eufemismo para se referir à maior zona de prostituição do Crato. A rua onde está instalado o Projeto chegou a contar com mais de 30 bordéis. Também não era raro encontrar prostituição infantil.

Hermano de Souza: fundador do Projeto Nova Vida tapa buracos deixados pelo poder público

De acordo com Souza, a maioria das 150 crianças atendidas pelo Nova Vida são ‘filhas de mães-solteiras’, de ex-prostitutas que, num grito de sobrevivência contra a miséria, acabavam vendendo o próprio corpo. “Há casos aqui de mulheres que têm filhos com 3, 4 homens diferentes. Elas acabam assumindo por omissão dos pais”, conta.

Quando Hermano e Maria do Socorro começaram o trabalho na Comunidade do Gesso, eles contaram com a ajuda de amigos, mas a maior parte do dinheiro saía do próprio bolso. A parceria com as Secretarias de Ação Social e de Educação do Crato só foi consolidada há 5 anos. Elas auxiliam com material didático e um pouco de comida. Pelo último contrato, o Nova Vida conseguiu, para despesas com alimentação, apenas R$ 1.200,00 mensais para atender 120 crianças.

O grosso dos gastos é bancado pela entidade religiosa alemã Aktionskreis Pater Beda, que colabora desde 1993. “A Alemanha ajuda. Mas é só uma ajuda porque as crianças não são alemãs. A obrigação maior é do município. Porém, o poder público não tem essa visão, porque há a intenção de manter as pessoas alienadas, para se manter no poder”, desabafa Hermano.

Quartos de antigos prostíbulos hoje compões cortiços

A duras penas

Quando o Projeto faz um recesso por alguns dias – geralmente nos meses de férias escolares –, as crianças não têm alternativa a não ser ficar com suas famílias. Com a retomada das atividades, “é muito comum encontrá-las com algum problema de subnutrição ou até mesmo de verminoses”, conta Hermano. A falta de infra-estrutura básica de muitas residências na Comunidade do Gesso também contribui para proliferação de doenças.

Quando o Projeto faz um recesso por alguns dias – geralmente nos meses de férias escolares –, as crianças não têm alternativa a não ser ficar com suas famílias. Com a retomada das atividades, “é muito comum encontrá-las com algum problema de subnutrição ou até mesmo de verminoses”, conta Hermano. A falta de infra-estrutura básica de muitas residências na Comunidade do Gesso também contribui para proliferação de doenças.

Várias casas vizinhas ao Projeto Nova Vida se transformaram em cortiços. Anos atrás, os quartos eram utilizados para receber os clientes que iam em busca de prostitutas. Na frente, sempre ficava um bar. Hoje, por R$ 30,00 mensais, uma família consegue alugar um cômodo e dividir o banheiro, quando ele existe, com os outros moradores.

Ao entrar na casa de Maria da Guia, a impressão é que se está no meio do sertão, naqueles lugares pobres e isolados que só se vêem pela televisão. Nem parece que ela vive a poucos quilômetros do movimentado centro comercial do Crato. Pedaços de paus sustentam paredes de barro. Não há luz elétrica para iluminar os dois pequenos cômodos que compõem a casa. Banheiro também não existe. Aliás, esse é um luxo para as residências da Comunidade do Gesso. Os moradores são obrigados a substituí-lo por sacolas plásticas.

Maria da Guia mora com quatro filhos e o marido Antônio, desempregado há 3 anos. Quando adolescente, ela própria participava das atividades do Projeto. Agora espera o caçula crescer mais um pouco para poder se dedicar à oficina de costura do Nova Vida.

Maria da Guia e sua família no banheiro improvisado nos fundos da sua casa

Pensar em formas de geração de renda para a família agora é o principal desafio a ser enfrentado por Hermano e sua esposa. “O que levava à prostituição, à marginalidade, é justamente a miséria das
pessoas”, argumenta. Por essa razão, de nada adiantava que as crianças passassem o dia envolvidas em ações educativas e culturais e, ao voltar para casa, reencontrar a pobreza que as haviam conduzido ao Nova Vida.

Carrinhos de sanduíche, de pipoca e de batata também tentam driblar a falta de dinheiro. Todo dia, Maria de Fátima Barbosa vende uns 20 sanduíches, a R$ 0,70 cada. Descontando os gastos com os condimentos, consegue alguns trocados de lucro. Ela até poderia fazer mais lanches, se houvesse mais espaço no carrinho, e se ele não fosse tão pesado. É que ela ainda não conseguiu comprar um botijão pequeno, e tem de carregar o pesado gás do fogão de sua cozinha para poder esquentar os sanduíches.

Maria de Fátima Barbosa: carrinho de sanduíche salva o orçamento da casa

Não dá para dizer que Maria, assim como as outras 14 pessoas que trabalham com esses carrinhos do Nova Vida, pelas ruas do Crato, tenham realmente revolucionado seus cotidianos. Ainda mais quando se tem mais de 7 pessoas para sustentar, só com uma pensão de um salário mínimo, deixada pelo falecido marido de Maria de Fátima. Mas dá para completar o orçamento. Para usar o carrinho, é preciso pagar um aluguel mensal de R$ 8,00, além de participar de reuniões para avaliar o andamento dos negócios. Nesses encontros, são discutidas noções básicas de administração e medidas simples de higiene.

Soluções paralelas

Hermano de Souza é um dos membros do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente do Crato. Apesar de ligado diretamente à administração municipal, percebeu a incapacidade crônica dos poderes públicos em resolver demandas urgentes da Comunidade do Gesso. Para amenizar os problemas de saúde dos moradores do bairro, conseguiu um médico, remunerado pela Prefeitura, para atendê-los no consultório montado com os recursos da entidade franciscana alemã. “Houve o caso de uma senhora de 70 anos que nunca tinha passado por um ginecologista”, conta Hermano. Foi também por barganha dele que a rede de esgoto chegou à rua São Francisco, onde fica o Projeto, apesar de a maioria das residências ainda ficarem à margem desse benefício.

O Nova Vida começou com 17 crianças. Hoje atende cerca de 150

Se o Nova Vida ainda não conseguiu resgatar por completo a esperança da Comunidade do Gesso, pelo menos abriu algumas portas. “A gente tem um caso emblemático de dois irmãos que participavam do projeto, quando pequenos. Hoje, um trabalha conosco como educador. O outro está no presídio”, conta Hermano.

Samuel, que orienta crianças e jovens em oficinas de artesanato, só usa a palavra “cruel” para definir o passado recente da Comunidade do Gesso, onde sempre viveu com seu irmão Gilberto – até ele ser preso por um assalto. Muita prostituição, muita violência, muita miséria. Em meio a esse caldeirão de problemas, o Nova Vida já virou uma referência para os moradores da região. Até os velórios são realizados lá. “Não cabe tanta gente nas casas”, argumenta.

Se no começo, os moradores olhavam as atividades com desconfiança – “era ano eleitoral”, recorda Hermano – atualmente a relação com eles é ótima. Aos poucos, o Nova Vida foi moldando o cotidiano da Comunidade do Gesso e procurando contornar a pobreza do lugar. Uma luta aparentemente sem fim.

Crato, julho de 2003

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