DEPUTADOS ITALIANOS pediram explicações ao governo da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, sobre as ações adotadas pelo país para combater a importação de ouro do Brasil com indícios de ilegalidade. O pedido cita reportagens publicadas pela Repórter Brasil sobre como refinarias do país adquiriram ouro de empresas investigadas por envolvimento com garimpos ilegais na Amazônia.
A interrogação parlamentar – nome técnico do pedido – foi apresentada em 31 de março pelo deputado Angelo Bonelli, da coalizão Alleanza Verdi e Sinistra (Aliança Verdes e Esquerda). O texto é assinado por outros sete parlamentares da coalizão e endereçado aos ministros do Interior, da Economia e Finanças, do Meio Ambiente e Segurança Energética e dos Negócios Estrangeiros.
Os parlamentares querem saber se os atuais instrumentos de rastreabilidade e verificação italianos são adequados para enfrentar o risco de importação de ouro ligado a crimes ambientais, falsificação de documentos e violações dos direitos dos povos indígenas. A interrogação também questiona quais iniciativas o governo pretende assumir, inclusive no âmbito diplomático, para evitar que a Itália seja um destino do ouro extraído ilegalmente da Amazônia.
Fornecedores investigados
Em junho de 2025, uma reportagem mostrou que a refinaria italiana Italpreziosi adquiriu o minério de uma importadora investigada em um esquema de extração ilegal de ouro em Itaituba, no Sudoeste do Pará. De acordo com as investigações policiais, o esquema criminoso era formado por empresas brasileiras que criavam notas fiscais falsas, inclusive em nome de pessoas já falecidas, para mascarar a real origem do minério. A investigação aponta que parte do produto foi extraída de garimpos ilegais na Terra Indígena Munduruku.
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Já em maio de 2024, a Repórter Brasil mostrou que uma carga de 5kg de ouro em pó misturada a 15 toneladas de carvão havia sido comprada por outra refinaria italiana, a Safimet, especializada no refino de metais preciosos. Após identificarem o ouro não declarado na carga, a Receita Federal no Porto de Santos barrou a exportação para a Itália. Apesar de responder por apenas 0,03% do volume total da carga, a quantidade de ouro poderia render R$ 1,9 milhão, quase três vezes mais que o valor do carvão declarado na nota fiscal do produto.

Três anos antes, a refinaria Chimet, gigante italiana de metais preciosos sediada em Arezzo, na Toscana, foi apontada em investigações policiais como compradora de ouro extraído ilegalmente da Terra Indígena Kayapó, no Sul do Pará. O esquema foi desnudado na Operação Terra Desolata, conduzida pela Polícia Federal. A Repórter Brasil mostrou que a Chimet figurava na rede de fornecedores de empresas como Apple, Google e Microsoft.
As três empresas foram ouvidas pela Repórter Brasil à época da publicação das reportagens. A Italpreziosi afirmou que não identificou nenhuma suspeita de ilegalidade no ouro adquirido da empresa importadora investigada pelas autoridades. A Safimet, por sua vez, disse que fez uma única compra junto à empresa brasileira alvo da fiscalização no Porto de Santos e que desfez o negócio após a apreensão do material pela Receita Federal. Já a Chimet sustentou que suas compras de ouro são acompanhadas de documentação que atesta a procedência lícita do metal, mas reconheceu “o risco de que efeitos negativos possam ser associados ao comércio e exportação de minerais de áreas de alto risco”.
MPF abriu investigação
Em dezembro de 2025, o MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas abriu um inquérito para investigar as ações do Estado brasileiro, da ANM (Agência Nacional de Mineração) e de outras entidades e órgãos públicos para o combate à exportação irregular de ouro.
As refinarias italianas não são alvo da investigação, mas o acúmulo de denúncias levou o órgão a incluir um pedido de explicações para entender o que países como a Itália e a Suíça estão fazendo para impedir a entrada de ouro extraído ilegalmente da Amazônia em seus territórios.
Em março deste ano, o MPF enviou um pedido de esclarecimentos à embaixada italiana em Brasília. O mesmo pedido foi enviado às embaixadas de Suíça, Bélgica e Reino Unido. Na interrogação parlamentar, os deputados questionam se governo italiano está ciente desse pedido.
Resposta pode demorar – ou nunca ser respondida
Os ministros têm 20 dias para responder a uma interrogação parlamentar. Mas nem sempre isso acontece. Algumas vezes, as interrogações ficam anos esperando uma resposta. Foi o que ocorreu quando o mesmo tema chegou ao parlamento italiano pela primeira vez, em 2022.
Em setembro de 2021, quando a Operação Terra Desolata veio a público e revelou o esquema que conectava garimpeiros clandestinos da Amazônia à Chimet, o escândalo chegou a terras italianas não apenas pela imprensa, mas pelos canais oficiais.

Em fevereiro de 2022, o deputado Devis Dori, que também assina a interrogação deste ano, e outros três parlamentares, todos da coalizão Aliança Verdes e Esquerda, protocolaram uma interrogação parlamentar endereçada aos mesmos ministérios. À época, os deputados queriam saber se o governo estava ciente dos fatos revelados pela operação e quais iniciativas pretendia adotar para combater o comércio ilegal de metais preciosos.
Quatro anos depois, a interrogação continua sem resposta. Procurado pela reportagem, Dori disse nunca ter recebido qualquer resposta do governo àquela interrogação. Ele lembrou que o primeiro-ministro da época, Mario Draghi, permaneceu apenas cinco meses no cargo.
O colega Cristian Romaniello, que assinou a interrogação de 2022, também nunca recebeu resposta. “Era o governo Draghi, mas não quer dizer que a interrogação não pudesse ter sido respondida pelos governos sucessivos”, explicou o deputado.
Arquivamento de denúncia contra a Chimet
Na mesma época, o deputado Angelo Bonelli, o mesmo que agora lidera a interrogação apresentada este ano, formalizou, em fevereiro de 2022, uma denúncia à Procuradoria da República de Arezzo, cidade onde a Chimet está sediada. A denúncia pedia a abertura de uma investigação para apurar se as acusações da Polícia Federal brasileira encontravam respaldo na Itália.
Em resposta à Repórter Brasil, a procuradoria de Arezzo afirmou que a denúncia foi registrada como “fatti non costituenti reato” (“fatos que não constituem crime”, na tradução para o português) e arquivada em maio de 2022.
Nem o próprio parlamentar Bonelli sabia que a denúncia havia sido arquivada. Ao ser informado pela reportagem, o deputado disse que o principal entrave para investigações sobre a aquisição de ouro ilegal na Itália está na rastreabilidade. Segundo ele, quando o ouro entra com documentação formal brasileira, contestar a origem se torna difícil.
“Se não se identificam os responsáveis, o ciclo continua”, afirmou. Na avaliação do deputado, a Europa ainda falha ao não impor controles mais rígidos sobre matérias-primas vindas de áreas marcadas por exploração e desmatamento.
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