Massacre de Eldorado dos Carajás: as perguntas que ficaram na Curva do S

Três décadas depois da operação policial que deixou 21 sem-terra mortos no Sudeste do Pará, questões sobre o financiamento e a logística da ação seguem sem resposta
Por Daniel Camargos | Edição Carlos Juliano Barros

DE MARABÁ E ELDORADO DO CARAJÁS (PA) — Pouco mais de duas semanas após o massacre de Eldorado do Carajás (PA), em 17 de abril de 1996, um gerente de fazenda desembarcou em Brasília sob proteção da Polícia Federal. Dizia carregar uma informação que, se confirmada, mudaria o rumo da investigação.

O gerente era Ricardo Marcondes de Oliveira, então com 30 anos. Em depoimentos à PF, ao Ministério Público e à Justiça, afirmou que fazendeiros da região teriam se organizado para arrecadar dinheiro destinado a financiar a operação policial que há três décadas terminou com 19 trabalhadores sem terra mortos na Curva do S, na rodovia PA-150, no sudeste do Pará. Outros dois morreram depois, em decorrência dos ferimentos. 

O plano, segundo o relato, teria surgido poucos dias antes do massacre. O valor giraria em torno de R$ 85 mil, cerca de R$ 500 mil em valores atualizados. O dinheiro seria repassado ao comando do 4º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela ação. Nos depoimentos, afirmou que “dez integrantes do MST deveriam morrer”. O depoimento chegou a ser anexado aos autos do processo judicial, mas foi posteriormente descartado  

A denúncia sobre a “vaquinha” organizada por fazendeiros do Sudeste do Pará para custear a operação que resultou no Massacre de Eldorado do Carajás é uma das inúmeras pontas soltas sobre o episódio que, 30 anos depois, ainda geram mais perguntas do que respostas.

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A Repórter Brasil ouviu personagens diretamente ligados à chacina e analisou milhares de folhas dos autos judiciais sobre o caso.

Além do possível rateio feito por produtores rurais, seguem na sombra o telefonema de um suposto funcionário da então estatal Vale para a empresa de ônibus Transbrasiliana, usada no transporte de parte da tropa policial, além de relatos sobre articulações e pressões de fazendeiros antes da operação.

Na dissertação que defendeu em 2016 na Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), o advogado José Batista, da CPT (Comissão Pastoral da Terra), situa o massacre dentro de uma mudança nos conflitos por terra no Pará. 

As ocupações deixaram de envolver apenas pequenos posseiros e sindicatos de trabalhadores rurais e passaram a mobilizar grandes acampamentos organizados em áreas pressionadas pela expansão da mineração e pela valorização das terras ao redor de Carajás, principal província mineral do planeta. 

Em uma região ainda marcada pela Guerrilha do Araguaia e pela repressão militar no campo, ocupações de terra passaram a ser tratadas por autoridades como ameaça política. O historiador Airton dos Reis Pereira, professor da Universidade do Estado do Pará e autor de Do posseiro ao sem-terra (Editora UFPE, 2015), escreveu que, naquele contexto, “defender as grandes propriedades era proteger o interesse nacional”.

Fazendeiros do Sudeste do Pará montaram um consórcio para bancar a operação?

Semanas antes do massacre, Ricardo Marcondes Oliveira havia assumido a administração da Fazenda São Carlos, em Xinguara (PA), área marcada por conflitos por terra e atuação de pistoleiros. Foi nesse ambiente que o gerente disse ter ouvido falar pela primeira vez na “vaquinha” para a operação policial que terminou no massacre.

Ainda segundo o relato, ele teria sido procurado, dias antes do massacre, pelo proprietário da Fazenda Macaxeira, o principal alvo das reivindicações dos sem terra naquele abril de 1996. 

As famílias acampadas reivindicavam a desapropriação da área havia meses e marchavam em direção a Belém para pressionar o governo estadual e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), órgão federal responsável pelo assentamento de famílias sem-terra.

De acordo com o depoimento, fazendeiros da região estariam arrecadando dinheiro para financiar uma operação policial que desmontaria o bloqueio do MST na PA-150. O gerente afirmou que se recusou a participar. 

A denúncia teve repercussão imediata. Em 4 de maio de 1996, a Folha de São Paulo noticiou que a Polícia Federal já reunia os nomes de cerca de 20 fazendeiros suspeitos de participar da arrecadação. 

O então ministro da Justiça, Nelson Jobim, avaliou que o depoimento ampliava o leque dos investigados. E o relato levou o ministro extraordinário de Política Fundiária, Raul Jungmann, a suspender a compra da Fazenda Macaxeira pelo Incra, então em negociação com o proprietário.

O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira Oliveira foram condenados por homicídio pela condução da operação policial. Os dois comandavam as tropas que avançaram sobre os trabalhadores na rodovia PA-150. Nenhum dos outros 153 policiais que participaram da ação foi sentenciado. A denúncia sobre quem mais poderia ter estado envolvido nunca foi comprovada nos autos. 

Após recusar a proposta da “vaquinha”, o gerente Oliveira relatou ameaças feitas por um homem armado. Dias depois, já em Marabá, disse ter visto o mesmo homem ao lado de outro indivíduo, tido como um pistoleiro ligado a fazendeiros da região que, no dia do massacre, estaria vestido com farda da Polícia Militar. 

A versão entrou nos autos do processo judicial. O gerente foi ouvido em Brasília, Belém e no sudeste do Pará. Em acareação formal, o proprietário da Fazenda Macaxeira, que teria sugerido a ação conjunta para desobstruir a rodovia, negou integralmente as acusações e afirmou nunca ter proposto arrecadação de dinheiro. Oliveira manteve sua versão. 

Para a Folha de São Paulo, em novembro de 1996, o dono da fazenda afirmou que foi vítima de um “massacre moral”. Procurado pela Repórter Brasil, não retornou os pedidos de posicionamento.

A investigação, porém, logo se voltou contra o próprio denunciante. A Polícia Civil apontou contradições nos relatos de Oliveira. Inclusive sobre o tempo em que de fato trabalhara na região. Também reuniu informações sobre sua trajetória: respondia, em Goiás, a processos por estelionato e por sequestro e cárcere privado. 

Um gerente do Banco Itaú em Marabá afirmou que Oliveira teria emitido cheques sem fundo e aplicado golpes em Redenção. Antes que a apuração avançasse, ele fugiu do programa de proteção da Polícia Federal, em junho de 1996, quando o Ministério da Justiça já admitia a possibilidade de prisão.

A denúncia foi noticiada na época, incluindo uma investigação do Correio Braziliense, o primeiro veículo a entrevistar o denunciante, e continuou sendo mencionada em trabalhos posteriores, entre eles a dissertação do advogado da CPT José Batista e o livro-reportagem O Massacre — Eldorado do Carajás: Uma história de impunidade (Editora Record, 2019), de Eric Nepomuceno.

Sem provas materiais que confirmassem a denúncia, a Polícia Civil indiciou Oliveira por falso testemunho. O Ministério Público pediu novas diligências. Trinta anos depois, a apuração sobre a chamada “vaquinha” segue sem desfecho conclusivo. Nem a acusação foi provada, nem os cerca de 20 nomes dos fazendeiros reunidos pela Polícia Federal levaram a um único indiciamento.

Procurado repetidas vezes por meio de contatos de uma empresa vinculada a ele, Oliveira não respondeu aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem.

Eldorado do Carajás, Pará, Brasil 09-04-2026 Alunos, cruzes e pinturas na Escola Oziel Alves Pereira no Assentamento 17 de Abril, localizado em Eldorado do Carajás (PA), que é um símbolo histórico do MST, criado após o massacre de 1996 na Fazenda Macaxeira. Série de reportagens sobre os 30 anos do "Massacre de Eldorado do Carajás". Fotos: Fernando Martinho.
Cruzes em homenagem aos mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás no assentamento 17 de Abril, em Eldorado do Carajás, no Pará (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Quem bancou a logística da operação?

Na manhã de 17 de abril de 1996, parte da tropa da Polícia Militar que seguiria de Marabá até a Curva do S embarcou em ônibus da Transbrasiliana, empresa que operava o transporte rodoviário na região. 

O uso de ônibus civis para deslocamento de policiais não era incomum na época. O que chamou atenção dos investigadores, ainda nos dias seguintes ao massacre, foi um episódio ocorrido na véspera da operação.

Em oitiva prestada em 23 de abril de 1996, o gerente da Transbrasiliana, Gumercindo José Marra de Castro, afirmou que teria recebido, no dia anterior ao massacre, um telefonema de um homem que se identificou como funcionário da então estatal Companhia Vale do Rio Doce. Segundo o funcionário da transportadora, o interlocutor, citado apenas como “James”, teria solicitado dois ônibus para o 4º Batalhão da Polícia Militar, em Marabá.

De acordo com o depoimento, os veículos chegaram a ser mobilizados, mas retornaram à garagem da empresa, sem uso. No dia seguinte, já com a operação em curso, a Polícia Militar requisitou formalmente dois ônibus da mesma empresa. Esses veículos foram utilizados para transportar a tropa até a Curva do S. O pagamento, segundo documentos do processo, foi feito pela corporação.

James, o suposto funcionário da Companhia Vale do Rio Doce, nunca foi identificado. Nos autos, não há registro de diligências capazes de esclarecer quem telefonou para a empresa de ônibus.

Procurado pela Repórter Brasil em Marabá, o gerente da Transbrasiliana afirmou que já havia dito, à época, tudo o que sabia sobre o episódio em seu depoimento oficial. Em mensagem enviada à reportagem, disse não se recordar de outros detalhes por problemas de saúde.

A dúvida sobre a origem do transporte aparece também nos depoimentos do tenente-coronel Manoel Mendes de Melo, então subcomandante do 4º Batalhão da PM em Marabá. 

Em interrogatório realizado pela Polícia Civil poucos dias após o massacre, ele afirmou que os ônibus utilizados na operação haviam sido “cedidos pela Companhia Vale do Rio Doce”. Dias depois, ao depor novamente no Inquérito Policial Militar, voltou a mencionar o uso dos veículos, sem especificar quem teria custeado o transporte. 

No mesmo processo, mais de um ano depois, já na fase judicial, Melo apresentou outra versão. Disse não saber quem havia disponibilizado os ônibus e afirmou que, segundo informação posterior do coronel Mário Colares Pantoja, o pagamento teria sido feito pela própria Polícia Militar. Ao justificar a mudança, declarou que associou inicialmente o transporte à Vale porque, segundo ele, era comum que a empresa disponibilizasse veículos para deslocamento de tropas na região. 

Questionado em juízo, Castro também mencionou essa prática. Afirmou que a estatal costumava requisitar veículos da Transbrasiliana para uso de policiais e citou como exemplo a operação conhecida como Serra Leste, na qual mais de 60 ônibus teriam sido colocados à disposição da Polícia Militar. 

O telefonema de James, as versões contraditórias do subcomandante da PM e a prática descrita pelo gerente da Transbrasiliana continuam sem explicação definitiva nos autos.  

A Vale afirmou à reportagem que “não teve qualquer relação com o chamado ‘Massacre de Eldorado do Carajás’”. A empresa foi citada no inquérito, mas não chegou a ser indiciada. Procurada novamente com perguntas específicas sobre o telefonema de James, a origem dos ônibus, os convênios com a Polícia Militar e os conflitos anteriores com o MST, optou por não responder.

Serra Pelada depois do ouro

A Serra Leste fica ao lado de Serra Pelada, a mítica jazida de ouro explorada por garimpeiros durante a ditadura militar, a cerca de 50 quilômetros da Curva do S. Em 1996, a região vivia um novo ciclo de conflitos, anos depois do fechamento oficial do garimpo, em 1992. Garimpeiros seguiam reivindicando direito sobre áreas exploradas, enquanto a Companhia Vale do Rio Doce avançava com projetos de exploração mineral na região vizinha.

Dias antes do aniversário de 30 anos do massacre, a reportagem esteve em Serra Pelada. Na entrada da vila, uma antiga casa exibe a inscrição Boate Azul na fachada desbotada. Ao lado da cooperativa dos garimpeiros, homens idosos passam a tarde de domingo relembrando histórias do auge da corrida do ouro. 

A antiga cava da mina virou um lago onde pessoas fazem churrasco e alugam jet skis. Um estudo da Universidade Federal Rural da Amazônia identificou contaminação por chumbo acima dos limites recomendados em amostras de água e solo coletadas na região.

Serra Pelada, Pará, Brasil 12-04-2026 Vista Jet skis no lago onde era a cratera do garimpo de Serra Pelada. Moradores da região andando de jet ski ao fundo. Serra Pelada é uma localidade brasileira, vila e distrito do município de Curionópolis, no sudeste do Pará. Fotos: Fernando Martinho.
Vista do lago que soterrou a antiga mina de ouro de Serra Pelada, localizada no município de Curionópolis (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Em 1983, o repórter Ricardo Kotscho encontrou em Serra Pelada uma cratera aberta por milhares de homens trabalhando manualmente dentro da lama. Da borda do garimpo, via filas de carregadores subindo encostas escorregadias com sacos de cascalho nas costas. Os diaristas, conhecidos como “formigas”, carregavam cerca de 30 quilos por vez entre o fundo da cava e os depósitos de rejeito, subindo por uma escada imensa apelidada de “Adeus, mamãe”.  

A reportagem publicada na Folha de São Paulo depois se tornou o livro Serra Pelada – Uma ferida aberta na selva (Editora Brasiliense, 1984). Havia donos de barranco, intermediários, comerciantes, policiais, agentes federais e milhares de homens submetidos a trabalho braçal extremo. O garimpeiro não negociava diretamente o ouro que encontrava e dependia financeiramente dos donos das catas, num sistema que Kotscho comparou aos antigos seringais amazônicos. 

No texto, Kotscho também registrou a disputa política em torno da cava. De um lado, estava a Docegeo, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, que detinha direitos sobre a jazida. De outro, o governo federal, que via o garimpo como forma de absorver parte da tensão social no sul do Pará, em uma área marcada por conflitos fundiários, migração desordenada e presença militar após a Guerrilha do Araguaia. 

Quando o Estado interveio diretamente no garimpo, a Polícia Federal cercou a área, órgãos federais passaram a operar dentro da cava e o major Sebastião Curió assumiu o controle político do lugar. “Nada se resolvia sem sua palavra”, escreveu Kotscho.

Antes de assumir o controle de Serra Pelada, Curió atuou na repressão à Guerrilha do Araguaia como agente do Centro de Informações do Exército. A operação militar terminou com desaparecimentos, execuções e ocultação de corpos de guerrilheiros e camponeses no sul do Pará.

Treze anos depois, quando trabalhadores sem terra bloquearam a PA-150 na Curva do S, Serra Pelada já não produzia a promessa de enriquecimento rápido, mas continuava concentrando homens sem trabalho fixo. Ao lado do antigo garimpo, a Vale avançava sobre projetos de exploração em Serra Leste. 

Luiz Lima de Oliveira, ex-garimpeiro de Serra Pelada e atual dirigente do MST na região, lembra que o fechamento do garimpo empurrou parte dos trabalhadores para a luta por terra. “Quando o garimpo acabou, ficou uma multidão de gente sem rumo. Nós tínhamos passado a vida ali dentro, sem estudo, sem outra profissão”, afirma. Ele entrou no MST em 1995, quando muitos trabalhadores passaram a disputar terras nas mesmas áreas pressionadas pela expansão mineral.

“A terra virou o grande ativo econômico da região”, afirma o dirigente estadual do MST, Pablo Neri. Filho de militantes do movimento que participaram da marcha de 1996, Pablo Neri cresceu em Palmares 2, assentamento na região de Carajás. “Quem luta por terra aqui acaba entrando em conflito com a mineração”, disse.

Eldorado do Carajás, Pará, Brasil 09-04-2026 Retrato de Luiz de Lima Oliveira, ex-vereador de Eldorado do Carajás, no Assentamento 17 de Abril, localizado em Eldorado do Carajás (PA), que é um símbolo histórico do MST, criado após o massacre de 1996 na Fazenda Macaxeira. Série de reportagens sobre os 30 anos do "Massacre de Eldorado do Carajás". Fotos: Fernando Martinho.
“Quando o garimpo acabou, ficou uma multidão de gente sem rumo”, afirma Luiz de Lima Oliveira, ex-garimpeiro de Serra Pelada e atual dirigente do MST (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Quando estatal, Vale mantinha convênio com Polícia Militar, diz entidade de defesa dos direitos humanos

Na leitura de Batista, da CPT, a disputa por terra na região de Carajás não se explicava apenas pela concentração fundiária. A implantação dos projetos minerais da Vale elevou o valor das terras no entorno das minas e atraiu fazendeiros e investidores interessados na especulação. 

Em fevereiro de 1996, garimpeiros impediram a entrada de funcionários da empresa em uma área onde a mineradora afirmava ter identificado uma nova jazida de ouro. Eles alegavam direito histórico sobre o território. A companhia sustentava que a área ficava fora dos limites do antigo garimpo. 

Uma semana depois do massacre, cerca de mil garimpeiros ocuparam a área de pesquisa mineral da empresa, paralisaram sondas e bloquearam a operação. O conflito se intensificou nos meses seguintes. Em outubro, uma ação conjunta da Polícia Federal e do Exército desmobilizou os bloqueios e abriu caminho para a retomada das atividades da empresa.

“A polícia sempre agia como se fossem funcionários da empresa, para defender os interesses da mineradora de forma intransigente”, afirma Batista, em entrevista à Repórter Brasil. Segundo ele, as ações do MST passaram a ser tratadas prioritariamente como caso de polícia, e não como expressão de um conflito agrário.

Documentos do próprio inquérito descrevem episódios similares. Em junho de 1994, cerca de 2 mil famílias do MST ocuparam parte da área de concessão da Vale na Serra dos Carajás, em Parauapebas, para pressionar pela destinação de terras para assentamentos. Três dias depois, mais de 50 policiais, com apoio da segurança patrimonial da empresa, realizaram a desocupação. Cerca de 1,2 mil famílias seguiram para Marabá e acamparam diante do Incra.

Meses depois, novas mobilizações voltaram a ser reprimidas. Em novembro de 1994, cerca de mil famílias se mobilizaram nas proximidades do complexo de Carajás, e aproximadamente 600 passaram a noite no local. Segundo documentos do inquérito, nas primeiras horas do dia seguinte, policiais cercaram a área e impediram a entrada e a saída de pessoas, inclusive de água e alimentos. O documento registra agressões contra trabalhadores rurais, além de parlamentares e jornalistas presentes, e episódios de detenção e violência sob custódia.

Em representação à Justiça pela SDDH (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos), a atuação conjunta entre aparato policial e interesses econômicos é descrita como parte da repressão às ocupações de terra no sul e sudeste do Pará. 

O documento afirma que a Companhia Vale do Rio Doce mantinha convênio com a Polícia Militar do Pará e chegou a financiar parte dos custos do destacamento policial sediado em Parauapebas. Segundo a SDDH, entre 1995 e 1996, a empresa destinou cerca de US$ 641 mil (o equivalente hoje a cerca de US$ 1,35 milhão, corrigidos pela inflação norte-americana) à então 1ª Companhia Independente de Policiamento de Meio Ambiente, unidade que atuava na região de Carajás. 

Os documentos, contudo, não apontam participação direta da Vale na operação policial de 17 de abril de 1996. O que mostram é que a empresa apareceu repetidamente nos autos quando a investigação tratou da logística da PM e dos conflitos fundiários na região.

Pecuaristas cobraram ação enérgica do governo do Pará contra o MST

Nos dias que antecederam o massacre, a rodovia PA-150 estava bloqueada por trabalhadores do MST havia quase duas semanas. O ponto de interdição ficava na Curva do S, entre Marabá e Eldorado do Carajás, em um trecho estratégico para o escoamento de produção e o deslocamento de pessoas no sudeste do Pará.

Produtores rurais, comerciantes e empresários pressionavam o governo do estado por uma solução rápida. Em pesquisa baseada em documentos do período, o advogado da CPT José Batista descreve reuniões entre fazendeiros nos dias anteriores à operação e discussões sobre estratégias para enfrentar o movimento. 

Em 14 de março de 1996, em Marabá, cerca de cinquenta fazendeiros reunidos num encontro da FAEPA (Federação da Agricultura do Estado do Pará) assinaram um documento que ficou conhecido como Carta de Marabá. 

O texto fazia críticas severas ao tratamento dado pelo governo estadual aos trabalhadores acampados e cobrava uma intervenção para retirar o MST das terras ocupadas. No mesmo dia, o presidente da FAEPA, Carlos Xavier, anunciou em entrevista que dezenas de representantes dos fazendeiros se deslocariam a Belém para cobrar uma atitude enérgica das autoridades.

A reunião com o então governador Almir Gabriel (PSDB) aconteceu entre 28 e 29 de março. Segundo Batista, os pecuaristas ameaçaram pegar em armas caso o Estado não contivesse as ações do MST. Após o massacre, a imprensa divulgou o conteúdo de uma fita gravada nos bastidores desse encontro. 

Nas imagens, Carlos Xavier entrega ao secretário de Segurança Pública do estado um documento com uma lista de lideranças do MST. Na mesma fita, o presidente do Sindicato Rural de Marabá, Geraldo Capota, aparece afirmando que os fazendeiros mantinham pessoas infiltradas no acampamento.

Segundo Batista, após a visita dos fazendeiros a Belém, o governo do estado cortou os canais de negociação com o MST e passou a tratar a PM como único interlocutor com o movimento.

Dentro da PM, um ambiente de repressão planejada também tomava forma. Em março de 1996, o serviço reservado da corporação produziu um relatório interno descrevendo a situação na região como de “iminência de guerra civil” e concluindo que o enfrentamento com o MST deveria seguir “táticas militares”. 

O documento avaliava que “procedimentos policiais de rotina não mais seriam suficientes em eventuais enfrentamentos” com os trabalhadores. O conteúdo do relatório foi revelado pelo jornal Zero Hora em 25 de abril de 1996, dias após o massacre.

Marabá, Pará, Brasil 25-09-2023 Retrato de José Batista Afonso, advogado da CPT em Marabá e detalhes do seu escritório. Série de reportagens do projeto Pulitzer Center sobre violência no campo. Percorremos assentamentos e acampamentos em várias cidades do Mato Grosso e Pará, mostrando como a política do governo do ex–presidente Jair Bolsonaro amplificou a violência na Amazônia. ©Foto: Fernando Martinho
Advogado da CPT, José Batista Gonçalves estudou o Massacre de Eldorado dos Carajás em sua dissertação e analisou a relação entre a Vale, o MST e as forças de segurança na região (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Outro relatório do mesmo serviço reservado, revelado pelo Jornal do Brasil em 20 de abril de 1996, apontava três trabalhadores sem terra como responsáveis pela morte de um capitão da PM ocorrida meses antes, em novembro de 1995. Os nomes dos três (Oziel Alves Pereira, Raimundo Lopes Pereira e Manuel Gomes de Souza) aparecem entre os 19 mortos na Curva do S.

Dias depois do massacre, outro episódio veio a público. Após pressão da imprensa, o coronel João Paulo Vieira admitiu que duas pessoas levadas da Curva do S para o quartel em Marabá eram policiais militares infiltrados no grupo dos sem-terra pelo serviço de inteligência da PM.   

Enquanto isso, as negociações para uma solução sem confronto seguiam sem resultado. No dia 16 de abril, véspera do massacre, representantes do MST mantiveram conversas com autoridades locais para discutir a possibilidade de deslocamento dos trabalhadores até Marabá. A proposta, segundo relatos de sobreviventes, incluía o fornecimento de ônibus e alimentação para permitir a viagem e a abertura de uma mesa de negociação com o governo do estado.

Segundo Batista, quando o bloqueio da PA-150 foi mantido, a interlocução com o movimento foi interrompida. A ordem passou a ser a desobstrução da rodovia “a qualquer custo”, expressão atribuída ao depoimento do coronel Pantoja na ação penal. 

Os autos registram que, antes mesmo de partir para a Curva do S, Pantoja decidiu que não seria empregado nenhum meio pacífico de dissuasão. Sua instrução ao Major Oliveira foi que, ao ouvir os primeiros tiros “do lado de Marabá”, ele saberia que a operação havia começado e poderia avançar com sua tropa. Os tiros eram o sinal combinado.

Na tropa que partiu de Parauapebas, segundo depoimento nos autos, o arsenal foi distribuído aos policiais sem o registro de cautela, o documento que permite correlacionar cada projétil à arma e ao agente que a portava. Segundo um dos depoentes policiais, a justificativa foi “a situação de emergência”. Por essa razão, a investigação sobre o massacre ficou impossibilitada de identificar individualmente quem atirou em quem. 

A Polícia Militar do Pará foi procurada para comentar a logística da operação, as versões sobre os ônibus, a presença de policiais infiltrados e o planejamento da ação. A corporação não respondeu até o fechamento desta reportagem.

O que uma Comissão da Verdade poderia esclarecer

Trinta anos depois, parte dos documentos segue produzindo perguntas. Para o advogado Diego Diehl, professor da Universidade de Brasília e pesquisador sobre memória dos massacres no campo, o massacre não pode ser analisado apenas como resultado de uma decisão operacional da Polícia Militar.

“Havia um ambiente de pressão muito forte na região”, diz. Segundo ele, o bloqueio da rodovia atingia interesses econômicos relevantes, e a resposta do Estado ocorreu nesse contexto. Para Diehl, o caso foi capaz de estabelecer responsabilidades individuais, mas não avançou na reconstrução completa do episódio. 

“O caso do Massacre de Eldorado do Carajás precisa de uma comissão da verdade”, afirma. A proposta, segundo ele, seria revisar documentos já produzidos, ouvir novamente testemunhas e reunir informações que ficaram dispersas ao longo das investigações.

As disputas sobre o que aconteceu na Curva do S continuaram anos depois dentro do próprio processo. Em 2001, às vésperas do julgamento dos comandantes da operação policial, a juíza Eva do Amaral Coelho rejeitou a inclusão de uma perícia produzida na Unicamp pelo especialista Ricardo Molina. 

O laudo analisava imagens gravadas no dia do massacre e apontava que os primeiros disparos haviam partido da Polícia Militar. Para o promotor Marco Aurélio do Nascimento, responsável pela acusação, aquela era “a prova que faltava para acabar com todas as dúvidas”, conforme declarou à Folha de São Paulo.

Na decisão, a juíza classificou o parecer como “imprestável e espúrio” e afirmou que o documento havia sido produzido sem conhecimento da defesa e anexado fora do prazo processual. O documento ficou fora daquele julgamento, em meio à disputa entre acusação e defesa sobre a reconstrução da dinâmica do massacre.

‘O massacre não terminou’, diz dirigente do MST

A Curva do S continua sendo um lugar de passagem. O trecho da PA-150 fica a cerca de 100 quilômetros de Marabá, já próximo de Eldorado do Carajás. Caminhões cruzam a estrada esburacada o tempo todo. Ao lado da rodovia, um grande posto de combustível funciona dia e noite. No meio da tarde, o restaurante fica quente, tomado por moscas e música alta.

Poucos dias antes da data de 30 anos do massacre, jovens do MST montavam um acampamento ao lado da estrada. Alguns pintavam um muro para marcar a data. Outros organizavam atividades culturais enquanto aguardavam uma marcha que seguia de Curionópolis até a Curva do S. Uma pequena construção pintada de vermelho abriga o memorial. Nas paredes, fotografias de Sebastião Salgado dividem espaço com bandeiras e homenagens aos trabalhadores mortos.

Na manhã de 17 de abril de 1996, a polícia chegou pelos dois lados da estrada. Primeiro, bombas de gás e balas de borracha. Depois, disparos com munição real. “Aí apareceu sangue”, diz Haroldo de Jesus Oliveira, que tinha 17 anos e estava na Curva do S. Muitos trabalhadores tentaram se proteger na mata quando começaram os tiros.

Eldorado do Carajás, Pará, Brasil 09-04-2026 Retrato de Raimundo dos Santos Gouveia, liderança do MST, no Assentamento 17 de Abril, localizado em Eldorado do Carajás (PA), que é um símbolo histórico do MST, criado após o massacre de 1996 na Fazenda Macaxeira. Série de reportagens sobre os 30 anos do "Massacre de Eldorado do Carajás". Fotos: Fernando Martinho.
Raimundo dos Santos Gouveia, um dos sobreviventes do Massacre de Eldorado dos Carajás, em frente à cooperativa do Assentamento 17 de Abril, no Pará (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Raimundo dos Santos Gouveia também correu. Ao lembrar da fuga, descreve a tentativa de proteger a família. “Agarrei um dos meus filhos, minha mulher, o outro, e nós caímos pro mato”, diz. De dentro da vegetação, ouviu os gritos. “O povo gritava ‘não me mata, não me mata’, e eles atirando.”

José Carlos Moreira tinha 18 anos quando foi atingido no olho direito na Curva do S. “O policial apontou na minha cara. Na testa. Pra matar”, lembra. A bala entrou pelo olho e ele caiu. Nunca foi retirada. Hoje, aos 48 anos, passa a maior parte do tempo sentado do lado de fora de casa, com os pés para cima, esperando o cair da noite para deitar. A dor atravessa a cabeça e, de vez em quando, escorre em pus pela nuca e pelo ouvido.

Três vezes por semana, sai para fazer hemodiálise. Não consegue trabalhar. A renda da indenização é consumida por empréstimos para despesas médicas. Mesmo assim, não guarda mágoa de quem atirou: “Se eu encontrasse o policial, eu chamava ele pra comer uma galinha caipira mais eu. Porque pelo menos ele me deixou vivo”. A história de Zé Carlos foi contada pela Repórter Brasil em reportagem publicada no dia do aniversário do massacre.

Canaã do Carajás, Pará, Brasil 10-04-2026 Retrato de José Carlos Hagapito Moreira, sobrevivente do Massacre de Eldorado do Carajás em sua casa em bairro de Canaã do Carajás. Ele foi baleado no olho em 1996. A bala ficou alojada na sua cabeça e causa sequelas até hoje. Reportagens sobre os 30 anos do "Massacre de Eldorado do Carajás". Fotos: Fernando Martinho.
José Carlos Moreira foi baleado no olho durante a operação policial em Eldorado dos Carajás. Três décadas depois, o projétil continua alojado em sua cabeça (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

No assentamento 17 de Abril, criado na antiga área da Fazenda Macaxeira, a memória do massacre aparece na paisagem — nas pinturas nas paredes e no nome das ruas, que homenageiam as vítimas. A entrada fica na estrada entre Eldorado do Carajás e Curionópolis. Saindo do asfalto, uma estrutura de leilão de gado domina a beira da estrada. Mais adiante, há um clube de tiro.

Depois da entrada, a antiga área da Fazenda Macaxeira se transforma aos poucos em lotes rurais. A estrada atravessa pequenas propriedades até chegar à vila central do assentamento, onde vivem famílias assentadas após anos de acampamento e disputa judicial. Casas de alvenaria substituíram os barracos de lona. 

Há praça, quadra esportiva, árvores já crescidas. O maior orgulho da comunidade é a Escola Oziel Alves Pereira — que leva o nome de uma das principais lideranças jovens do MST mortas no massacre. Segundo testemunhas e investigações da época, Oziel foi morto após já estar rendido e sob controle policial.

Eldorado do Carajás, Pará, Brasil 09-04-2026 Vista aérea da vila no Assentamento 17 de Abril, localizado em Eldorado do Carajás (PA), que é um símbolo histórico do MST, criado após o massacre de 1996 na Fazenda Macaxeira. Série de reportagens sobre os 30 anos do "Massacre de Eldorado do Carajás". Fotos: Fernando Martinho.
Vista aérea da vila no Assentamento 17 de Abril, em Eldorado do Carajás, no Sueste do Pará (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Parte dos sobreviventes da Curva do S vive hoje ali. Gouveia mora no assentamento desde sua criação. Em 1996, integrava a coordenação do movimento e participou das negociações com a Polícia Militar na véspera da operação. Lembra daquela conversa como um momento em que ainda havia expectativa de evitar o confronto. 

“A gente achou que ia ter um encaminhamento”, diz. A proposta era que os trabalhadores deixassem a rodovia e seguissem até Marabá para negociar com o governo do estado. Haveria transporte e alimentação. No dia seguinte, nada disso aconteceu. “A gente estava esperando os ônibus”, recorda.

Pablo Neri cresceu ouvindo essa história. O pai dele participou da marcha interrompida na Curva do S e passou a receber ameaças depois da chacina. “A gente cresceu entendendo que essa violência nunca tinha acabado”, disse. Hoje, aos 31 anos, integra a coordenação estadual do MST e se apresenta como pré-candidato a deputado estadual pelo PT.

“O massacre não terminou. Ele começou no dia 17 de abril e vem matando gente até hoje”, disse Márcio Lima, um dos coordenadores do bloqueio na Curva do S. Segundo ele, dezenas de sobreviventes seguem sem acompanhamento médico adequado. No assentamento, a história segue sendo contada por quem estava lá. Nos autos, parte das perguntas continuam sem resposta.

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