Vereador investigado por bomba em aeroporto se junta à caminhada de Nikolas Ferreira

Vereador de Xinguara (PA) juntou-se à caminhada na BR-040 com destino a capital federal. O político paraense foi citado em investigações no caso da bomba do aeroporto de Brasília, antes do 8 de janeiro
Por Daniel Camargos | Edição Diego Junqueira

A CAMINHADA do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) até Brasília ganhou a presença de um vereador paraense investigado no caso do atentado frustrado a bomba nas proximidades do aeroporto da capital federal, em dezembro de 2022. O episódio ocorreu poucos dias antes dos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes.

O vereador Ricardo Pereira Cunha (PL), de Xinguara (PA), publicou nesta sexta-feira (23) um vídeo em suas redes sociais afirmando que está a caminho da capital para se juntar ao deputado. “Aguenta firme, Nikolas, estamos chegando aí”, diz Cunha na gravação. Neste sábado (24) ele publicou outro vídeo já na caminhada.

Um dos objetivos do deputado mineiro é transformar a caminhada em um ato em defesa de anistia para os condenados por participarem da tentativa de golpe.

Um relatório da Polícia Civil do Distrito Federal entregue à CPMI do 8 de janeiro apontou Cunha como investigado no caso do atentado frustrado, quando um caminhão-tanque foi alvo de uma tentativa de explosão nas proximidades do aeroporto de Brasília. O autor do plano era George Washington de Oliveira Souza, bolsonarista que confessou ter montado o artefato explosivo e foi condenado a 9 anos e 4 meses de prisão. Apesar de investigado, Cunha não foi indiciado por envolvimento no atentado. 

Segundo transcrições de mensagens obtidas pela Polícia Civil do Distrito Federal, Cunha trocou mensagens com George Washington ao longo de dezembro de 2022, período em que bolsonaristas mantinham um acampamento em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, pedindo intervenção militar após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) nas urnas.

Em uma das conversas, George Washington escreveu: “Passei o dia no QG”, em referência ao acampamento. Cunha respondeu: “Tem uma missão” e “Que você precisa fazer parte”.O diálogo foi revelado pelo UOL, em julho de 2023. 

Em 14 de dezembro, George Washington perguntou a Cunha: “Vc pode trazer aquele material do caminhão?”. Cunha respondeu “Sim” e completou: “Só deixar no jeito”. Dias depois, na madrugada de 23 de dezembro, véspera do atentado, George Washington escreveu: “Não volto com o material”. Segundo relatório policial citado pelo UOL, George Washington afirmou em uma entrevista informal na delegacia que Cunha teria enviado o explosivo.

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A CPMI do 8 de Janeiro tratou o atentado do aeroporto como parte da escalada de violência política que antecedeu o 8 de janeiro. A bomba não explodiu, mas o episódio se tornou um marco do período de radicalização de grupos bolsonaristas no fim do governo Bolsonaro.

O relatório final da CPMI registra que George Washington também transferiu dinheiro para a USA Brasil, empresa de informática em Xinguara apontada como ponto de captação regional de recursos para apoiar acampamentos bolsonaristas em Brasília e no sul do Pará. Segundo o documento, o envio foi de R$ 5 mil.

A CPMI registra que Ricardo Pereira Cunha era o procurador responsável da USA Brasil. A participação de Cunha nessa estrutura de arrecadação havia sido revelada com exclusividade pela Repórter Brasil em janeiro de 2023, ao mostrar que fazendeiros e empresários do sul do Pará divulgaram a chave PIX da loja para bancar acampamentos bolsonaristas em Marabá (PA) e na capital federal.

Na mesma investigação, a Repórter Brasil mostrou que Cunha mantinha presença constante no acampamento em frente ao QG do Exército, em Brasília, e postava vídeos exibindo a logística de doações e alimentação para a tropa bolsonarista acampada, com convocações para que mais apoiadores se juntassem ao movimento.

Segundo relatório do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) obtido pela comissão parlamentar, a movimentação bancária da USA Brasil saltou de cerca de R$ 10 mil mensais para mais de R$ 300 mil em novembro de 2022, mês seguinte às eleições.

Procurado, Cunha não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. O espaço segue aberto caso ele deseje manifestar-se. Em 2024, ele disse à Repórter Brasil que não participou de golpe nem de atentado à bomba e que os recursos serviram para comprar comida aos conterrâneos acampados em Brasília.

Ao UOL, em julho de 2023, Cunha disse que a missão mencionada nas mensagens trocadas com George Washington seria identificar supostos infiltrados no local.

O relatório final da CPMI pediu o indiciamento de Ricardo Pereira Cunha e de mais 60 pessoas por participação na tentativa de golpe. O vereador foi apontado como financiador.

George Washington de Oliveira Sousa, bolsonarista que confessou ter montado o explosivo do atentado frustrado perto do aeroporto de Brasília, em dezembro de 2022, durante depoimento à CPMI do 8 de Janeiro (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)
George Washington de Oliveira Sousa, bolsonarista que confessou ter montado o explosivo do atentado frustrado perto do aeroporto de Brasília, em dezembro de 2022, durante depoimento à CPMI do 8 de Janeiro (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)

O primeiro comentário no vídeo postado nesta sexta-feira foi feito por Lauanda Peixoto Guimarães, que parabenizou a ida do aliado a Brasília e afirmou ter “orgulho de ver que 2022 não foi em vão”. Guimarães foi uma das líderes da invasão à Terra Indígena Apyterewa, no sul do Pará, e se filiou ao PL para disputar eleição em São Félix do Xingu usando o nome do território indígena invadido como identidade de campanha, mas diferentemente de Cunha, não foi eleita.

:: Leia também: Invasora da Apyterewa vira candidata e leva nome da terra indígena na urna ::

O que é a caminhada de Nikolas

Nikolas iniciou nesta semana uma caminhada de cerca de 240 km até Brasília. O deputado afirma que o ato é uma forma de pressionar o Congresso por anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. 

A marcha foi desenhada para produzir imagens e vídeos em tempo real, com presença de assessores, estrutura de apoio e esquema de segurança no trajeto. A previsão é que Nikolas chegue no domingo (25) à Praça do Cruzeiro, em Brasília, onde deseja realizar uma manifestação com apoiadores.

O deputado é acompanhado por um esquema de proteção ao longo do trajeto. Ele caminha cercado por um cordão humano e com apoio de assessores do gabinete, que organizam paradas para descanso e acompanham a condição física do parlamentar durante o percurso. 

A Polícia Rodoviária Federal afirmou que a iniciativa cria riscos extraordinários para o trânsito na BR-040 e que não houve comunicação prévia do deslocamento, o que dificultou o planejamento antecipado de segurança viária.

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