Unicamp e revista científica abrem apuração sobre estudo financiado por sojeiros sobre agrotóxico

Após investigação da Repórter Brasil, Comissão de Integridade em Pesquisa da universidade e periódico científico vão analisar possíveis conflitos de interesses em pesquisa que minimizou riscos do herbicida a trabalhadores rurais
Por Hélen Freitas | Edição Carlos Juliano Barros

A UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e a revista científica IAJMH (InterAmerican Journal of Medicine and Health) abriram procedimentos para apurar possíveis conflitos de interesses em um estudo que investigou os efeitos da exposição do glifosato, um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, sobre trabalhadores rurais. A decisão ocorre após investigação da Repórter Brasil.

Publicado em 2020, o estudo concluiu que os níveis do herbicida encontrados na urina de trabalhadores do município de Nova Mutum (MT), importante polo produtor de grãos, estavam abaixo dos limites considerados aceitáveis pelos órgãos reguladores brasileiros.

A pesquisa foi financiada pela Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso). Documentos analisados pela reportagem indicam que a entidade participou diretamente de etapas cruciais do trabalho, incluindo a seleção dos trabalhadores, a indicação de laboratórios responsáveis por análises clínicas e a logística de coleta e transporte das amostras.

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“No caso deste artigo, foram apresentados à revista tanto o formulário padrão de declaração de conflitos de interesse quanto o termo de responsabilidade assinado pelos autores, no qual se certifica não haver omissão de vínculos de financiamento ou acordos com partes interessadas na publicação. É justamente a aparente discrepância entre essas declarações e as informações agora noticiadas que motiva a apuração da revista”, afirma André Ricardo Ribas Freitas, editor da IAJMH, em nota enviada à Repórter Brasil.

Os estudos foram conduzidos sob orientação do professor Paulo César Pires Rosa, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp e atual coordenador da graduação em Farmácia.

Durante reunião do Conselho Universitário realizada em abril de 2025, a procuradora-chefe da Unicamp, Fernanda Silvado, afirmou haver “um claro conflito de interesses” nas pesquisas. Em sua avaliação, a Aprosoja-MT era “financiadora e interessada na pesquisa, e ela também escolhia os trabalhadores, os laboratórios que faziam as análises clínicas das amostras”.

O entendimento aparece também no relatório de uma sindicância sobre o caso conduzida pela universidade. O documento concluiu que a associação sojeira, descrita como “financiadora e maior interessada no resultado da pesquisa”, participou da contratação do laboratório responsável pelas análises, da seleção dos trabalhadores rurais e da logística de coleta e envio das amostras.

Diferentemente da sindicância, que analisou a atuação funcional de Rosa e o eventual descumprimento de seu regime de dedicação exclusiva, a nova apuração deverá avaliar aspectos relacionados à integridade científica da pesquisa. O objetivo é verificar se o conflito de interesses identificado pela universidade pode ter comprometido a condução do estudo ou a forma como seus resultados foram apresentados.

Para Sergio Rego, pesquisador da Fiocruz e membro do Comitê de Integridade em Pesquisa da instituição, denúncias sobre potenciais conflitos de interesses justificam novas apurações por parte das universidades.

“Havendo uma suspeita ou uma denúncia, a universidade pode avaliar outros casos para verificar se houve situação semelhante. Se entender que os controles necessários não foram garantidos, pode recomendar a interrupção da pesquisa ou, no caso de estudos já publicados, sua retratação”, afirmou.

A IAJMH informou à Repórter Brasil que também revisará o histórico editorial do artigo científico. 

“A seção de agradecimentos do artigo, tal como submetido e publicado, menciona a Aprosoja-MT em relação ao fornecimento de amostras. Não foi apresentada à revista, durante o processo editorial, informação adicional sobre a seleção dos participantes ou sobre eventual apoio financeiro da entidade além do que constava no manuscrito. A apuração incluirá a verificação de todo o histórico do processo editorial”, afirma o  editor da publicação. Leia a resposta completa.

Como a Aprosoja participou da pesquisa

Os estudos começaram em 2016, quando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) reavaliava o registro de dois dos herbicidas mais utilizados no país: glifosato e paraquate.

Documentos e depoimentos obtidos pela Repórter Brasil indicam que a Aprosoja-MT não se limitou ao financiamento das pesquisas. A entidade também participou da escolha dos trabalhadores rurais incluídos nos estudos, indicou propriedades rurais e auxiliou na logística de coleta e envio das amostras analisadas pela universidade.

Diferentemente do estudo sobre paraquate — suspenso pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp em 2020, após investigação da Repórter Brasil sobre conflito de interesses — a pesquisa sobre glifosato, uma dissertação de mestrado, foi apresentada a uma banca avaliadora e publicada em uma revista científica.

Na dissertação de mestrado defendida em 2018 sob orientação do professor Paulo César Pires Rosa, a autora agradece à Aprosoja-MT pela “parceria, apoio financeiro e contribuição na seleção e na realização das coletas das amostras dos voluntários incluídos neste estudo”.

Naquele mesmo ano, durante uma coletiva de imprensa organizada pela própria Aprosoja-MT, Rosa explicou a participação da entidade. “A Aprosoja arcou com os custos de reagentes e materiais para analisar essas amostras. E o sindicato rural indicou os trabalhadores, segundo os nossos critérios de inclusão e exclusão”, afirmou.

Durante depoimento prestado à universidade, o médico Ângelo Trapé, ex-professor da Unicamp e fundador do Inpes (Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde),entidade que captou recursos para a pesquisa sobre o paraquate — hoje proibido no Brasil —, também confirmou a participação da Aprosoja-MT na seleção dos participantes. 

 “No projeto submetido ao CEP [Comitê de Ética em Pesquisa] da Pós-Graduação constava que seria o indiciado e a aluna quem selecionariam os participantes, mas que, posteriormente, constatou-se uma participação da Aprosoja nessa seleção”, diz um trecho da ata do depoimento do professor aposentado. 

Trapé também relatou que o envio das análises à Unicamp foi feito pela própria associação. A conclusão do comitê foi a de que as práticas configuravam “conflito de interesses”.

Embora a dissertação de mestrado e os depoimentos prestados à universidade descrevam uma ampla participação da Aprosoja-MT na pesquisa, a revista informou que o artigo publicado menciona a entidade apenas em relação ao fornecimento de amostras. 

Processo disciplinar

O nome de Paulo César Pires Rosa já havia sido alvo de apuração interna na universidade. Em agosto de 2025, o Conselho Universitário da Unicamp concluiu que o docente descumpriu o regime de dedicação exclusiva ao prestar serviços ao Inpes, entidade criada por Trapé.

Rosa obteve com agências públicas de fomento cerca de R$ 67 mil em bolsas de mestrado e doutorado, além de outros recursos destinados aos estudos sobre glifosato e paraquate, segundo relatório de atividades encaminhado por ele próprio à universidade. 

Além de uma suspensão de 15 dias, a universidade determinou a devolução de parte dos salários recebidos por Rosa entre 2018 e 2020. O Conselho Universitário concluiu que o professor exerceu sem autorização atividades como diretor científico do Inpes, descumprindo o regime de dedicação exclusiva exigido pela Unicamp. Segundo cálculos da reportagem, o valor cobrado pode chegar a cerca de R$ 200 mil. A devolução dos recursos, porém, está suspensa por decisão judicial, a pedido de Rosa.

Ao longo do processo disciplinar, o professor negou irregularidades. Em mensagens enviadas à Repórter Brasil no ano passado, afirmou que não era o responsável pelas pesquisas. “As pesquisas não foram sobre [sic] minha coordenação, era do prof. Ângelo”, declarou, em referência ao colega Ângelo Trapé.

Nos autos do processo administrativo, Rosa também contestou as conclusões da universidade sobre conflito de interesses. “Embora a Aprosoja tenha participado da escolha dos trabalhadores e laboratórios envolvidos nos estudos, não houve sequer uma ingerência sobre o trabalho realizado”, relatou.

Procurados pela Repórter Brasil, os advogados do professor não responderam aos questionamentos sobre as conclusões da universidade a respeito do conflito de interesses nas pesquisas, sobre eventual devolução de recursos à Unicamp ou sobre a possibilidade de revisão do estudo do glifosato. Em nota, afirmaram apenas que o caso está judicializado e que aguardam o resultado final do processo para eventual manifestação.

Para Sergio Rego, pesquisador da Fiocruz, a existência de um  conflito de interesses não é necessariamente um obstáculo, desde que seja reconhecido e controlado. 

“O grande problema é que muitas pessoas acreditam que esse tipo de influência afeta apenas a prática dos outros, e não a própria”. “Quando esse risco não é reconhecido, ele pode interferir na seleção dos participantes, na análise dos dados e, consequentemente, nos resultados da pesquisa”, complementa.

O estudo do glifosato

A pesquisa analisou amostras de urina de trabalhadores rurais de Nova Mutum (MT), uma das principais regiões produtoras de soja e milho do país. 

Segundo os autores, os resíduos de glifosato foram identificados em apenas 11% das 90 amostras coletadas entre agosto e setembro de 2017. Em todos os casos, as concentrações eram inferiores aos limites considerados aceitáveis por órgãos reguladores nacionais e internacionais.

Durante apresentação dos resultados em 2018, na sede da Aprosoja-MT, Rosa afirmou que o estudo ajudava a “desmistificar” os riscos relacionados ao herbicida. “O glifosato não é cumulativo. Depois de três horas da exposição, é praticamente todo eliminado do organismo. Os resultados mostraram isso de forma inequívoca”, declarou.

Na época, a Anvisa concluía a reavaliação toxicológica da substância. Em 2019, a agência decidiu manter o glifosato no mercado brasileiro, mas determinou alterações na rotulagem, na classificação toxicológica e nas medidas de proteção para trabalhadores expostos ao produto.

A Aprosoja-MT e outras entidades do agronegócio atuaram publicamente em defesa da manutenção do herbicida e divulgaram os resultados do estudo da Unicamp durante aquele debate. A SRB (Sociedade Rural Brasileira), por exemplo, chegou a citar a pesquisa ao defender que não havia justificativas para a proibição da substância.

Procurada pela Repórter Brasil em julho de 2025, a Anvisa afirmou que não utilizou os resultados do estudo da Unicamp em sua reavaliação do glifosato. Segundo a agência, a pesquisa não foi protocolada pela Aprosoja-MT para subsidiar a análise técnica do herbicida e sua publicação ocorreu após a consulta pública realizada em 2019.

A agência informou ainda que a decisão de manter o glifosato no mercado brasileiro foi tomada com base em pareceres técnicos próprios, contribuições recebidas durante a consulta pública, avaliações de consultores externos e análises de agências reguladoras internacionais. Confira a resposta completa.

A controvérsia sobre os efeitos do herbicida continua. Em maio deste ano, o MPT (Ministério Público do Trabalho) ajuizou ação civil pública pedindo o banimento do glifosato no país. A ação sustenta que há evidências suficientes dos riscos da substância à saúde humana e questiona a decisão da Anvisa de manter seu registro.

Para Pedro Luiz Serafim, subprocurador-geral do Trabalho e coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, os fatos revelados pela Repórter Brasil podem justificar novas apurações sobre a relação entre financiamento privado e pesquisas acadêmicas.

“Pode ser a ponta do iceberg. É razoável que o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho ou os órgãos competentes da Unicamp verifiquem se há outros casos semelhantes”, afirma.

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