EXTRAÍDO NA FLORESTA amazônica, ao lado de uma área indígena, o estanho da Mineração Taboca já chegou até as cadeias produtivas da Tesla, do bilionário Elon Musk, e da Toyota nos Estados Unidos. A mineradora de origem brasileira, atualmente controlada por um grupo estatal da China, é investigada pelo MPF (Ministério Público Federal) pela possível poluição de um rio na Terra Indígena Waimiri Atroari, no Amazonas.
Um igarapé que alimenta o Alalaú, principal rio do território, estaria contaminado por chumbo e arsênio, entre outras substâncias perigosas, segundo uma análise química encaminhada pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) ao MPF no Amazonas.
Os resultados do laudo sobre a água e os sedimentos fizeram os procuradores retomar uma investigação que se arrasta há cinco anos sobre a potencial relação entre a atividade minerária e a poluição no território.
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“A contaminação existiu, isso é inegável. Preciso investigar se há nexo causal entre a atividade da empresa e esses eventos”, afirma André Porreca Ferreira Cunha, procurador do MPF-AM.
Em nota à Repórter Brasil, a Taboca afirma que “não há evidências que indiquem nexo de causalidade” da contaminação com suas operações e diz que o relatório de análises químicas “apresenta lacunas metodológicas que comprometem a reprodutibilidade de informações, além de inconsistências técnicas, o que demanda aprofundamento para conclusão definitiva”. Veja detalhes abaixo e leia aqui a manifestação na íntegra.
Empresa também é habilitada para fornecimento a gigantes de tecnologia
Maior produtora de estanho refinado do Brasil, a Taboca opera desde 1982 a Mina de Pitinga, uma das maiores áreas de mineração na Amazônia, localizada na divisa com a terra indígena.
O território dos Waimiri Atroari havia sido identificado em 1971 e, à época, incluía a área onde hoje atua a mineradora. Em 1981, porém, um decreto presidencial retirou 526 mil hectares dos limites da terra indígena em favor da atividade mineral. A homologação da terra só ocorreu em 1989.
Em 40 anos de atuação, a Mineração Taboca tornou-se um importante fornecedor global de estanho, metal usado como uma espécie de “cola” na soldagem de componentes eletrônicos. Suas exportações foram estimadas em R$ 1,4 bilhão em 2024.
Seus produtos incluem também os minerais nióbio e tântalo e são reconhecidos no mercado internacional, com certificações de mineração responsável. A empresa é habilitada para fornecer para gigantes de tecnologia, como Amazon, Apple, Microsoft, Samsung e Nvidia. E já forneceu ligas metálicas para montadoras de carros como Tesla e Toyota, conforme dados alfandegários acessados pela reportagem.
Desde o início das investigações do MPF, em maio de 2021, a Taboca realizou pelo menos 515 envios de produtos de estanho, tântalo e nióbio para empresas na China, Estados Unidos, Espanha, Marrocos, Japão, entre outros.
As descobertas são resultado de uma investigação da Repórter Brasil, em parceria com a Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center), sobre os impactos da mineração sobre povos tradicionais da Amazônia, com foco nos minerais essenciais à indústria da tecnologia.
Quando as investigações do MPF começaram, a Taboca era controlada pela companhia peruana Minsur. Em 2024, a mineradora foi comprada por uma estatal chinesa, a China Nonferrous Metal Mining Group, por R$ 1,9 bilhão (US$ 340 milhões).
A empresa foi questionada pela Repórter Brasil se comunicou seus clientes, parceiros e investidores sobre as suspeitas de contaminação de águas pela mina de Pitinga, mas não respondeu à pergunta. A reportagem também procurou a estatal chinesa, que não retornou até o fechamento do texto.
A reportagem esteve na terra indígena em outubro de 2025 e ouviu 22 membros da comunidade. Eles relatam que a poluição do rio teria se intensificado desde março de 2021, com aparição de peixes e tartarugas mortas, além de manchas de sujeira na água.
“Antigamente era limpo, hoje não presta mais. Fico preocupada como o meu neto vai se alimentar se o rio está poluído, contaminado”, lamenta Mee Atroari, anciã que vive na aldeia Teweri.

A respeito de alterações na qualidade da água relatadas por indígenas, a nota da mineradora à Repórter Brasil informa que o tema “já foi analisado anteriormente pelas autoridades competentes, que expressamente afastaram a existência de relação com suas atividades”. Leia a manifestação na íntegra.
O posicionamento afirma ainda que os novos relatos de indígenas sobre a potencial contaminação do rio Alalaú “são objeto de estudos que demandam aprofundamento e continuidade de análise técnica, diante da existência de inconsistências entre os dados primários que não permitem uma conclusão assertiva”.
A nota emitida pela Taboca afirma ainda que a mineradora mantém uma relação de “diálogo, respeito e cooperação” com os Waimiri Atroari.
Estanho saiu da floresta amazônica para as fábricas da Tesla

O caminho do estanho até a Tesla começa na Mina de Pitinga, em Presidente Figueiredo (AM), onde acontece a exploração da cassiterita, matéria-prima do estanho.
Na sequência o mineral segue para beneficiamento na unidade de processamento da mineradora em Pirapora do Bom Jesus (SP), onde é refinado e convertido em ligas metálicas. De lá, a carga vai para o porto de Santos (SP).
Em janeiro de 2023, um carregamento de 75 toneladas de lingotes de estanho saiu do Brasil para o porto de Roterdã, na Holanda, segundo dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil. Os registros detalham a data, o produto, a quantidade e o destino das cargas. A compradora era a empresa eslovaca U-Shin Slovakia S.R.O., uma fabricante de peças automotivas, como fechaduras, maçanetas e painéis de controle, posteriormente comprada pela multinacional Minebea Mitsumi Inc, de origem japonesa.
Entre março de 2023 e novembro de 2025, os documentos de comércio exterior mostram que a empresa teria enviado 17 carregamentos de peças elétricas para a Tesla, nos Estados Unidos. As cargas saíram do porto de Antuérpia, na Bélgica, e chegaram à Pensilvânia.
Não é possível confirmar se as peças fornecidas à Tesla continham o estanho extraído na Amazônia brasileira. No entanto, o insumo entrou na linha de produção da fabricante na Eslováquia e, a partir dali, pode ter sido incorporado a produtos destinados à montadora e a outros clientes.
A Repórter Brasil questionou a U-Shin Slovakia sobre a existência de mecanismos de controle que permitam rastrear se o estanho da Taboca foi usado nas peças enviadas à Tesla. A empresa não respondeu.
Para o procurador do MPF Fernando Merloto Soave, empresas que se beneficiam de insumos ao longo de uma cadeia produtiva também têm responsabilidade sobre sua origem. “Seja uma empresa de roupas ou uma grande empresa de veículos, elas podem ser responsabilizadas pelas irregularidades ao longo da cadeia produtiva”, afirma Soave, um dos responsáveis pelo inquérito sobre as atividades da Taboca.
A Tesla é uma gigante da tecnologia com faturamento de US$ 94,8 bilhões em 2025 (cerca de R$ 500 bilhões). A empresa aposta em produtos como robôs, baterias, painéis solares e veículos elétricos.
A política global de direitos humanos da companhia de Elon Musk cobra providências de todos os envolvidos na cadeia produtiva, incluindo fornecedores indiretos. Em relação aos povos indígenas, a empresa espera que seus fornecedores “reduzam quaisquer impactos negativos sobre as comunidades locais, incluindo fatores ambientais, sociais, culturais e outros relacionados à qualidade de vida.”
O código de conduta inclui ainda um item sobre poluição: “as emissões e descargas de poluentes, bem como a geração de resíduos, devem ser minimizadas ou eliminadas”.
A Tesla foi procurada por meio de contatos de e-mail disponíveis em sua página, mas não retornou. O espaço segue aberto a manifestações.

Estanho da Amazônia chegou até a Toyota no Japão e EUA
O grupo Toyota também adquiriu ligas metálicas da Mineração Taboca, de acordo com os dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil.
A gigante japonesa da indústria automobilística comprou pelo menos 150 toneladas de estanho diretamente da mineradora entre maio de 2022 e julho de 2023, após o início das investigações do MPF.
Do porto de Santos, as cargas partiram de navio para os portos de Yokohama, no Japão, e Baltimore, em Maryland (EUA), onde a Toyota tem uma instalação portuária.
A montadora possui um “guia de sustentabilidade para fornecedores” com um item específico sobre o manejo de substâncias químicas. De acordo com o documento, os fornecedores devem “cumprir as leis e regulamentações pertinentes de cada país e região e manejar as substâncias químicas (eliminação e redução do uso, por exemplo)”. Qualquer problema que viole as diretrizes do guia deve ser “reportado imediatamente”, segundo o código de conduta.
Procurada pela reportagem por meio de contatos de e-mail no Brasil e no exterior, a Toyota não respondeu.

Big techs listam Mineração Taboca em sua cadeia de suprimentos
O estanho extraído e refinado pela Taboca é valorizado no mercado internacional. O produto é registrado na Bolsa de Metais de Londres sob a marca “Mamoré”. O mineral e o tântalo da empresa também são classificados como “em conformidade”, de acordo com diretrizes da Responsible Minerals Initiative, iniciativa global que reúne empresas e organizações para promover práticas de mineração responsáveis.
Além disso, a mineradora recebeu, em outubro de 2025, a certificação Tin Code Assurance, um programa internacional de auditoria de empresas produtoras de estanho.
O nome da Taboca também consta de listas de grandes empresas de tecnologia, como Amazon, Apple, Microsoft, Samsung e Nvidia, como potencial fornecedora de minerais.
Empresas de capital aberto nos Estados Unidos são obrigadas a informar à Comissão de Valores Mobiliários do país, a SEC (Securities and Exchange Commission), quem são os seus potenciais fornecedores de ouro, tungstênio, tântalo e estanho.
Essas substâncias são consideradas “minerais de conflito”, por causa do histórico de violência associado a sua exploração. Por essa razão, as empresas têm de protocolar anualmente um “relatório sobre minerais de conflitos”. Esse documento é ancorado no guia da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), cujo objetivo é “ajudar as empresas a respeitar os direitos humanos e evitar contribuir para conflitos por meio de suas práticas de obtenção de minerais”.

A inclusão nessas listas, no entanto, não significa que o estanho ou o tântalo da Taboca tenham sido efetivamente utilizados nos produtos das big techs, nem comprova relação comercial direta. Os próprios relatórios indicam que as empresas se baseiam em informações fornecidas por seus fornecedores e que os minerais dessas entidades “podem ter sido usados” na cadeia produtiva.
Todas as empresas foram procuradas pela Repórter Brasil. A Amazon disse que monitora riscos sociais e ambientais ligados a minerais de alto risco, como estanho e tântalo, em seu programa de minerais responsáveis.
“Continuaremos engajando com nossos fornecedores e parceiros da cadeia de suprimentos sobre mecanismos de fornecimento responsável de minerais, incluindo mecanismos de auditoria e certificação de fundições”, diz a nota. Leia na íntegra aqui.
As demais big techs citadas não responderam até a publicação da reportagem.

Em meio a investigações, China planeja dobrar produção de estanho no Brasil
O interesse crescente por minerais considerados estratégicos para a transição energética vem ampliando a pressão sobre a Terra Indígena Waimiri Atroari. O território é cercado por 62 requerimentos minerários voltados aos chamados minerais críticos, segundo dados do Observatório da Transição Energética, plataforma que monitora impactos de empreendimentos ligados à geração de energia renovável sobre terras protegidas e comunidades tradicionais. Mais da metade desses pedidos — 33 processos — foi apresentada nos últimos cinco anos, entre 2021 e 2025.
Os requerimentos foram protocolados por 31 empresas, das quais apenas a Mineração Taboca possui projetos em operação. Além do estanho, as companhias buscam outros minerais associados à transição energética, como bauxita (alumínio), cobre, tântalo e tungstênio.
Enquanto cresce o interesse minerário no entorno da terra indígena, a própria Taboca planeja expandir suas atividades no Amazonas. A empresa anunciou neste ano investimento de R$ 523 milhões.
Esse movimento ocorre em meio ao fortalecimento de políticas públicas para ampliar a extração de minerais críticos. Em junho de 2025, o BNDES abriu uma chamada para apoiar projetos de minerais associados à “transição energética e descarbonização”. A Mineração Taboca foi uma das contempladas pelos investimentos, que podem chegar a R$ 5 bilhões para 53 mineradoras.
A planejada expansão da Taboca também se insere em uma nova onda de investimentos chineses em projetos minerais na América Latina. A compra da Taboca pela estatal chinesa CNMC, há menos de dois anos, faz parte dessa estratégia, que tem priorizado minas já em operação.
“As relações entre a América Latina e a China têm sido fortemente ‘mineralizadas’, porque há uma demanda cada vez maior de minerais da China na América Latina. E uma das razões é que a China é o líder indiscutível da transição energética”, explica Marco Gandarillas, pesquisador sênior da LAS (Latinoamerica Sustentable), organização que analisa investimentos chineses na América Latina. Em 2024, 35% das exportações de minerais brasileiros (US 23,5 bilhões) tiveram a China como destino, segundo levantamento da LAS.
“O capital chinês está se diversificando de uma maneira geral no setor da mineração e os minerais críticos são um desses vetores”, complementa o geógrafo Luiz Jardim Wanderley, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).

A preferência da China, explica Wanderley, é em projetos já estruturados considerados “ativos imediatos”, que não precisam passar por longos processos de viabilidade econômica e licenciamento ambiental. “O que tem nos surpreendido é a compra de projetos com muito passivo ambiental, o que chamamos de ‘ativos podres’, do ponto de vista dos danos ambientais e conflitos. A Taboca é um deles”, ressalta o geógrafo.
Marco Gandarillas, da LAS, também vê esse movimento com preocupação. “A demanda é por recursos minerais e ponto. O que as empresas querem é matéria-prima e muitas vezes a exploração desses minerais acarreta impactos irreversíveis sobre o meio ambiente”, ele diz. O pesquisador cita a exploração dos recursos hídricos, a contaminação de ecossistemas e os conflitos com comunidades locais como efeitos colaterais das atividades minerárias.
A CNMC tem diretrizes para a proteção ao meio ambiente. No relatório de sustentabilidade mais recente, destaca que suas subsidiárias devem ter medidas para controlar as emissões de poluentes, desperdício de água e resíduos sólidos gerados ao longo das etapas de mineração, beneficiamento e fundição. O documento é referente a 2024, quando a estatal chinesa iniciou o processo de aquisição da Taboca
Em outros países, a estatal tem enfrentado casos que vão na contramão dos seus compromissos ambientais. Em fevereiro de 2025, por exemplo, um vazamento de rejeitos tóxicos de uma barragem do grupo na Zâmbia provocou a morte de peixes e impactos na saúde da população.
“Como vai se comportar o capital chinês na Amazônia brasileira, na relação direta com os povos indígenas? Como eles vão atuar em relação a áreas sensíveis?”, questiona Márcio Santilli, ex-presidente da Funai e presidente do ISA (Instituto Socioambiental).
A CNMC foi procurada pela Repórter Brasil, mas não retornou. O espaço segue aberto a manifestações.

*colaboração Fernanda Buffa e Ella Beiser, do Pulitzer Center

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