DESTAQUE NO noticiário após doar R$ 1 milhão para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro (PL) em 2022, o produtor rural Oscar Luiz Cervi foi autuado em fiscalização do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) realizada em junho por manter 35 trabalhadores em condições análogas à escravidão na lavoura do algodão na Fazenda Reata, em Campo Novo Parecis (MT).
O empresário, apontado como um dos principais produtores de grãos do país, é fornecedor de grãos da Bunge, segundo vídeo institucional de março deste ano divulgado pela própria multinacional americana.
Na gravação, Cervi afirma ser fornecedor da empresa há 42 anos. Também diz que passaria a vender toda a sua produção de algodão para a companhia por meio da Viterra, multinacional adquirida pela Bunge em 2025.
Bunge e Viterra fornecem matérias-primas para o setor de biocombustíveis e fornecedoras de importantes marcas da moda, como Lacoste, Levi’s e GAP.
Informações apuradas pela Repórter Brasil indicam também o fornecimento de soja e algodão da Fazenda Reata para a unidade da Bunge em Rondonópolis (MT), um dos maiores complexos industriais da companhia no Brasil (leia mais na matéria: “Fazenda com trabalho escravo tem selo de boas práticas e elo com grifes de luxo”).
O flagrante de trabalho escravo, realizado por auditores fiscais do MTE, com apoio da Polícia Federal, ocorreu em 8 de junho. De acordo com informações divulgadas pelo órgão e publicadas pela imprensa, o grupo resgatado atuava no controle manual de plantas daninhas na lavoura de algodão da propriedade, sem o uso de Equipamentos de Proteção Individual.
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A conclusão da fiscalização foi de que os trabalhadores estariam submetidos a condições degradantes de trabalho e moradia, além de restrições à liberdade de locomoção – dois dos quatro elementos que caracterizam o trabalho em condições análogas à escravidão.
O auto de infração contra o produtor foi lavrado pelos auditores-fiscais no último dia 15 de julho. O fazendeiro pode recorrer da autuação em duas instâncias administrativas. Caso a atuação seja confirmada pela pasta, Cervi poderá ser incluído na chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal que torna públicos os dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas pela prática.
Os empregadores permanecem na lista por dois anos, mas podem ser retirados antes caso firmem acordo com o MTE e sejam colocados em uma lista de observação.
A Repórter Brasil procurou a defesa do produtor autuado. “Temos confiança na regularidade de nossos procedimentos e reafirmamos nosso compromisso com o cumprimento da legislação e das melhores práticas”, diz nota assinada pelo Grupo Cervi, que tem Oscar Cervi como sócio-administrador. “As informações e esclarecimentos serão oportunamente apresentados”, prossegue a nota, sem entrar em detalhes questionados pela reportagem.
Já a Bunge afirmou, em nota, ter solicitado informações adicionais ao produtor autuado após tomar conhecimento sobre a “suposta submissão de trabalhadores a condições degradantes” na Fazenda Reata. A multinacional, que também responde pela Viterra, ressaltou que a propriedade é certificada há mais de três anos pela Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês), um dos principais padrões internacionais de certificação de boas práticas socioambientais no setor da soja. Segundo a companhia, a fazenda recebe visitas de auditoria regularmente.
Por fim, a companhia disse seguir acompanhando o caso. “Até que haja conclusão sobre a apuração, a Bunge seguirá acompanhando o caso com a devida diligência, reafirmando seu compromisso de respeito aos direitos humanos, ética, integridade e sustentabilidade”, respondeu. Leia aqui o posicionamento completo da Bunge.
Alojamento cercado por grades
De acordo com a fiscalização, os trabalhadores teriam sido recrutados em Minas Gerais e estavam alojados em contêineres de cerca de 2,40 metros de largura por 6 metros de comprimento, que abrigavam nove pessoas, configurando superlotação.
Nas frentes de trabalho, não havia instalações sanitárias ou espaço para refeições, segundo o órgão. Os trabalhadores comiam sentados no chão, à sombra do ônibus que os levava para a lavoura. A fiscalização também apontou que os banheiros próximos aos contêineres apresentavam condições precárias de higiene e conservação.
Ainda de acordo com a fiscalização, os alojamentos estavam instalados em uma área cercada por grades e arame farpado, submetida a vigilância permanente. Segundo relatos tomados pela fiscalização, um dos vigias da Fazenda Reata teria recebido a orientação de não deixar que o grupo se afastasse da área dos containers.

Os trabalhadores só poderiam receber os valores da passagem de volta caso cumprissem 45 dias de trabalho, de acordo com a auditoria fiscal. Para o MTE, esses elementos indicavam restrição da liberdade de locomoção dos trabalhadores.
A fiscalização também constatou que havia pulverização aérea de agrotóxicos nas mesmas áreas em que as atividades eram exercidas pelo grupo resgatados e em locais próximos ao alojamento.
Ambos os casos configurariam exposição dos trabalhadores a condições de risco grave, segundo avaliação dos auditores fiscais. Trabalhadores relataram à fiscalização sentirem sintomas compatíveis com intoxicação aguda por agrotóxicos, como náuseas, falta de ar, irritação e queimaduras na pele.
Ainda segundo o MTE, representantes da empresa teriam adotado medidas para dificultar o acesso da fiscalização às frentes de trabalho, retardando o início da inspeção trabalhista.
Histórico de infrações ambientais
Um levantamento realizado pelo portal The AgriBiz classificou Cervi como um dos maiores compradores de terras em 2025, ao lado de grandes empresas do agronegócio, como a SLC Agrícola.
Além das irregularidades trabalhistas identificadas na Fazenda Reata, Cervi também tem um histórico de infrações ambientais em outras áreas, segundo o MPMT (Ministério Público do Mato Grosso).
Em julho de 2025, o Ministério Público Estadual moveu uma Ação Civil Pública contra o produtor rural, a Agropecuária Cervi Agro – empresa na qual ele figura como sócio-administrador – e outros representantes da companhia. O órgão apontou um déficit de 6,5 mil hectares de vegetação nativa na área de Reserva Legal da Fazenda Santa Maria, em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso.
O déficit foi identificado pelo MPMT após análise dos dados declarados no CAR (Cadastro Ambiental Rural) de propriedades rurais do estado. O registro eletrônico, obrigatório para todos os imóveis rurais do Brasil, é autodeclaratório.
Para o MPMT, a área, que corresponde a 20% da propriedade, foi “ilicitamente desmatada” e “explorada ilegalmente” por mais de uma década. De acordo com a análise dos promotores, a utilização da Reserva Legal da fazenda, destinada ao cultivo de soja, teria rendido um lucro total de R$ 91 milhões entre 2005 e 2020.

Na ação, o órgão afirma que o “gigantesco passivo ambiental” foi admitido pelos próprios réus à Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso em setembro de 2020. Na ocasião, Oscar Cervi, a empresa e seus outros representantes assinaram um termo de compromisso para compensar a área desmatada.
O MP pediu o pagamento de R$ 210,4 milhões em multas e indenizações a Cervi e aos demais réus da ação, além de exigir a paralisação das atividades na área. Em novembro de 2025, os réus firmaram um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o MP.
Eles se comprometeram a adquirir área não inferior a 3,2 mil hectares de floresta nativa preservada no bioma amazônico no estado do Mato Grosso e a não efetuar novos desmates na propriedade. Com a assinatura do acordo, a ação judicial foi extinta.
Procurado, o produtor e o Grupo Cervi não comentaram o caso.
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