O número de trabalhadores argentinos submetidos ao trabalho escravo no Brasil cresceu nos últimos anos. Entre 2003 e 2023, foram identificadas 12 vítimas do país vizinho. Só em 2024, esse número chegou a 36*. Já em 2025, ao menos 21 trabalhadores argentinos foram resgatados**.
Esse aumento ocorre em meio a mudanças recentes na economia da Argentina, que afetaram diretamente a renda de trabalhadores rurais e incentivaram a migração para o Brasil. Em 2023, o presidente argentino, Javier Milei, acabou com a política de fixação do preço da erva-mate. A medida provocou uma queda acentuada no valor pago pelo produto — que chegou a cair pela metade, segundo reportagem da Folha de S. Paulo***. Com a renda reduzida, parte dos trabalhadores ligados a esse cultivo passou a migrar para o Brasil em busca de melhores oportunidades.
Em 2025, o Brasil registrou recorde de concessões de CPF para argentinos: foram cerca de 40 mil registros, segundo dados da Receita Federal. Parte desses migrantes acaba exposta a situações de exploração laboral.
O perfil dos trabalhadores resgatados em 2024 ajuda a entender quem é mais afetado. Dos 36 argentinos libertados, 35 eram homens, com predominância de idade entre 25 e 39 anos. A maioria se declarou parda (44%) ou indígena (17%). Em relação à escolaridade, metade tinha ensino fundamental completo ou incompleto, e 36% possuíam ensino médio incompleto.
Casos recentes mostram como essa exploração ocorre na prática. Em 2025, operações de fiscalização resgataram trabalhadores argentinos em diferentes estabelecimentos, principalmente no estado do Rio Grande do Sul. Em uma propriedade de cultivo de maçã, seis trabalhadores foram encontrados submetidos à servidão por dívida, trabalhando em jornadas de 10 a 11 horas diárias, sem descanso semanal e sem poder deixar o local de trabalho. Em outra, de cultivo de uva, quatro argentinos foram resgatados. Nos dois casos, as autoridades também reconheceram os trabalhadores como vítimas de tráfico de pessoas.
*Dados do projeto Perfil Resgatado, da Repórter Brasil, com base em informações do Ministério do Trabalho e Emprego.
**Dados parciais.

Foto: Diogo Zanatta