‘Máfia da tora’ fala em importar rifle dos EUA para matar policiais em terra indígena no Pará

“Catar um por um e dar na cabeça”; em grupo de Whatsapp com pessoas ligadas ao comércio de madeira, membros debatem compra de armamento contra policiais envolvidos na retirada de ocupantes irregulares da Terra Indígena Apyterewa, no Pará
 01/11/2023

Áudios obtidos pela Repórter Brasil e atribuídos a um grupo de WhatsApp chamado “Máfia da Tora” revelam dois homens conversando sobre a compra de armas que seriam usadas contra agentes da Força Nacional e de outros órgãos envolvidos na desintrusão (retirada dos ocupantes irregulares) da Terra Indígena Apyterewa, no Sul do Pará.

Em grupo intitulado “Máfia da Tora”, com 225 pessoas ligadas ao comércio de madeira, membro fala em “receber a bala” policiais envolvidos na desintrusão da TI Apyterewa

Desde 02 de outubro, uma megaoperação autorizada pela Justiça Federal e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) tenta retomar a área destinada ao povo Parakanã, no município de São Félix do Xingu. Invadida por madeireiros e pecuaristas, a Apyterewa foi o território indígena mais desmatado do país durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A expulsão dos ocupantes irregulares e das 60 mil cabeças de gado vem gerando reações de lideranças políticas e econômicas locais.

No grupo de Whatsapp, formado por 225 pessoas ligadas ao comércio de madeira de diferentes estados da região Norte, dois homens conversam sobre a aquisição de armamento para atirar contra os agentes. “A vontade que dá é estar bem localizado com uma [arma] 357, entendeu, catar um por um e dar na cabeça, um satanás desse aí”, afirma um deles.

“Esses caras não têm respeito com ninguém, não, rapaz, esse bando de vagabundo. Na hora que morrer uns dez, aprendem a tratar os outros. A 100 metros de distância, uma 357 boa, eu não erro a cabeça de uma peste dessa…”, prossegue.

Ao comentar a declaração, um segundo homem, que afirma estar nos Estados Unidos, cita um rifle conhecido como “Predator 308” – modelo que, em suas palavras, “já resolvia bem o problema aí”.

“Vou mandar um vídeo aí de um rifle que tem aqui nos Estados Unidos, o 308. Aí no Brasil tem também, mas ele é caro demais. Já resolvia bem o problema aí. Observa o tiro desse rifle para você ver”, afirma, enviando na sequência um vídeo no qual um caçador dispara um tiro contra a cabeça de um veado, no meio da vegetação.

A mensagem é seguida por uma discussão sobre a diferença de preço do produto no Brasil e nos Estados Unidos. O segundo homem afirma que, enquanto a arma custaria cerca de US$ 600 em solo americano, no Brasil seria vendida por aproximadamente R$ 23 mil. Em resposta, o primeiro homem pede ao colega que “embale” um rifle e envie ao Brasil.

“Embala um bicho desse aí, bem embaladinho. Nós temos aqui uma carabina 22, descascada por baixo, de tesoura. Veio daí… O cara colocou dentro de uma caixa de guitarra, embrulhou bem. Veio parar aqui no Brasil, pelo Correio. Podia mandar no meu endereço… que não dá nada, não”, declara ele, acrescentando ainda que a arma não poderia ser registrada, para evitar problemas com fiscalização.

Após a troca de mensagens, uma terceira pessoa comenta o assunto e afirma que o Paraguai pode ser uma opção de destino para adquirir a arma. Ela também ensina como seria possível produzir uma bomba caseira com o uso de explosivos e um cano de PVC, para ser lançada contra as forças policiais.

A Repórter Brasil questionou o comando da operação de desintrusão da Terra Indígena Apyterewa sobre as ameaças. Até o fechamento, não houve resposta – o texto será atualizado, caso seja enviado um posicionamento.

Morte durante a operação

As forças policiais se dividem em duas bases da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) localizadas no interior da Terra Indígena Apyterewa. O maior foco de tensão é a Vila Renascer, comunidade formada por 210 famílias.

A operação de retomada da Terra Indígena começou em 2 de outubro e o prazo dada para a retirada das 60 mil cabeças de gado é até o final do mês (Foto: Fernando Martinho)

Há duas semanas, a Força Nacional assumiu a responsabilidade pela morte de Oseias dos Santos Ribeiro, atingido por um tiro de fuzil. Segundo o comando da operação, a vítima teria tentado desarmar um policial. O episódio representou o pico de tensão da operação e levou à intensificação do lobby de políticos regionais para a paralisação da retomada do território Parakanã.

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Apesar da pressão, os políticos não obtiveram sucesso. O Ministério Público Federal (MPF) pediu o afastamento do prefeito de São Félix do Xingu, João Cléber (MDB). Segundo os procuradores, ele estaria divulgando notícias falsas sobre a paralisação da operação e descumprindo determinações legais para a desintrusão.

O MPF também propôs 31 ações criminais e 17 ações civis públicas contra os pecuaristas instalados na Apyterewa. O MPF pede o pagamento de R$ 76,7 milhões, a título de ressarcimento dos ganhos financeiros obtidos com a comercialização do rebanho irregular e de indenizações por danos morais coletivos.

Nesta terça-feira (31/10), encerrou-se o prazo para que os pecuaristas retirassem o gado do território indígena. Antes do início da operação, a estimativa era de que 60 mil cabeças de gado estivessem pastando na área demarcada para o povo Parakanã.

Gado ilegal abastece grandes frigoríficos

Em 2020, uma investigação da Repórter Brasil mostrou que o gado criado em fazendas localizadas dentro da Apyterewa abasteceu frigoríficos de grande porte, como a Marfrig, e abatedouros regionais, como Frigol e Mercúrio. A prática, no entanto, não cessou. Em 2022, outra investigação da Repórter Brasil revelou que os invasores da terra indígena forneciam gado indiretamente para a JBS.

Gado criado dentro da TI Apyterewa chegou a frigoríficos como Marfrig, Frigol, Mercúrio e JBS, segundo investigações da Repórter Brasil (Foto: João Laet/Repórter Brasil/The Guardian)

A equipe da Repórter Brasil acompanhou os primeiros dias da operação, registrando os momentos de tensão e a retirada do gado. Foram 14 caminhões carregados de bois saindo da terra indígena apenas na segunda-feira (30), segundo o boletim divulgado pela operação.

Situada no sudoeste do Pará, a TI Apyterewa é alvo de madeireiros, grileiros, pecuaristas e garimpeiros ilegais e já perdeu 106.000 hectares de floresta desde a sua criação, em 2007, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dos 773 mil hectares da TI, cerca de 14% do total já foram desmatados. Mais da metade da destruição ocorreu nos últimos quatro anos, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Um levantamento do MapBiomas, a pedido da Repórter Brasil, aponta que aproximadamente 98% da floresta destruída na área deu lugar a pastagens para criação de bovinos.

Além de agentes da Força Nacional, a desintrusão da Terra Indígena Apyterewa conta com a participação de servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e da Polícia Federal.

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Marabá, Pará, Brasil 04/10/2023 Viaturas da Força Nacional em guarda em frente a um restaurante numa das entradas da Vila Renascer. Imagens da operação de desintrusão da Terra Indígena Apyterewa próxima de São Félix do Xingu. A operação conta com a Força Nacional, Polícia Federal, PRF, Exército, Abin, Ibama, Funai e Incra. Fotos Fernando Martinho.