Países não deveriam explorar petróleo em áreas sensíveis, diz relatora da ONU

Relatora da ONU para mudanças climáticas e direitos humanos, Elisa Morgera critica a autorização para perfuração na Margem Equatorial e vê contradição entre a ambição climática brasileira e a expansão de fósseis na foz do Amazonas
Por Isabel Harari

DE BELÉM (PA) — A relatora da ONU para mudanças climáticas e direitos humanos, Elisa Morgera, criticou em entrevista à Repórter Brasil a recente aprovação do governo brasileiro para que a Petrobras perfure um poço de petróleo na Margem Equatorial, região que inclui a foz do rio Amazonas.

“Nenhum país deveria permitir a expansão de combustíveis fósseis em áreas ecologicamente sensíveis”, afirmou Morgera em coletiva na última quinta-feira (20), na COP30, em Belém. “É uma contradição óbvia e profunda”, disse.

A contradição é uma referência ao esforço do governo brasileiro em tentar aprovar durante a COP um compromisso para redução do consumo de combustíveis fósseis. A conferência terminou no último sábado (22) com a aprovação de 29 documentos, todos por consenso. Mas nenhum deles menciona petróleo, gás e carvão, principais responsáveis pelo aquecimento global.

Em seu relatório mais recente, a especialista da ONU (Organização das Nações Unidas) detalha os impactos dos combustíveis fósseis sobre o clima e os direitos humanos, “incluindo o direito à vida, autodeterminação, saúde, alimentação, água, moradia, educação, trabalho e cultura”. 

“Esses projetos, especialmente na Amazônia, já representam por si só um retrocesso em direitos humanos e isso não é aceitável”, afirmou Morgera.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Petróleo na Nigéria não trouxe desenvolvimento regional, diz ativista

A exploração de petróleo na foz do Amazonas nem começou, mas os impactos já são sentidos na região de Oiapoque (AP). Lideranças indígenas apontam inchaço populacional, aumento da violência e invasão dos territórios. 

“O Ibama autorizou o início das pesquisas sem ouvir os indígenas, nos apagando completamente do lugar onde vivemos”, lamentou Luene dos Santos Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará. 

Luene relata ainda uma ofensiva narrativa por parte da estatal brasileira, com promessas de mais empregos e desenvolvimento para a região.

O discurso de que a exploração do petróleo vai impulsionar a economia local não é novidade para o ativista nigeriano Kentebe Ebiaridor. Ele lembra que quando as multinacionais do petróleo chegaram à região do rio Níger, na década de 1990, a promessa era de mais emprego e dinheiro para as comunidades. O que aconteceu na prática foi a perda de áreas de pesca, contaminação dos rios e aumento da violência. “Tem sido lágrimas, sofrimento e sangue”, contou.

“Temos muitas ‘zonas de sacrifício’ no mundo”, diz Ebiaridor, em referência às áreas onde há exploração de petróleo e minérios, como as da Amazônia e da Nigéria. “Infelizmente, são os locais onde as empresas de mineração e petroleiras decidiram atuar”, lamenta.

Esta reportagem teve apoio da Rainforest Investigations Network (RIN), do Pulitzer Center

Apoio Pulitzer Center

Leia também

LEIA TAMBÉM

Protesto contra exploração de petróleo na foz do Amazonas, durante a Marcha Mundial pelo Clima, em Belém (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil/15.11.25)

Faça parte da Repórter Brasil

Sua doação transforma investigação em impacto