Mineradora White Solder vira ré na Justiça por garimpo ilegal na TI Yanomami

Mineradora White Solder é acusada de integrar organização criminosa com estrutura milionária que ‘destroi’ a terra indígena, segundo denúncia do MPF, aceita pela Justiça Federal de Roraima; Empresa diz ser uma das maiores produtoras de estanho do mundo e tem selo ‘verde’ da Sony e Panasonic
Por Isabel Harari e Murilo Pajolla

UMA MINERADORA com “certificação verde” da Sony e da Panasonic virou ré na Justiça Federal por suspeita de operar um esquema de garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O esquema teria movimentado R$ 166 milhões, segundo o MPF (Ministério Público Federal), autor da denúncia contra a empresa White Solder.

A cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal considerado estratégico para a indústria bélica e da tecnologia por funcionar como uma espécie de “cola” na soldagem de componentes eletrônicos. 

A mineradora e seu sócio-administrador, Alessandro Saccoman Torrente, são acusados de financiar e operar um esquema milionário de garimpo ilegal. Segundo denúncia do MPF, a empresa teria pago R$ 166 milhões a uma cooperativa de fachada para “esquentar” ouro e mais de 525 toneladas de cassiterita, entre 2021 e 2022. O “esquentamento” é uma operação para mascarar a origem ilegal de um minério para ser comercializado com aparência legal. 

A denúncia foi aceita pela juíza Mirna Brenda Magalhães Salmázio, da 4ª Vara Federal Criminal de Boa Vista. Ao todo quatro empresas e seis pessoas se tornaram réus por envolvimento no esquema, incluindo a White Solder e Torrente.

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A Repórter Brasil procurou a mineradora e seu sócio, e também fez contato com a Sony e a Panasonic. Até a publicação desta matéria, no entanto, não houve resposta.

O Grupo White Solder se apresenta como um dos maiores produtores mundiais de estanho e ocupa o segundo lugar em arrecadação de royalties de cassiterita na Amazônia Legal, segundo a ANM (Agência Nacional de Mineração). Em seu site, a empresa anuncia certificações das clientes Sony e Panasonic. A Sony exige controle de substâncias nocivas à saúde, enquanto a Panasonic diz priorizar fornecedores que reduzam impactos e evitem minerais ligados à destruição florestal.

Em 2023, a empresa foi alvo da operação Forja de Hefesto, realizada pela PF (Polícia Federal), por suspeita de comprar minério extraído ilegalmente do território Yanomami. 

“A Forja de Hefesto é a maior operação que já foi feita com relação ao combate à mineração ilegal de cassiterita na Amazônia. Ela identificou uma cadeia criminosa complexa”, afirma André Luiz Porreca, procurador do MPF responsável pela denúncia. 

Segundo a denúncia, o garimpo ilegal avançou de “forma sistêmica” e “em arranjo criminoso” sobre a terra indígena, em uma região conhecida como Pupunha, na bacia do rio Mucajaí. A atividade teria começado em 2018 e se intensificado entre 2020 e 2022. 

“O garimpo é uma atividade industrial muito poderosa, uma estrutura organizada e milionária que destrói a vida, a população, os rios e a terra”, diz Dário Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami, que monitora a região. “O ouro e a cassiterita saem da Terra Indígena e eles [garimpeiros] vendem como se fosse limpo”, alerta a liderança. 

Esquema teria núcleo econômico, logístico e extrativo, diz denúncia

Para o MPF, os elementos indicam de “maneira inequívoca e convergente, a existência de uma organização criminosa estruturalmente consolidada”.  O esquema incluiria o uso de uma aeronave e maquinário para a extração dos minérios, que seriam beneficiados na sede da mineradora em Rondônia. 

Alessandro Torrente, presidente da White Solder na época da operação da PF, foi denunciado como articulador do núcleo comercial e financeiro do esquema. 

Segundo a denúncia, cabia a ele financiar a estrutura, ceder maquinário e contratar a logística de voos clandestinos. Atualmente, o empresário figura como diretor no quadro societário da companhia.  

De Roraima, a cassiterita era enviada para a unidade da White Solder em Ariquemes (RO), fundida e transformada em lingotes de estanho. Dali, os produtos eram comercializados no mercado nacional e internacional. 

De acordo com a denúncia, o dirigente da mineradora teria recebido R$ 2,6 milhões em “spread” – termo usado pela organização para designar os lucros com o suposto esquema. 

“O que a operação Forja de Hefesto mostrou é como a cassiterita extraída de locais não autorizados pode ser inserida com facilidade no mercado regular, inclusive passando pelo processo de beneficiamento, transformada em estanho”, explica Porreca, procurador do MPF. 

A Procuradoria identificou outros dois núcleos: extrativo, com pessoas que geriam a lavra dentro do território, e logístico, que seria operado pelo empresário Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas. 

Segundo o MPF, ele teria comandado o transporte aéreo clandestino por meio das empresas Cataratas Poços Artesianos e Tarp Táxi Aéreo. Ainda de acordo com a denúncia, ele teria recebido pelo menos R$ 19 milhões da conta da cooperativa que funcionava como fachada. 

Cataratas foi candidato a deputado federal em 2022 pelo PL e chegou a abrir uma mineradora de ouro na Guiana, após a intensificação das operações de combate ao garimpo no Brasil. 

Em janeiro deste ano, ele foi condenado à prisão por liderar um grupo criminoso de garimpo ilegal na TI Yanomami, segundo o portal de notícias G1. 

A unidade localizada em Boa Vista (RR) da Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil) é acusada pelo MPF de funcionar como uma empresa de fachada para conferir aparência legal à cassiterita extraída da TI Yanomami. 

Segundo a denúncia, a filial não tinha cooperados atuantes, mas registrava o minério como produção própria. Depois disso, emitia notas fiscais de venda à White Solder e vinculava as cargas a títulos minerários do município de Iracema, em Roraima. A Polícia Federal afirma, no entanto, que as áreas usadas na documentação não eram efetivamente exploradas. 

O MPF também acusa a Coopertin de lavagem dos valores obtidos com a comercialização do minério. A denúncia cita a compra de um imóvel para instalar a sede da cooperativa em Boa Vista, por R$ 2,2 milhões, em agosto de 2023. O vendedor havia comprado o mesmo imóvel por R$ 60 mil, cinco meses antes. 

A Repórter Brasil procurou o empresário Rodrigo de Mello, as empresas Cataratas Poços Artesiano, Tarp Táxi Aéreo e a cooperativa Coopertin por e-mail. Não houve resposta até a publicação.

Garimpo de cassiterita e ouro avançam sobre território

Além da cassiterita, o grupo também explorava ouro. Em junho de 2021, fotografias encontradas no celular do sócio administrador da White Solder, Alessandro Saccoman Torrente, mostram duas barras de ouro de aproximadamente 1 kg, avaliadas em R$600 mil. 

As imagens teriam sido feitas em Boa Vista, de acordo com os metadados das fotos obtidas pela PF. Dois dias depois, as mesmas barras foram fotografadas em Ariquemes, já etiquetadas com peso e teor de pureza, aponta a denúncia. 

Registros no celular do gerente do garimpo revelariam a “existência de produção aurífera integrada à atividade criminosa principal”. Segundo a denúncia, em uma mensagem de maio de 2021, interceptada pela investigação, um integrante da organização teria informado outra pessoa da operação de uma produção semanal de 192,2 gramas de ouro.

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