Fazenda com trabalho escravo tem selo de boas práticas e elo com grifes de luxo

Oscar Luiz Cervi, autuado por trabalho escravo em fazenda no Mato Grosso, vende produção para a Bunge; a multinacional americana é dona da Viterra, exportadora de algodão que abastece fornecedores de marcas como GAP, Lacoste e Levi’s
Por Daniela Penha | Edição Poliana Dallabrida

O PRODUTOR rural Oscar Luiz Cervi, autuado em junho por auditores fiscais do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) por submeter 35 pessoas a condições análogas à escravidão numa lavoura de algodão na Fazenda Reata, em Campo Novo Parecis (MT), é fornecedor de longa data da multinacional americana Bunge.

Em um vídeo institucional de março deste ano divulgado pela própria companhia, Cervi afirma ser fornecedor da Bunge há 42 anos, comercializando 100% da sua produção de grãos. Na gravação, também diz que passaria a vender toda a sua produção de algodão para a companhia por meio da Viterra, multinacional canadense adquirida pela Bunge em julho de 2025. 

A Viterra é uma das maiores exportadoras de algodão do mundo. Entre os clientes, estão fábricas na Ásia que integram a cadeia de suprimentos de grandes marcas de moda como GAP, Adidas, Levi Strauss & Co., dona da Levi’s, e a grife Lacoste, segundo dados alfandegários analisados pela Repórter Brasil e listas de fornecedores divulgadas pelas próprias marcas.

O flagrante de trabalho escravo na Fazenda Reata ocorreu no dia 8 de junho. De acordo com informações divulgadas pelo MTE e publicadas pela imprensa, o grupo resgatado atuava no controle manual de plantas daninhas na lavoura de algodão da propriedade.

Segundo a fiscalização, os trabalhadores estavam alojados em contêineres superlotados, instalados em uma área cercada por grades e arame farpado, submetida a vigilância permanente. 

De acordo com a fiscalização, trabalhadores estavam alojados em contêineres de cerca de 2,40 metros de largura por 6 metros de comprimento, que abrigavam nove pessoas, configurando superlotação (Foto: SRTE/MT)
De acordo com a fiscalização, trabalhadores estavam alojados em contêineres de cerca de 2,40 metros de largura por 6 metros de comprimento, que abrigavam nove pessoas, configurando superlotação (Foto: SRTE/MT)

A Repórter Brasil procurou a defesa do produtor autuado. “Temos confiança na regularidade de nossos procedimentos e reafirmamos nosso compromisso com o cumprimento da legislação e das melhores práticas”, diz uma nota assinada pelo Grupo Cervi, que tem Oscar Cervi como sócio-administrador. “As informações e esclarecimentos serão oportunamente apresentados”, prossegue a nota, sem entrar em detalhes questionados pela reportagem.

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Em nota, a Bunge afirmou ter solicitado informações adicionais ao produtor autuado após tomar conhecimento sobre a “suposta submissão de trabalhadores a condições degradantes” na Fazenda Reata. A multinacional, que também responde pela Viterra, ressaltou que a propriedade é certificada há mais de três anos pela Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês), um dos principais padrões internacionais de certificação de boas práticas socioambientais no setor da soja. A fazenda, segundo a nota, recebe regularmente visitas de auditoria. 

Por fim, a companhia disse seguir acompanhando o caso. “Até que haja conclusão sobre a apuração, a Bunge seguirá acompanhando o caso com a devida diligência, reafirmando seu compromisso de respeito aos direitos humanos, ética, integridade e sustentabilidade”, respondeu. Leia aqui o posicionamento completo da Bunge.

Algodão chega às maiores indústrias do mundo 

Em seu site, a Viterra afirma exportar algodão para “alguns dos principais fabricantes têxteis do mundo”. 

Uma delas é a paquistanesa Artistic Milliners, classificada como uma das maiores produtoras mundiais de denim, tecido de algodão utilizado na confecção de peças em jeans. 

Dados alfandegários de janeiro a junho de 2025, os mais recentes disponíveis para análise da Repórter Brasil, mostram que a empresa foi abastecida em ao menos 18 ocasiões com algodão exportado pela Viterra com origem no Brasil. 

A Artistic Milliners, por sua vez, aparece nas listas de fornecedores divulgadas pela Levi Strauss & Co., dona da Levi’s, pela americana GAP e pela PVH, dona das marcas Calvin Klein e Tommy Hilfiger. 

Outra importante produtora do setor é a indiana Maral Overseas, que também adquiriu, ao menos sete vezes, algodão brasileiro exportado pela Viterra no ano passado. A empresa é fornecedora da Adidas, PVH e da marca de luxo Lacoste. 

A reportagem identificou outros dez registros de exportações da Viterra para a paquistanesa Nishat Mills entre fevereiro e junho de 2025. A indústria figura na lista de fornecedores da Lacoste e da GAP.

Levi Strauss & Co., Lacoste, GAP, Adidas e PVH divulgam políticas socioambientais que vetam a exploração de trabalho forçado e violações trabalhistas graves entre seus fornecedores, com regras que alcançam também os subfornecedores de suas cadeias de suprimentos.  

A Repórter Brasil perguntou a todas as empresas mencionadas na reportagem se elas foram abastecidas pela Viterra em 2026 e se poderiam garantir que o algodão produzido na Fazenda Reata, onde ocorreu o caso de trabalho escravo, não integrou em suas cadeias de fornecimento. 

Procuradas via e-mail, nenhuma das indústrias abastecidas pela multinacional do grupo Bunge respondeu aos questionamentos até o fechamento deste texto.

Entre as marcas de moda citadas, Adidas, Lacoste e Levi Strauss & Co. enviaram posicionamentos.

A Adidas esclareceu que a Maral Overseas é uma fornecedora que produz roupas da marca para o mercado indiano e que, após “uma análise abrangente dos registros disponíveis de abastecimento e produção”, pode confirmar que “nenhum algodão importado do Brasil foi utilizado pela fornecedora”. 

A companhia também disse que, “como medida de precaução”, compartilhará as informações apresentadas pela Repórter Brasil com outros fornecedores de materiais da região e solicitará que eles analisem suas próprias cadeias de abastecimento de algodão para identificar possíveis ligações com a propriedade palco do trabalho escravo. “Até o momento, porém, não temos nenhuma indicação de qualquer conexão”, sustenta a marca. 

A Lacoste afirmou que, graças ao seu sistema de rastreabilidade, pode confirmar que nenhum algodão cultivado da Fazenda Reata foi usado em produtos da marca. A grife afirmou ainda que todos os seus fornecedores são obrigados a cumprir o Código de Conduta da companhia. O documento condena qualquer forma de trabalho forçado, obrigatório ou exploratório. 

A Levi Strauss & Co., por sua vez, disse que analisa todas as relações com fornecedores – e seus subfornecedores ou subsidiárias – para identificar a existência de vínculos com casos de trabalho forçado. De acordo com a companhia, “embora uma análise inicial não tenha revelado conexões ativas entre as entidades mencionadas nesta consulta, estamos investigando mais a fundo para garantir que nossos parceiros estejam em total conformidade com nosso Código de Conduta para Fornecedores”. 

O posicionamento completo das marcas citadas pode ser lido aqui

Empresas precisam se comprometer, afirmam especialistas

Há pouco mais de um mês, a Repórter Brasil revelou que uma fornecedora de marcas como Levi’s, Lacoste e Hugo Boss tinha histórico de compras de algodão de uma cooperativa presidida por um produtor rural responsabilizado por trabalho escravo.

Segundo especialistas, os casos de trabalho escravo na cadeia do algodão reforçam a necessidade de que as grandes marcas ampliem o monitoramento e adotem medidas de prevenção.

Para Ilan Fonseca, procurador do MPT (Ministério Público do Trabalho), “há uma preocupação muito grande dessas empresas com a qualidade da mercadoria, mas muito pouca com a dignidade dos trabalhadores que estão na ponta”. 

Fonseca é gerente do projeto Reação em Cadeia, grupo do MPT que investiga violações trabalhistas em cadeias produtivas brasileiras. Segundo ele, as grandes marcas do setor têxtil adotam uma “postura conveniente” ao simplesmente trocar de fornecedor após denúncias de violações.

De acordo com a fiscalização, os trabalhadores teriam sido recrutados em Minas Gerais e relataram sinais de intoxicação por agrotóxicos usados na lavoura de algodão (Foto: SRTE/MT)
De acordo com a fiscalização, os trabalhadores teriam sido recrutados em Minas Gerais e relataram sinais de intoxicação por agrotóxicos usados na lavoura de algodão (Foto: SRTE/MT)

Rafael Pieroni, líder da equipe da ONG Earthsight para a América Latina, afirma que as empresas precisam compreender sua responsabilidade sobre a cadeia produtiva. 

“Deveria ser responsabilidade da empresa de moda saber o que está acontecendo na produção. Talvez elas não saibam porque nunca fizeram essa pergunta nem se interessaram em saber”, diz. “É preciso que entendam que também é dever delas investir em questões socioambientais”. 

Empresa integra programa de sustentabilidade no setor do algodão

A Viterra divulga ser membro da BCI (Better Cotton Initiative), maior programa de sustentabilidade do algodão do mundo. Na lista mais recente divulgada pela BCI, de julho deste ano, a companhia do grupo Bunge, no entanto, não figura entre os associados. 

A própria Fazenda Reata, propriedade onde ocorreu o caso de trabalho escravo, foi licenciada pelo programa nas safras 2022/2023 e 2023/2024. Propriedades que vendem algodão com o selo da BCI devem cumprir regras como cuidado com o solo e água, proteção da biodiversidade e respeito aos direitos trabalhistas. 

Em nota enviada à Repórter Brasil, a BCI confirmou que a Fazenda Reata deixou de ser licenciada pelo programa em 2024, sem apresentar detalhes sobre os motivos da perda do selo de certificação. A Viterra, por sua vez, é membro da BCI desde 2022. Segundo a organização, após a fusão com a Bunge, a associação da Viterra na BCI está registrada sob o nome de Bunge Netherlands BV. 

A BCI esclareceu que, em caso de denúncias de violação ao Código de Conduta para Membros, solicita esclarecimentos ao membro em questão antes de adotar qualquer medida. “Portanto, compartilharemos essas denúncias com a Bunge para obter sua opinião antes de decidir se são necessárias medidas adicionais”, disse a organização. Leia o posicionamento na íntegra aqui.

Fazenda tem selo de boas práticas na produção de soja

A Fazenda Reata integra o grupo de fornecedores da Bunge certificado pela Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês), um dos principais padrões internacionais de certificação de boas práticas socioambientais no setor da soja.

A última avaliação da propriedade ocorreu em julho de 2022, segundo relatório divulgado pela organização responsável pela auditoria do padrão RTRS. Na ocasião, o monitoramento identificou ao menos 15 descumprimentos das regras do programa de certificação.

Segundo o relatório, a administração da Fazenda Reata não teria comprovado o direito de trabalhadoras à licença-maternidade e estabilidade após o retorno, nem a existência de um canal de reclamações para funcionários e comunidades. A propriedade também não comprovou a existência de uma ficha de registro de fornecimento de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

Após esclarecimentos adicionais apresentados pela gerência da fazenda, a certificação da propriedade foi renovada por mais cinco anos.

A reportagem procurou, por email, a representação no Brasil da RTRS, via a gerência regional de desenvolvimento de mercado da organização no Mato Grosso, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Grãos para fábrica de biocombustível

Informações apuradas pela Repórter Brasil indicam também o fornecimento de soja e algodão da Fazenda Reata, já neste ano, para a unidade da Bunge em Rondonópolis (MT), um dos maiores complexos industriais da companhia no Brasil.

Em junho, a Bunge anunciou participação na fabricação do primeiro Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês) produzido a partir de soja brasileira, em parceria com a Petrobras e a Vibra, maior distribuidora de combustíveis do Brasil. 

De acordo com informações divulgadas pela empresa, na operação, a Bunge seria responsável pela originação e certificação da soja e pela produção do óleo vegetal na unidade de Rondonópolis.

Em resposta à Repórter Brasil, a Vibra afirmou ter solicitado esclarecimentos à Bunge sobre os fatos noticiados. A companhia, por sua vez, reforçou à Vibra que a propriedade é certificada pelo padrão RTRS e que pode garantir que a soja produzida na propriedade não integra a cadeia de fornecimento utilizada no projeto de produção de combustível SAF. 

“A Vibra acompanha o tema e, em se confirmando irregularidades que violem nossos princípios e preceitos de integridade empresarial, respeito aos direitos humanos e conformidade aplicáveis à relação contratual, o Compliance e a Governança da companhia adotarão as medidas cabíveis previstas em seus normativos internos”, disse a empresa em nota (íntegra disponível aqui). 

Procurada, a Petrobrás não respondeu os questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem.

 

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