A BEM BRASIL, gigante brasileira do ramo de batata congelada pré-frita, tem entre seus fornecedores produtores rurais alvos de multas e embargos ambientais — incluindo dois de seus donos.
A empresa vende para grandes varejistas do país como Assaí e Atacadão e abastece grandes redes de fast food, como Madero, Bob’s e Johnny Rockets. A lista de fornecedores da Bem Brasil consta em uma oferta pública, de outubro de 2025, de um CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), título financeiro negociado no mercado de capitais.
Segundo o documento que explica a oferta do CRA, o dinheiro obtido com a emissão do título seria usado “integral e exclusivamente” para comprar batatas inglesas dos produtores citados.
Entre eles, estão os acionistas da empresa João Emílio Rocheto e José Paulo Rocheto, dois dos três donos do Grupo Rocheto, controlador da Bem Brasil e fornecedor de 70% das compras de batata in natura, de acordo com a oferta pública.
Segundo informações do site da Bem Brasil, ambos integram o Conselho Administrativo da empresa — João Emílio ocupa o cargo de presidente.
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Em 2024 e 2025, eles receberam multas ambientais que somam mais de R$ 200 mil, segundo informações públicas do Sisema (Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Minas Gerais) consultadas até a publicação desta reportagem.
As sanções foram motivadas, no caso de João Emílio, por operar atividade rural “potencialmente poluidora” sem licenciamento. José Paulo, por sua vez, foi multado por suprimir vegetação sem autorização do órgão ambiental — inclusive em APP (Área de Preservação Permanente).
Ainda segundo o Sisema, João Emílio foi alvo de outras seis autuações ambientais entre 2007 e 2026. Já José Paulo recebeu outras três multas entre 2020 e 2022.
Procurados, a Bem Brasil e os irmãos Rocheto afirmaram que a companhia tem um sistema estruturado de rastreabilidade que “garante o monitoramento das matérias-primas desde a origem até a unidade industrial, com total visibilidade sobre fornecedores e práticas adotadas”.
Também disseram que seus fornecedores passam por “rigoroso processo de homologação, incluindo verificação de conformidade e regularidade junto aos órgãos ambientais”.
Ainda segundo a nota da Bem Brasil, a companhia afirmou que, ao identificar “qualquer potencial de não conformidade, a empresa atua de forma diligente junto aos fornecedores para a devida apuração dos fatos, adoção de medidas corretivas e regularização das situações perante os órgãos competentes”.
A companhia e os irmãos Rocheto não esclareceram se as propriedades autuadas pelo órgão ambiental de Minas Gerais fornecem batata à Bem Brasil. O posicionamento completo pode ser lido aqui.
Mais sanções ambientais
Também de acordo com informações do Sisema, outro fornecedor da Bem Brasil sancionado por danos ambientais é Antonio Roberto Bergamasco, ex-prefeito de Perdizes (2021-2024), município mineiro onde a empresa tem fábrica.
Em 2024, Bergamasco foi multado em R$ 118 mil por operar “atividade potencialmente poluidora ou degradadora do meio ambiente sem autorização”. Em 2023, ele recebeu duas multas — nos valores de R$ 1,9 milhão e R$ 200 mil — e teve áreas embargadas (proibidas para uso).
Ainda segundo consultas ao Sisema realizadas até a publicação desta reportagem, o produtor foi alvo de outras 20 autuações ambientais entre 2013 e 2023.
Procurado pela Repórter Brasil, Bergamasco afirmou, por meio de seus advogados, que firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Feam (Fundação Estadual de Meio Ambiente), órgão do governo mineiro responsável por executar a política de regularização e licenciamento ambiental no estado.
De acordo com a defesa do produtor, o acordo teria autorizado a continuidade das atividades concomitantemente ao processo de regularização ambiental. Ainda segundo o posicionamento, atualmente não haveria mais embargos em nome de Bergamasco.
Procurada, a assessoria da Feam não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Sobre o cultivo de batata, os advogados de Bergamasco afirmaram que o plantio teria se iniciado em abril de 2025, “em momento posterior a todas as autuações mencionadas e já inteiramente sob o amparo do TAC vigente, que permite a continuidade adequada de plantio deste gênero”. A resposta completa pode ser lida aqui.

Também listado na oferta pública de CRA da Bem Brasil como fornecedor de batata, o produtor rural Vicente Roxo Nobre Dias teve duas áreas embargadas em 2024.
De acordo com o sistema de consulta pública do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ele desmatou, sem autorização, um total de 4,1 hectares em uma fazenda na zona rural de Perdizes.
Já Gustavo Guimaraes Vasconcelos, cujo nome também consta no documento, foi multado em R$ 178 mil e teve uma área de sua propriedade embargada por desmatar 24 hectares de mata nativa em 2025, segundo base de dados do Sisema. De acordo com a mesma base, em 2026 ele teria desmatado 24 hectares, recebendo, por esse motivo, uma multa de R$ 20 mil e a determinação de embargo até a regularização. Há, ainda, informações sobre outras cinco autuações, aplicadas entre 2013 e 2022.
Procurados pela Repórter Brasil, Dias e Vasconcelos não responderam até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado em caso de manifestação futura.
Ao ‘vendedor’, as batatas
Na oferta pública do título financeiro, a Bem Brasil afirma que é responsável por metade do mercado de batata pré-frita do país. Entre seus principais clientes, estão as grandes redes varejistas Assaí e Atacadão e as redes de fast food Madero, Bob’s e Johnny Rockets.
Procurado pela reportagem, o Assaí informou que solicitou à Bem Brasil esclarecimentos sobre as sanções ambientais de seus fornecedores e que está avaliando as informações “à luz dos critérios internos de responsabilidade socioambiental”. Também afirmou que seus fornecedores passam por processos de “homologação e monitoramento contínuo”.
Dono do Atacadão, o Grupo Carrefour Brasil também afirmou que notificou a Bem Brasil e “iniciou processo de apuração para verificar a conformidade de suas operações com suas políticas e com a legislação vigente”. O grupo também disse que exige de seus fornecedores a adesão à sua Carta Ética de Fornecedores e às suas políticas de compras responsáveis.
Já o Bob’s respondeu que iniciou uma análise interna sobre possíveis irregularidades ambientais relacionadas à Bem Brasil. E destacou “seu compromisso com a ética, a transparência e a sustentabilidade, conduzindo a análise com a seriedade que o tema exige”.
As redes Johnny Rockets e Madero não se pronunciaram até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso se manifestem.
As respostas completas do Assaí, Atacadão e Bob’s podem ser lidas aqui.
Financiando o agronegócio
Os recursos financeiros obtidos com o título emitido pela Bem Brasil serão destinados para a compra de batata in natura, segundo o documento de oferta do CRA aos investidores.
O título tem a Ecoagro como securitizadora, responsável por estruturar a operação e emitir o CRA, e o Banco Safra como instituição financeira líder da oferta.
À Repórter Brasil, a EcoAgro disse que atuou “exclusivamente como prestadora de serviços de securitização, não tendo exercido a função de estruturadora da oferta”. A securitizadora também afirmou que “se pautou nas diligências conduzidas pelos assessores legais da oferta”. A íntegra da nota pode ser lida aqui.
O escritório Mattos Filho foi o assessor jurídico do Banco Safra na operação. Procurado, preferiu não se pronunciar.
Ao Banco Safra, a Repórter Brasil perguntou como é feita a análise de riscos da operação e se a avaliação da regularidade ambiental da cadeia de fornecedores faz parte do processo.
Também foi questionado se a instituição financeira avalia que os investidores tinham conhecimento sobre os riscos reputacionais associados à existência de autuações ambientais na cadeia produtiva da devedora do título. A instituição financeira não quis se manifestar.

A emissão de CRAs e outros títulos financeiros voltados à produção agropecuária no Brasil tem crescido nos últimos anos. Para Merel van der Mark, coordenadora da Florestas & Finanças, o banco e a securitizadora têm a obrigação de realizar a devida diligência sobre a operação — análise prévia dos créditos, garantias, lastro, riscos jurídicos, financeiros e socioambientais para verificar se o título é consistente e seguro para investidores.
Florestas & Finanças é uma coalizão internacional que monitora financiamentos e avalia as possíveis conexões dessas operações com desmatamento.
“A existência de multas ambientais altas, não só por parte do devedor [a Bem Brasil], mas também por parte dos fornecedores que serão beneficiados pelo CRA, além de criar risco reputacional para o banco e a securitizadora, pode ter impacto na capacidade da devedora de honrar financeiramente as obrigações contidas no CRA, e como tal, cria risco financeiro”, explica van der Mark. “Esse risco é uma informação crucial para investidores e no mínimo deve ser publicado no prospecto [documento de oferta pública do título].”
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