Síntese das Atividades da Repórter Brasil em 2025

Desde 2001, quando foi fundada, a Repórter Brasil fomenta a reflexão e a ação sobre as violações dos direitos fundamentais dos povos e trabalhadores no Brasil. Suas reportagens, pesquisas e metodologias educacionais têm sido usadas por lideranças do poder público, do setor empresarial e de movimentos sociais como instrumentos para mudar a sociedade. Por seu trabalho, a organização tornou-se uma das mais importantes fontes de informação sobre trabalho escravo e tráfico de pessoas no país.

 

A Repórter Brasil mantém três programas permanentes, com lideranças e equipes próprias: o Programa de Jornalismo e o Programa de Pesquisa e Impacto Social são responsáveis pela produção de informações e análises que subsidiam campanhas e novas políticas públicas e corporativas; e o Programa de Educação e Políticas Públicas está voltado para difusão de conteúdos sobre direitos e intercâmbio de conhecimento, envolvendo acadêmicos, educadores, trabalhadores e lideranças comunitárias.


A Repórter Brasil tem suas contas analisadas por auditoria independente anualmente, que fica disponíveis na página de Transparência. Além disso, todas as informações sobre a organização, sua estrutura, atividades e contas estão disponíveis em reporterbrasil.org.br/quem-somos.

 

ÁREA I: PROGRAMA DE EDUCAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS 

A área de Educação da Repórter Brasil é dedicada à realização de projetos de prevenção ao trabalho escravo, por meio de ações educacionais. Sua principal iniciativa é a implementação do programa Escravo, nem pensar!, dedicado à formação de servidores públicos, representantes sindicais e de entidades da sociedade civil sobre essa temática e assuntos correlatos. O programa atua nos principais territórios em que trabalhadores são aliciados e escravizados.

1. Formações

Em 2025, a Gerência de Educação e Políticas Públicas, por meio do programa Escravo, nem pensar!, deu continuidade e ampliou suas formações voltadas à prevenção do trabalho escravo contemporâneo, com iniciativas direcionadas às áreas de Educação, Assistência Social e Segurança Pública. Ao longo do ano, foram realizados processos formativos em estados estratégicos para a erradicação desse crime, seja por serem importantes polos de aliciamento, como Piauí, Maranhão e Mato Grosso do Sul, por concentrarem elevado número de ocorrências em seu território, como o Pará, ou por ainda apresentarem baixa visibilidade nas discussões sobre o tema, como o Amazonas. Nesse processo, também se consolidaram metodologias específicas para diferentes públicos e contextos institucionais. Entre os destaques do período, está a realização da primeira formação voltada à Polícia Militar, no Maranhão, marco importante dentro da frente de formações para a Segurança Pública e que representa a ampliação da atuação da Repórter Brasil junto a agentes estatais estratégicos no combate ao trabalho escravo.

1.1. Escravo, nem pensar! no Piauí – Formação para a Educação – 2025

Objetivo: Sensibilizar e capacitar a rede educacional para o desenvolvimento de projetos pedagógicos sobre trabalho escravo e violações correlatas nas escolas, com vistas à prevenção dessa prática criminosa.

Beneficiários: 62.412 pessoas prevenidas do trabalho escravo, sendo 2.739 educadores, 37.987 estudantes, 1.641 demais funcionários de escolas e 20.051 pessoas da comunidade extraescolar. Foram alcançadas 242 escolas em 76 municípios.

Parcerias: Secretaria de Estado de Educação do Piauí, Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Piauí (Coetrae-PI), Comissão Pastoral da Terra e Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais.

Status: Finalizada.

1.2. Escravo, nem pensar! no Maranhão – Formação para a Assistência Social – 2025

Objetivo: Fortalecer a atuação da rede socioassistencial para a prevenção e o atendimento a vítimas de trabalho escravo e violações correlatas.

Beneficiários: 3.731 pessoas prevenidas do trabalho escravo, sendo 728 profissionais da Assistência Social e 3.003 usuários e profissionais de outras áreas dos territórios. Foram alcançadas 71 unidades socioassistenciais em 61 municípios.

Parcerias: Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social do Maranhão, Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Maranhão (Coetrae-MA) e Ori Consultoria.

Status: Finalizada.

1.3. Escravo, nem pensar! no Maranhão – Formação para a Educação – 2025

Objetivo: Sensibilizar e capacitar a rede educacional para o desenvolvimento de projetos pedagógicos sobre trabalho escravo e violações correlatas nas escolas, com vistas à prevenção dessa prática criminosa.

Beneficiários: 19.078 pessoas prevenidas do trabalho escravo, sendo 1.419 educadores, 11.008 estudantes, 113 demais funcionários de escolas e 6.538 pessoas da comunidade extraescolar. Foram alcançadas 34 escolas em 28 municípios.

Parcerias: Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão e Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Maranhão (Coetrae-MA).

Status: Finalizada.

1.4. Escravo, nem pensar! no Maranhão – Formação para a Segurança Pública – 2025

Objetivo: Preparar policiais militares da Polícia Militar do Maranhão para atuar em casos de trabalho escravo de acordo com o Fluxo Nacional de Atendimento às Vítimas de Trabalho Escravo.

Beneficiários: 134 policiais militares da Polícia Militar do Maranhão formados pelo projeto.

Parcerias: Secretaria de Estado de Segurança Pública do Maranhão e Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Maranhão (Coetrae-MA).

Status: Finalizada.

1.5. Escravo, nem pensar! no Pará – Formação para a Assistência Social – 2025

Objetivo: Fortalecer a atuação da rede socioassistencial para a prevenção e o atendimento a vítimas de trabalho escravo e violações correlatas.

Beneficiários: 76 profissionais da Assistência Social. Foram alcançadas 20 unidades socioassistenciais de 17 municípios.

Parceria: Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda do Pará.

Status: Finalizada.

1.6. Escravo, nem pensar! no Amazonas – Formação para a Assistência Social – 2025

Objetivo: Fortalecer a atuação da rede socioassistencial para a prevenção e o atendimento a vítimas de trabalho escravo e violações correlatas.

Beneficiários: 59 profissionais da Assistência Social. Foram alcançadas 16 unidades socioassistenciais de 23 municípios.

Parceria: Secretaria de Estado de Assistência Social do Amazonas.

Status: Finalizada.

1.7. Escravo, nem pensar! no Mato Grosso do Sul – Formação para a Assistência Social – 2025/2026

Objetivo: Fortalecer a atuação da rede socioassistencial para a prevenção e o atendimento a vítimas de trabalho escravo e violações correlatas.

Beneficiários: 69 profissionais da Assistência Social. Foram alcançadas 15 unidades socioassistenciais de 15 municípios.

Parceria: Secretaria de Estado de Assistência Social do Amazonas, Comissão Pastoral da Terra e Movimento Xingu Vivo para Sempre.

Status: Em andamento.

1.8. Escravo, nem pensar! no Pará – Formação para a Educação – 2025/2026

Objetivo: Sensibilizar e capacitar a rede educacional para o desenvolvimento de projetos pedagógicos sobre trabalho escravo e violações correlatas nas escolas, com vistas à prevenção dessa prática criminosa.

Beneficiários: 26 gestores e técnicos da Educação formados diretamente pelo projeto.

Parceria: Secretaria de Estado da Educação do Pará, Comissão Pastoral da Terra e Movimento Xingu Vivo para Sempre.

Status: Em andamento.

1.9. Escravo, nem pensar! – Formação para lideranças sindicais de trabalhadores assalariados e assalariadas rurais sobre trabalho escravo e assuntos correlatos

Objetivo: Capacitar lideranças sindicais de trabalhadores assalariados e assalariadas rurais para atuar em casos de trabalho escravo. 

Beneficiários: 11 gestores e técnicos da Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais

Parcerias: Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais

Status: Finalizada

 

2. Incidência política e sensibilização para a implementação de projetos educacionais

Em 2025, a Repórter Brasil desenvolveu atividades de incidência política e sensibilização voltadas à viabilização de projetos educacionais de prevenção ao trabalho escravo. O objetivo é assegurar a implementação do programa Escravo, nem pensar!, por meio da apresentação de propostas a secretarias de governo e da construção de parcerias locais com atores relevantes do poder público e da sociedade civil. A definição dos estados priorizados levou em conta diferentes fatores, como incidência de trabalho escravo e aliciamento de trabalhadores, a existência de redes de instituições já mobilizadas para o combate do problema e a demanda de fortalecimento de ações de prevenção, combate e assistência às vítimas em políticas setoriais, como Educação, Assistência Social, Saúde e Segurança Pública.  Segue abaixo a relação de proposições de projetos realizadas:

 

Estado

Área

Órgão gestor

Alagoas

Assistência Social

Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seades-AL)

Bahia

Assistência Social

Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seades-BA)

Maranhão

Segurança Pública

Secretaria de Segurança Pública
(SSP-MA)

Mato Grosso do Sul

Assistência Social

Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos (Sead-MS)

Pará

Saúde

Secretarias municipais de Saúde

Piauí

Assistência Social

Secretaria do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (Sasc-PI)

Piauí

Educação

Secretaria de Educação (Seduc-PI)

Rio Grande do Sul

Assistência Social

Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-RS)

 

3. Produção de conteúdo do programa Escravo, nem pensar!

Em 2025, o programa Escravo, nem pensar! produziu e disponibilizou novos materiais pedagógicos e informativos voltados à prevenção do trabalho escravo contemporâneo e ao fortalecimento das redes de combate e assistência a vítimas. Entre os destaques, está o lançamento da publicação Trabalho escravo doméstico: Estratégias para o atendimento de vítimas no pós-resgate, além da reimpressão de três títulos atualizados sobre trabalho escravo na Amazônia, gênero e extrativismo vegetal. A produção também incluiu a realização do podcast Histórias de Combate ao Trabalho Escravo, série em cinco episódios que reúne relatos de pessoas que combatem ou já combateram essa grave violação dos direitos humanos no Brasil, com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2026.

3.1. Produção de Conteúdo

A publicação aborda de forma detalhada e sensível as estratégias de pós-resgate para vítimas de trabalho escravo doméstico, destacando a importância de acolhimento especializado e humanizado. Por meio de casos reais, apresenta procedimentos para responsabilizar os exploradores e indica possibilidades de reparação das vítimas. Expõe as complexidades enfrentadas por essas trabalhadoras, desde a dificuldade de acesso a direitos básicos até os desafios na reintegração social e econômica. Por fim, enfatiza-se necessidade de políticas públicas robustas e de uma rede de apoio que compreenda as especificidades das vítimas, visando à garantia de uma vida digna e livre de exploração.

Tiragem: 3 mil exemplares.

Parcerias: Global Fund to End Modern Slavery e Escritório do Departamento de Estado dos Estados Unidos para Monitorar e Combater o Tráfico de Pessoas (JTIP).

3.2. Reimpressões

Tiragem: 5 mil exemplares

Tiragem: 5 mil exemplares

Tiragem: 5 mil exemplares

3.3. Histórias de combate ao trabalho escravo (Podcast)

Em 2025, a Repórter Brasil produziu o podcast Histórias de Combate ao Trabalho Escravo. A série reúne, em cinco episódios, relatos de pessoas que atuam ou já atuaram no combate a essa violação de direitos no país. A produção entra no dia a dia dos resgates, abordando as dúvidas, os medos e as motivações de quem realiza esse trabalho. Nesta primeira temporada, são entrevistados auditores(as) e procuradores(as) do Trabalho. O lançamento do material está previsto para o primeiro trimestre de 2026.

4. Área de Políticas Públicas

A área de Política Pública da Repórter Brasil é dedicada a ações de incidência e produção de conhecimento para aprimorar a política de erradicação de trabalho escravo e políticas setoriais que contribuem para erradicação dessa violação, como Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde. Para isso, a organização atua em fóruns de formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas nos níveis federal, estadual e municipal, como a Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), a Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo de São Paulo (Coetrae-SP) e a Comissão Municipal para a Erradicação do Trabalho Escravo de São Paulo (Comtrae-SP). Também produz conteúdo especializado, estudos e análises baseados em dados, com o objetivo de subsidiar o poder público e fortalecer estratégias de prevenção, assistência à vítima e combate ao trabalho escravo.

 

4.1. Representações em instâncias participativas

Em 2025, a Gerência de Educação e Política Pública representou a Repórter Brasil, enquanto membro da sociedade civil, nas Comissões para Erradicação do Trabalho Escravo em três níveis federativos: nacional, estadual e municipal, sendo as duas últimas referentes ao estado e ao município de São Paulo.

 

  • Conatrae (Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo)

Em 2025, a Conatrae passou por um processo eleitoral para renovação de seus assentos destinados à sociedade civil, resultando na escolha de novas organizações representantes. A Repórter Brasil foi eleita para integrar a comissão junto a sete outras entidades.

No mesmo ano, o Comitê Diretivo da Conatrae para a elaboração do III PNETE, do qual a Repórter Brasil faz parte, finalizou a minuta do III Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo. A previsão é que o documento seja aprovado em 2026

 

  • Coetrae-SP (Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo de São Paulo

No âmbito da Coetrae-SP, a Repórter Brasil acompanhou as atividades da comissão e participou de ações de mobilização e sensibilização promovidas ao longo do ano. Entre elas, esteve a participação na campanha de combate à exploração sexual e o tráfico de mulheres e crianças, violações de direitos relacionadas a contextos de trabalho escravo. A campanha foi desenvolvida em parceria com a Polícia Rodoviária Federal.

 

  • Comtrae-SP (Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Escravo de São Paulo)

Na Comtrae-SP, a Repórter Brasil acompanhou as atividades da comissão e participou de oficinas e seminários voltados à formação de servidoras e servidores públicos, especialmente das áreas de saúde e assistência social. As atividades buscaram fortalecer a identificação de situações de exploração laboral e a atuação da rede pública no combate ao trabalho escravo contemporâneo.

4.2. Visita do Relator Especial da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão ao Brasil

Em 2025, a Repórter Brasil contribuiu para a missão do relator da ONU sobre trabalho escravo, Tomoya Obokata, ao Brasil ao indicar localidades prioritárias para visita e articular contatos com órgãos públicos e organizações da sociedade civil nos estados do Pará, Maranhão, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. A organização também se reuniu com o relator em São Paulo e no Pará e, em parceria com a Comissão Pastoral da Terra e o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, ajudou a organizar uma reunião de entidades da sociedade civil em Marabá (PA), reunindo organizações da Amazônia para apresentar ao relator os principais desafios da erradicação do trabalho escravo. A atuação contribuiu para qualificar a agenda da missão e oferecer um panorama mais detalhado da realidade brasileira, com destaque para temas como gênero, desmatamento, mineração, cadeias produtivas, terceirização e mecanismos de responsabilização no tema do trabalho escravo.

4.3. Projeto Perfil Resgatado

O Perfil Resgatado é um projeto de tratamento e análise de dados inéditos sobre o trabalho escravo no Brasil. A iniciativa mapeia as rotas migratórias de trabalhadores submetidos ao problema, conectando as origens e os destinos de exploração dos resgatados. Também analisa dados sobre gênero, raça, idade e escolaridade das vítimas, bem como das atividades econômicas em que foram escravizadas. O levantamento visa a subsidiar políticas públicas para a erradicação do trabalho escravo, prevenindo novas violações e garantindo a integração social e econômica dos resgatados. O projeto é uma realização da Repórter Brasil em parceria com a Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego.

 

 

Esta nota técnica faz parte do projeto Perfil Resgatado – Rotas migratórias e a morfologia do trabalho escravo no Brasil. O foco é o estado do Maranhão, principal emissor de trabalhadores submetidos a essa prática em todo o Brasil. Com dados inéditos, o estudo mapeia fluxos migratórios e traça o perfil das vítimas, revelando padrões de exploração laboral na série histórica e nos últimos dez anos. A iniciativa da Repórter Brasil, em parceria com a Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, busca subsidiar políticas públicas para a erradicação do problema.

Tiragem: Virtual.

Parcerias: Ministério do Trabalho e Emprego e The Freedom Fund.

5. Produção Acadêmica

A produção acadêmica vinculada à Gerência de Educação e Políticas Públicas reúne artigos, pesquisas e outras publicações que analisam, aprofundam e dão visibilidade aos temas abordados pela área, com destaque para o trabalho escravo. Esses materiais contribuem não apenas para o debate acadêmico, como também subsidiam a política pública de erradicação do problema. As publicações da Gerência, bem como estudos produzidos por outros autores sobre sua atuação, estão disponíveis na seção pesquisa acadêmica da biblioteca virtual da área.

5.1. Publicação de artigos

  • A institucionalização do tema do trabalho escravo na Educação: a metodologia do programa Escravo, nem pensar!

 

Este artigo analisa a metodologia de formação de servidores da educação sobre o tema do trabalho escravo do programa Escravo, Nem Pensar! (ENP!), da Repórter Brasil. O objetivo é verificar o impacto dessa abordagem, que enseja o engajamento das escolas, provocando as secretarias a incluir a temática de modo institucional na rede de ensino por meio de sua inclusão nos documentos curriculares. Para isso, é realizado um estudo das redes estaduais do Maranhão e de Tocantins, que receberam a formação do ENP! entre 2015 e 2021. A metodologia utilizada consiste na análise dos resultados dos projetos de formação por meio de publicações do programa sobre o tema e da realização de entrevistas semiestruturadas com atores relevantes. Conclui-se que a metodologia do ENP! contribui diretamente para a institucionalização do assunto.

Palavras-chave: Trabalho escravo. Educação. Política pública. Prevenção. Institucionalização.

Autoria: Rodrigo Teruel e Vitor Camargo de Melo.

Publicação: Revista Direitos, Trabalho e Política Social, v. 11, n. 20, jan/jun 2025. A revista é vinculada à Universidade Federal de Mato Grosso.

ÁREA II: JORNALISMO E PESQUISA

Agência de notícias da Repórter Brasil

A fiscalização e o monitoramento de empresas privadas continuam sendo uma marca da Repórter Brasil, e nosso trabalho em 2025 não foi diferente. As investigações com maior impacto influenciaram grandes grupos privados a mudar seu comportamento. Reportagens inéditas promoveram mudanças concretas no funcionamento de empresas que lucram com violações trabalhistas e socioambientais. Em todos esses casos, houve também avanço em fazer com que as autoridades públicas reconhecessem as violações e tomassem medidas efetivas e céleres para garantir os direitos de grupos vulneráveis.

Durante 2025, a Repórter Brasil publicou 320 matérias, divididas em seis editorias: direitos humanos, mundo do trabalho, povos tradicionais, questão agrária, socioambiental e trabalho escravo. Além disso, publicou quatro páginas especiais: Calor extremo nas escolas, Trabalho infantil na indústria tech, Fazenda Volkswagen, Repórter Brasil na COP30.

Em 2025, a Repórter Brasil foi reconhecida por premiações nacionais e internacionais pelas suas reportagens. O especial “Opacidade Dourada: mecanismos do tráfico de ouro latino-americano” foi vencedor do Prêmio Internacional Rei da Espanha de Jornalismo 2025 na categoria “Jornalismo Narrativo”. Além disso, a Repórter Brasil ganhou o 47º Prêmio Vladimir Herzog na categoria “Texto” pelo especial Trabalho infantil na indústria tech. Ainda em 2025, recebeu a Menção Honrosa na categoria “Multimídia” do 47º Prêmio Vladimir Herzog pelo especial Ogronegócio: milícia e golpismo na Amazônia.

 
Impacto

O trabalho infantil de influenciadores mirins no Youtube e no TikTok

Dando continuidade à série sobre trabalho infantil na indústria de tecnologia de 2024, a repórter Isabel Harari se aprofundou nas histórias das crianças e adolescentes que realizam atividades artísticas nas redes sociais. O vácuo na regulamentação e fiscalização de plataformas como YouTube e TikTok permite que os influenciadores mirins façam publicidade e, até mesmo, anúncio de jogos de azar.

 

PL do Veneno, PL da Devastação

Durante o terceiro mandato de Lula, o governo enfrentou uma série de derrotas na proteção ambiental lideradas pelo Congresso, sobretudo pela bancada ruralista. Em maio, os parlamentares derrubaram o veto do presidente na chamada pelos ambientalistas de “Lei dos Venenos”, nova lei dos agrotóxicos. O texto alterou o sistema de aprovação de agrotóxicos, tirando o poder do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Com a derrubada dos vetos, a palavra final na liberação de pesticidas ficou inteiramente nas mãos do Ministério da Agricultura.

No segundo semestre, foi a vez de o Congresso atender a interesses de mineradoras e do agronegócio para reformar o processo de licenciamento ambiental do país. Basicamente, o texto permite que empreendimentos obtenham licenças de forma automática, apenas com base na autodeclaração do empreendedor, sem necessidade de análises técnicas prévias. A única exceção é para casos classificados como de “alto risco ambiental”. Especialistas apontam que o PL compromete a prevenção de danos ambientais e enfraquece a capacidade de fiscalização dos órgãos competentes.

 

A foto do trabalhador espancado em uma carvoaria ligada à Toyota

Em setembro, o repórter especial Daniel Camargos trouxe à tona um caso de trabalho escravo que revela a conexão improvável entre uma carvoaria do interior do Maranhão, uma siderúrgica do coração da Amazônia e a montadora de automóveis Toyota.

O ponto de partida da investigação foram as fotos de um trabalhador espancado e amarrado em um alojamento de uma carvoaria, em julho de 2021. Quatro anos depois, Camargos viajou até o Maranhão para conectar os pontos da foto esquecida em um relatório de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, e mostrar como o carvão abastecia a Viena Siderúrgica. Que por sua vez abastece de ferro-gusa, uma liga metálica com várias aplicações, plantas industriais da Toyota nos Estados Unidos.

 

Comunidade de MG é reconhecida como quilombola após matéria da Repórter Brasil

Após meses de tensão e incerteza, Santa Quitéria, em Congonhas (MG), conquistou uma importante vitória: foi oficialmente reconhecida como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, órgão ligado ao Ministério da Cultura.

A decisão ocorre meses após reportagem da Repórter Brasil revelar a ameaça de desapropriação de 261 hectares para o depósito de rejeitos de minério de ferro pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), autorizada por decreto do governador de Minas Gerais Romeu Zema.

 

Após denúncia da Repórter Brasil, Incra faz pente-fino em assentamento no MT

O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) criou um grupo de trabalho para revisar cadastros de beneficiários da reforma agrária no Mato Grosso. A medida foi anunciada dias após a Repórter Brasil revelar que nomes sem perfil compatível foram incluídos no Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, no norte do estado.

 

Indígenas isolados na Amazônia, mas cercados por minerais críticos

Atividade econômica estratégica, discutida pessoalmente entre os presidentes Lula (Brasil) e Donald Trump (Estados Unidos), a exploração  dos  chamados  “minerais  críticos”,  como são conhecidas as substâncias usadas em produtos como chips, torres eólicas e carros elétricos, pode afetar ao menos 45 povos indígenas isolados na Amazônia Legal.

Um levantamento exclusivo da Repórter Brasil apontou 1.827 pedidos de mineração de cobre, lítio, terras raras e outros 13 elementos — usados sobretudo na indústria de tecnologia — a menos de 40 km de grupos indígenas isolados. A essa distância, as atividades minerárias representam um risco para a integridade desses povos, afirma o OPI (Observatório dos Povos Indígenas Isolados), organização de defesa dos direitos dessas comunidades.

A reportagem faz parte de um projeto de investigação da jornalista Isabel Harari, da Repórter Brasil, com o apoio da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

 

O trabalho precário na colheita de café na Colômbia

Numa investigação internacional, a repórter e editora Poliana Dallabrida revelou como o café colombiano — incensado como um dos melhores do mundo — também é marcado por denúncias de violações trabalhistas e de direitos humanos em sua cadeia de produção. Segundo um estudo de 2022 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a informalidade na colheita de café da Colômbia pode superar os 80%. Sem registro, tampouco há garantia de direitos como aposentadoria, licença maternidade e proteção em caso de doenças e acidentes.

A reportagem alcançou grande repercussão em veículos de mídia internacional e gerou anúncios de certificadoras cobrando melhorias nas condições trabalhistas de fazendas de café do país, incluindo reformas em alojamentos.

 

O ‘diesel verde’ ligado a desmatamento

Documentos obtidos pelo repórter Murilo Pajolla demonstram como a DGD (Diamond Green Diesel), empresa dos Estados Unidos líder na produção de diesel feito a partir de fontes renováveis, importou sebo bovino de um fornecedor abastecido por indústrias de abate brasileiras, que compraram de fazendas autuadas por desmatamento ilegal.

A Repórter Brasil identificou conexões da DGD com frigoríficos que compraram animais de pecuaristas multados por práticas associadas ao desmate ilegal de grandes áreas.

 

A cobertura especial da COP30, em Belém

A Repórter Brasil também marcou presença na COP30, a 30ª Conferência do Clima da ONU, realizada em novembro, na capital paraense.

Ao longo de duas semanas, nosso time de jornalistas mostrou como indígenas Munduruku bloquearam a entrada do principal pavilhão do evento para forçar o governo brasileiro a debater projetos de grande impacto para comunidades tradicionais da Amazônia, como a construção da hidrovia no rio Tapajós, no Pará.

Nossa equipe também mostrou em primeira mão que faxineiros terceirizados das instalações em Belém eram obrigados a fazer suas refeições sentados no chão, ao lado da porta de sanitários. A reportagem de Hélen Freitas fez o Ministério Público do Trabalho cobrar explicações dos organizadores da COP30. No dia seguinte à publicação, os funcionários da limpeza foram alocados em um refeitório.

 

Documentário Pau D’Arco

Uma produção da Repórter Brasil e Amana Cine em coprodução com a RioFilme e lançaram em 2025 o documentário Pau

D’Arco. A produção acompanha os sobreviventes da chacina em que a polícia matou 10 trabalhadores sem-terra no Pará. A diretora e jornalista Ana Aranha acompanhou de perto a vida da principal testemunha do caso e do advogado do grupo, desde o dia da chacina em 24 de maio de 2017. O resultado foi o registro de fatos que indicam uma possível tentativa de encobrir o crime. O acompanhamento segue acontecendo mesmo após o lançamento do documentário. A produção do documentário e o debate sobre a chacina ocasionaram nos seguintes impactos:

  • Criação do assentamento e destinação da terra para reforma agrária como caso emblemático, a primeira desapropriação de terra por interesse público na Amazônia, realizada em razão da negativa dos proprietários de negociarem a área.
  • Em resposta à sensibilização feita pela campanha de impacto junto à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (PFDC-MPF) e Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), a PFDC- MPF fez uma representação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) acerca da morosidade no julgamento do processo criminal da chacina pelo TJPA.
  • Em resposta às cobranças feitas pelo MPF, junto com a equipe da campanha de impacto, o Tribunal de Justiça do Pará montou uma força tarefa convocando juízes auxiliares para dar andamento ao processo criminal da chacina, respondendo recursos da defesa e pendências e dando andamento ao processo que estava parado há
  • Ainda em resposta às cobranças feitas pelo MPF, junto com a equipe da campanha de impacto, o Ministério Público Estadual do Pará criou uma força-tarefa para monitorar os processos que tratam de violência no campo em todo o Com isso, promotores de Belém passam a monitorar casos de responsabilidade de promotores do interior.
  • Em resposta à sensibilização feita pela campanha de impacto, o Conselho Nacional de Direitos Humanos expediu um documento com recomendações específicas a diversos órgãos sobre os andamentos necessários sobre o caso da Entre elas, está a recomendação por um acordo de reparação e indenização para os sobreviventes da chacina.

 

Programa de Pesquisa

Ao longo de 2025, o Pesquisa Brasil, como é chamado o Programa de Pesquisa e Impacto Social da Repórter Brasil, manteve sua atuação central na produção de conhecimento aplicado sobre as conexões entre direitos humanos, meio ambiente e cadeias produtivas globais, combinando investigação jornalística, análise de dados,  monitoramento territorial e cooperação com organizações da sociedade civil, órgãos de Estado e universidades.

A metodologia, já consagrada, integrou cruzamento de bases públicas, pedidos via Lei de Acesso à Informação, trabalho de campo e rastreamento comercial, permitindo revelar mecanismos estruturais — muitas vezes invisíveis — que sustentam violações socioambientais por meio de fluxos financeiros, certificações, comércio internacional e políticas públicas.

 

RB Finanças

Uma nova plataforma de dados foi lançada, desta vez permitindo cruzamentos automáticos entre bases de dados ambientais e sociais com instrumentos privados de financiamento do agronegócio, como os Fiagros. Essa plataforma, chamada RB Finanças e construída com base em uma engenharia de sistemas que a permite atualização diária, se junta às outras plataformas de dados da Repórter Brasil que jogam luz sobre cadeias produtivas globais, de setores diversos como pecuária, soja, café e indústria do vestuário.

 

Investigações e produção de dados

Uma frente relevante de investigação abordou o papel do sistema financeiro no estímulo indireto ao desmatamento e a conflitos fundiários. Estudos demonstraram como crédito rural, seguro agrícola e investimentos continuavam alcançando propriedades com histórico de irregularidades ambientais ou trabalhistas, evidenciando lacunas de controle e rastreabilidade. Essas apurações subsidiaram campanhas de advocacy conduzidas por organizações como o Greenpeace Brasil, contribuindo para que o Banco do Brasil anunciasse critérios socioambientais mais rigorosos na concessão de financiamento agrícola.

Também foram aprofundadas análises sobre cadeias globais de commodities — café, carne, couro e leite — revelando vínculos entre fazendas com histórico de trabalho análogo à escravidão e grandes compradores ou intermediários comerciais. O trabalho, divulgado na forma de reportagens e do boletim Monitor, incluiu verificação de certificados de sustentabilidade, análise de notas fiscais, avaliação crítica de auditorias privadas e reconstrução de trajetórias produtivas que conectam territórios locais a mercados internacionais.

Outra linha investigativa examinou como mecanismos de gestão de risco, como seguros e resseguros, podem sustentar atividades associadas a violações socioambientais. Reportagens revelaram conexões entre apólices emitidas pela Swiss Re e propriedades com histórico de desmatamento e conflitos territoriais, demonstrando a necessidade de critérios ESG efetivos também no setor securitário.

Ao mesmo tempo, investigações sobre ouro ilegal rastrearam fluxos comerciais internacionais envolvendo a refinaria Italpreziosi, evidenciando como recursos extraídos de áreas de alta vulnerabilidade social, como territórios indígenas, podem ingressar em cadeias tecnológicas globais.

No campo institucional, o uso sistemático da LAI revelou fragilidades na transparência estatal. Questionamentos levaram o Banco Central a reconhecer limitações na divulgação de dados sobre crédito rural associado a infrações socioambientais, enquanto investigações sobre fraudes fundiárias motivaram a criação de grupo de trabalho no Incra. Em paralelo, reportagens subsidiaram debates legislativos que culminaram na aprovação de medidas de enfrentamento à mineração ilegal pela Câmara dos Deputados, demonstrando a influência do conhecimento produzido no aperfeiçoamento normativo.

A produção investigativa teve ainda forte dimensão internacional. Dados reunidos ao longo do ano contribuíram para relatórios de organizações estrangeiras, ações de devida diligência corporativa e iniciativas de responsabilização em cadeias produtivas. Empresas globais passaram a revisar fornecedores após denúncias públicas, e uma das maiores compradoras mundiais de alimentos, a Nestlé, excluiu produtores de programas de sustentabilidade e iniciou revisão de seus mecanismos de controle. Paralelamente, apurações sobre ouro, pecuária e biocombustíveis foram incorporadas a investigações institucionais, levando o Ministério Público Federal a instaurar procedimentos próprios com base nas evidências divulgadas.

No setor financeiro, questionamentos sobre investimentos associados a violações resultaram em reavaliações internas e suspensão de operações, inclusive por parte do BNDES, sinalizando maior integração entre critérios econômicos e socioambientais. Já no campo das certificações, o diálogo com a Bonsucro levou ao anúncio de auditorias mais rigorosas, com inspeções não anunciadas e maior escuta de comunidades locais, contribuindo para enfrentar críticas recorrentes de “greenwashing”.

No último trimestre do ano, o lançamento do relatório sobre biocombustíveis aprofundou o debate sobre transição energética justa ao demonstrar que políticas climáticas, quando desacompanhadas de salvaguardas sociais, podem reproduzir desigualdades históricas. O estudo articulou dados territoriais, análise de financiamento público e revisão de políticas setoriais, sendo repercutido por redes de pesquisa veículos especializados, o que ampliou o diálogo entre agendas ambiental, trabalhista e econômica.

Os efeitos observados ao longo de 2025 indicam que a circulação pública de informação qualificada desencadeou mudanças que ultrapassam o campo jornalístico: revisão de políticas de crédito, aprimoramento regulatório, abertura de investigações oficiais, ajustes em cadeias de fornecimento, fortalecimento de mecanismos de certificação e maior pressão social por transparência e rastreabilidade. As investigações passaram a ser utilizadas como insumos técnicos por órgãos de controle, pesquisadores, legisladores e empresas, transformando evidências em ações concretas de responsabilização.

Dessa forma, o trabalho desenvolvido no período demonstrou que a produção sistemática de dados, aliada à difusão estratégica do conhecimento, pode conectar realidades locais a dinâmicas econômicas globais e reduzir a distância entre compromissos públicos de sustentabilidade e práticas efetivas. Em 2025, a atuação do Pesquisa Brasil também reafirmou o papel do jornalismo investigativo como infraestrutura democrática de controle social, capaz não apenas de revelar violações, mas de induzir mudanças institucionais, econômicas e culturais em direção a cadeias produtivas mais transparentes, responsáveis e justas.

 

Articulação Institucional

É válido destacar que, do ponto de vista da articulação institucional, integrantes do programa permaneceram na coordenação da Aliança para os Direitos Humanos em Cadeias Produtivas e passaram a fazer parte do Laboratório de Inovação Financeira da Comissão de Valores Mobiliários, mais conhecido como CVM Lab.

 

ÁREA III: ARTICULAÇÃO

Através de seus Programas e de sua Diretoria, a Repórter Brasil participa ativamente de atividades e iniciativas com o objetivo de ampliar e aprofundar o combate ao trabalho escravo contemporâneo e ao tráfico de pessoas, juntamente com o enfrentamento a violações dos direitos socioambientais. Para tanto, a organização desenvolve uma estratégia de articulação com os mais variados atores, públicos ou privados, envolvidos nessas temáticas nos âmbitos municipal, estadual, nacional e internacional.

Atuamos para garantir a defesa dos direitos humanos e a dignidade de diversas populações, bem como buscamos evitar a utilização de justificativas sociais no erguimento de barreiras comerciais de natureza protecionista contra setores econômicos brasileiros no exterior. Nesse sentido, a organização tem contribuído com o desenvolvimento de políticas para a erradicação de um conjunto de violações econômicas, sociais e políticas.

Por meio de diálogos com empresas e associações empresariais, a organização atua no combate às violações aos direitos humanos em diferentes níveis. Apoiamos ações para a formação de atores públicos (como magistrados, auditores e procuradores), econômicos e sociais (como sindicatos). E, para além dos tradicionais diálogos em comissões que lidam com o tema e com os atores do campo, acompanhamos as tentativas de desmonte de políticas públicas relacionadas ao trabalho escravo e ao meio ambiente em Brasília.

A Repórter Brasil, com sua equipe fixa na capital federal, dialoga com membros do Legislativo, Executivo e de associações de classe, bem como fortalece vínculos com organizações sindicais de trabalhadores. Dessa maneira, as pesquisas e análises da Repórter Brasil puderam influenciar o debate sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro.

 

1. Internacional

Além da atuação institucional no Brasil, a Repórter Brasil participou de iniciativas internacionais de incidência voltadas à responsabilização corporativa e à sustentabilidade das cadeias produtivas. Em 2025, a organização integrou a campanha internacional Burning Legacy, que pressiona a empresa Cargill — uma das maiores operadoras globais do comércio de commodities agrícolas e a maior empresa em operação no setor da soja no Brasil — a aprimorar seus padrões de sustentabilidade e transparência. A campanha reúne organizações da sociedade civil de diversos países e tem como objetivo expor impactos socioambientais associados às operações da empresa, além de pressionar por compromissos mais robustos de combate ao desmatamento e de respeito aos direitos humanos nas cadeias produtivas. O contexto dessa mobilização tornou-se ainda mais desafiador após a decisão da empresa de se retirar da Moratória da Soja, acordo voluntário criado para evitar a comercialização de soja proveniente de áreas desmatadas na Amazônia. A saída da empresa estimulou a criação de novas articulações internacionais da sociedade civil voltadas à preservação e fortalecimento desse mecanismo.

A Repórter Brasil também integra o comitê diretor (steering committee) da Coalizão Florestas e Finanças, iniciativa internacional que busca pressionar instituições financeiras a adotarem critérios mais rigorosos de sustentabilidade em suas operações de crédito e investimento. A coalizão monitora o financiamento de atividades associadas ao desmatamento e incentiva bancos e investidores a adotarem políticas mais robustas de gestão de riscos socioambientais. A participação da Repórter Brasil nesse espaço fortalece o diálogo entre organizações da sociedade civil e o setor financeiro global, contribuindo para ampliar a responsabilização de atores econômicos envolvidos em cadeias produtivas associadas à degradação ambiental.

 

2. Outras atividades

2.1. Formações e incidência

Em 2025, a Repórter Brasil desempenhou um papel ativo em atividades de articulação institucional, incidência política e construção de políticas públicas voltadas à promoção dos direitos humanos, da justiça socioambiental e do trabalho decente. A organização atuou de maneira estratégica tanto na produção de conhecimento técnico quanto no diálogo direto com autoridades do Poder Executivo, Legislativo e do sistema de Justiça, além de participar de coalizões nacionais e internacionais voltadas ao aprimoramento de marcos regulatórios e práticas corporativas. Parte dessa atuação contou com o acompanhamento sistemático dos processos decisórios em Brasília, permitindo monitorar a formulação, implementação e revisão de leis e políticas públicas relevantes para os temas trabalhados pela organização.

Um exemplo significativo dessa atuação ocorreu no âmbito da construção da Política Nacional de Direitos Humanos e Empresas. Em agosto de 2025, a Aliança pelos Direitos Humanos em Cadeias Produtivas, rede da sociedade civil coordenada pela Repórter Brasil, elaborou uma nota técnica analisando a minuta da política em elaboração pelo governo federal. O documento reuniu evidências, recomendações e preocupações da sociedade civil sobre mecanismos de responsabilização corporativa e proteção de direitos humanos nas cadeias produtivas. Como resultado direto dessa iniciativa, a Casa Civil da Presidência da República agendou, em setembro de 2025, uma reunião em Brasília especificamente para ouvir as contribuições da Aliança e de outras organizações da sociedade civil sobre o conteúdo da política. A reunião representou uma importante abertura de diálogo institucional com o governo federal em torno de um instrumento regulatório estruturante. A Repórter Brasil teve papel central nesse processo ao coordenar a articulação da Aliança, liderar a elaboração da nota técnica e mobilizar organizações da sociedade civil para participar do debate, garantindo que evidências produzidas por organizações independentes pudessem influenciar diretamente a formulação da política pública.

Outra frente relevante de incidência institucional ocorreu no acompanhamento do projeto de lei que criou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovado pela Câmara dos Deputados em 17 de julho de 2025, em um contexto de tensão política entre o Congresso Nacional e o Poder Executivo. Após a aprovação do projeto, a Presidência da República sancionou a proposta em agosto do mesmo ano, mas apresentou 63 vetos a dispositivos considerados problemáticos. Diante desse cenário, abriu-se uma nova etapa de disputa política no Congresso Nacional, responsável por analisar a manutenção ou derrubada dos vetos presidenciais. Nesse contexto, a Repórter Brasil realizou uma série de ações de monitoramento e mobilização junto a parlamentares e frentes legislativas, com o objetivo de preservar os vetos e evitar retrocessos em marcos regulatórios socioambientais. Entre as iniciativas realizadas, destacam-se reuniões integrantes da Frente Parlamentar Mista Ambientalista, além da elaboração de uma nota de posicionamento técnico sobre o tema. O documento foi produzido em português e traduzido para o inglês, ampliando o alcance da mobilização e permitindo que organizações internacionais também acompanhassem o debate. A nota foi enviada a organizações da sociedade civil, frentes parlamentares e a todos os deputados e senadores antes da sessão do Congresso que analisaria os vetos presidenciais. Apesar da mobilização realizada, em 27 de novembro de 2025 o Congresso Nacional decidiu derrubar 56 dos 63 vetos apresentados pelo Executivo, transformando integralmente a proposta em lei.

A organização também atuou no debate público sobre o combate ao garimpo ilegal e à mineração ilegal em territórios protegidos. Em 2025, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que eleva as penalidades para a prática de mineração ilegal, com foco especial em atividades realizadas em terras indígenas. Essa medida vinha sendo destacada pela Repórter Brasil como uma prioridade no enfrentamento ao crime ambiental desde 2022. Ao longo dos anos anteriores, a organização contribuiu para consolidar o tema na agenda pública por meio de reportagens, análises e entrevistas com lideranças indígenas e especialistas. Em 2023, a organização também publicou uma análise listando essa proposta entre nove medidas prioritárias para combater o garimpo ilegal no país. A aprovação do projeto pela Câmara representou, portanto, um avanço em relação a uma pauta que vinha sendo consistentemente defendida pela organização em suas atividades de incidência e jornalismo investigativo.

 

2.2 Imprensa, pesquisa e sociedade civil

Ainda no campo do combate à mineração ilegal, uma série de reportagens publicadas pela Repórter Brasil contribuiu para desencadear iniciativas institucionais voltadas ao controle da cadeia de equipamentos utilizados no garimpo. Em julho de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou que estava estruturando ações para monitorar a cadeia de escavadeiras hidráulicas no país. A iniciativa surgiu como resposta direta a denúncias que revelaram como esses equipamentos de alto custo vinham sendo utilizados em atividades de mineração ilegal em áreas protegidas, incluindo terras indígenas na Amazônia. As escavadeiras hidráulicas têm ampliado significativamente o potencial de destruição ambiental dessas atividades, tornando o garimpo ilegal mais mecanizado e impactante. A proposta da AGU inclui a criação de mecanismos de rastreabilidade e responsabilização envolvendo fabricantes e revendedores desses equipamentos. A atuação jornalística da Repórter Brasil teve papel relevante ao revelar a dinâmica da cadeia de fornecimento dessas máquinas e evidenciar lacunas regulatórias que permitem seu uso em atividades ilegais.

No campo do sistema de Justiça, a Repórter Brasil também passou a integrar o Observatório do Trabalho Decente do Poder Judiciário (OTD), iniciativa criada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com o objetivo de apoiar a formulação da Política Judiciária Nacional de Promoção do Trabalho Decente. A instalação do observatório reuniu representantes do Judiciário, do mundo do trabalho, da academia e da sociedade civil, com a missão de assessorar o CNJ em pesquisas, diagnósticos e propostas de políticas públicas relacionadas ao tema. A participação da Repórter Brasil nesse espaço institucional reforça o reconhecimento da organização como referência na produção de conhecimento e na incidência sobre violações de direitos trabalhistas, incluindo trabalho escravo contemporâneo, trabalho infantil e outras formas de exploração laboral. O observatório busca promover o diálogo entre diferentes setores da sociedade e fortalecer o papel do Poder Judiciário na promoção da justiça social e da dignidade no trabalho.

 

3. Desinformação e notícias falsas

Em 2025, o curso “Vaza, Falsiane!” — curso online de combate à desinformação incubado na ONG Repórter Brasil e criado pelos docentes Leonardo Sakamoto (PUC-SP), Rodrigo Ratier (USP) e Ivan Paganotti (USP) — fez parte de um grupo de iniciativas de educação midiática que se uniu em acordo de cooperação com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom). Com essa parceria, o governo federal pode usar materiais didáticos do curso, que estão disponíveis online gratuitamente, para atividades de educação e combate à desinformação e discurso de ódio online em diversas escolas na rede pública brasileira.

Além disso, em 2025 o “Vaza, Falsiane!” também foi incluído no Mapa Brasileiro da Educação Midiática, lançado pela Secom. Assim, o curso se soma a mais de duzentas iniciativas nacionais, mapeadas a partir de uma ampla consulta com especialistas nos meses anteriores, com apoio da Unesco.

O Mapa Brasileiro da Educação Midiática está disponível para consulta online. As informações do curso “Vaza, Falsiane!” neste mapeamento estão disponíveis na página sobre o curso neste levantamento.

 

4. Lançamento do livro

Com o apoio da Repórter Brasil, foi lançado o livro “O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho”, de Leonardo Sakamoto, presidente da organização, e Carlos Juliano Barros, gerente da área de jornalismo, reunindo textos publicados por ambos tanto na organização quanto no portal UOL. O objetivo da publicação é pautar, junto aos trabalhadores, à imprensa e à sociedade, os desafios para o trabalho nesta quadra histórica. O livro, da editora Alameda, já foi lançado em eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Florianópolis, Maceió e Fortaleza, reunindo centenas de pessoas e gerando notícias na imprensa.

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