UMA DAS MAIORES indústrias têxteis do mundo, a Vicunha tem histórico de compras de algodão de uma cooperativa presidida por um produtor rural responsabilizado por trabalho escravo. A empresa comercializa tecidos de algodão com companhias que integram as listas de fornecedores de grandes marcas de moda internacionais, como Levi’s, Lacoste e Hugo Boss, de acordo com dados alfandegários analisados pela Repórter Brasil.
Juberto Ferreira Alves, presidente da Coceba (Cooperativa dos Produtores de Algodão do Cerrado Baiano), mantinha 13 trabalhadores em situação análoga à de escravo na fazenda Paulista, em Gilbués (PI), segundo relatório de fiscalização do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), acessado pela Repórter Brasil via Lei de Acesso à Informação. O flagrante aconteceu em novembro de 2023.
Até a publicação desta reportagem, Alves integrava a chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro do governo federal que torna públicos os nomes de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas administrativamente por esse crime.
A Coceba é mencionada em um prospecto de oferta pública de títulos financeiros — no caso, CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) — destinada a captar recursos para a compra de algodão pela Vicunha. O documento é de janeiro de 2024, dois meses após o resgate dos trabalhadores na fazenda do presidente da cooperativa, e lista os fornecedores elegíveis para a aquisição de algodão com os recursos captados.
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Procurada, a Vicunha disse que não mantém relação comercial com a cooperativa desde 2021, sendo ela “uma potencial fornecedora” que “pode ser acionada conforme condição de mercado”. A empresa ressaltou ainda que a Coceba atende aos seus parâmetros de compliance e “não figura em nenhuma lista de empresas com irregularidades”.
A cooperativa, por sua vez, afirmou à reportagem que Juberto Ferreira Alves não produz algodão atualmente e não forneceu para a Coceba “nos últimos anos”. A associação disse ainda consultar a Lista Suja do trabalho escravo antes do início de cada safra anual e verificar “se algum cooperado foi incluso na mesma”. (Leia aqui as respostas na íntegra).
A Repórter Brasil tentou contato com Alves, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
Os trabalhadores resgatados faziam a limpeza do solo para o plantio, conforme o relatório de fiscalização sobre o caso. De acordo com o documento, eles trabalhavam sem registro em carteira, não recebiam equipamentos de proteção, eram transportados diariamente para a fazenda na carroceria aberta de uma camionete e não tinham sequer banheiros no campo. Alguns deles não recebiam botas e trabalhavam de chinelo. Alves firmou um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPT (Ministério Público do Trabalho) e pagou R$ 65 mil em indenizações por danos morais coletivos.

Gigante global
Com slogan “Do Brasil para o mundo”, a Vicunha afirma que seus produtos são distribuídos em mais de 20 países e diz estar “entre os maiores produtores de denim e denim colour do planeta”, tecidos usados na fabricação de roupas jeans. Em seu relatório de sustentabilidade de 2024, a Vicunha afirma que seu Código de Ética e Conduta “proíbe qualquer vínculo com fornecedores que utilizem mão de obra infantil ou análoga ao trabalho escravo”.
Desde 2011, a empresa integra a BCI (Better Cotton Initiative), maior programa de sustentabilidade do algodão do mundo, conforme informações da própria organização e também divulgadas pela empresa.
Questionada, a BCI informou que o “Código de Conduta para Membros” exige que todos seus membros da BCI “observem as normas internacionalmente reconhecidas relativas ao trabalho decente e aos direitos humanos” e que quando violações são comprovadas, a associação pode ser suspensa ou encerrada. A BCI afirmou ainda que está em contato com a Vicunha para “compartilhar a alegação e solicitar sua explicação” e que, em seguida, decidirão “quais serão os próximos passos”.
Segundo a Coceba, “estando com contratos de fornecimento com empresas membros da Better Cotton Initiative (BCI), como é o caso da Vicunha, a Coceba tem o compromisso, expresso nos contratos, de informar qualquer parecer negativo do produtor contratado, deixando a cargo da empresa as providências a serem tomadas, inclusive com o cancelamento de contrato por justa causa”. (Leia aqui as respostas na íntegra)
Grandes marcas internacionais na cadeia de fornecimento
De acordo com os dados alfandegários analisados pela Repórter Brasil, entre fevereiro e agosto de 2025 a Vicunha exportou algodão e tecido de algodão para a Expofaro, empresa que consta na lista de fornecedores da Levi’s. Em 2024, a Levi’s informou ter adquirido da Expofaro a operação da sua marca na Colômbia.
Procurada pela reportagem, a Levi’s afirmou que “trata com seriedade quaisquer alegações relacionadas à cadeia de suprimentos e irá analisar o caso de acordo com as políticas e procedimentos estabelecidos pela companhia”. E que “deixa claro para todos os fornecedores globalmente que não aceita quaisquer materiais produzidos por trabalho forçado ou gerenciados por entidades envolvidas neste tipo de atuação”. (Leia aqui as respostas na íntegra)
Também procurada, a Expofaro não respondeu aos questionamentos enviados.

Em agosto de 2025, de acordo com documentos alfandegários acessados pela reportagem, a Vicunha exportou tecidos de algodão para a Crystal SAS, empresa têxtil colombiana que integra a mais recente relação de fornecedores divulgada pela Lacoste.
Já entre abril e setembro de 2025, a Vicunha exportou tecidos de algodão para a Akay Lelmalabis Elgahizah, empresa egípcia que consta na lista de fornecedores da Hugo Boss.
Questionada, a Lacoste disse poder confirmar, “com base nas investigações realizadas até o momento”, que o algodão utilizado em seus produtos não provém da Coceba. Segunda a nota enviada à Repórter Brasil, ainda assim a marca está em contato com o fornecedor para “esclarecer a situação e reiterar” suas exigências.
A Hugo Boss disse à reportagem que entrará em contato com a Akay Lelmalabis Elgahizah “para obter mais esclarecimentos e discutir medidas, quando necessário” e que tomará “as medidas adequadas para garantir a conformidade com nossos padrões”. (Leia aqui as respostas na íntegra)
Também procuradas pela reportagem, a Crystal SAS e a Akay não responderam aos questionamentos enviados.
Especialistas cobram que empresas monitorem cadeia produtiva
Para o procurador do Trabalho Ilan Fonseca, companhias que monitoram de perto a qualidade da matéria-prima que compram também teriam, em tese, condições de controlar as relações de trabalho relacionadas à produção. Segundo ele, isso implicaria em “fiscalizações preventivas, exigências maiores de documentos, idas a campo, cláusulas contratuais que prevejam penalidades para esses fornecedores, canais de denúncia e que não se fique apenas na postura reativa”, diz.
Fonseca é o gerente do projeto Reação em Cadeia, do Ministério Público do Trabalho, que em abril iniciou processos judiciais contra empresas como a JBS e a Cargill pelo uso de mão de obra análoga à escravidão em suas redes de fornecedores.
Na avaliação de Rafael Pieroni, da ONG Earthsight para a América Latina, é preciso que as empresas se comprometam em conhecer a origem dos produtos que utilizam. Em abril de 2024, a Earthsight publicou o relatório “Crimes da Moda”, revelando relações entre grandes empresas do setor e infrações socioambientais na cadeia do algodão.
“As empresas precisam se comprometer em entender a cadeia de produção, investir em transparência, mas os governos não devem esperar que as empresas façam isso por conta própria. Eles precisam trazer legislações que obriguem que essas empresas realmente façam o dever de casa”, analisa Pieroni.
25 anos investigando para mudar.
A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.
Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!
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