Indígenas relatam novas suspeitas de contaminação de rio por mineradora no AM

Fiscalização da Funai afirma que manchas de poluição teriam partido da área de atuação da Mineração Taboca, maior produtora de estanho do Brasil; investigada desde 2021 por possível contaminação na Terra Indígena Waimiri Atroari, empresa diz não haver provas conclusivas
Por Isabel Harari | Edição Diego Junqueira

UMA NOVA ONDA de rejeitos minerários pode ter atingido rios da Terra Indígena Waimiri Atroari, vizinha a uma das maiores minas a céu aberto do país, operada pela Mineração Taboca, em Presidente Figueiredo (AM).

Após fortes chuvas atingirem a região no início do mês, os Waimiri Atroari observaram manchas de lama descendo por um igarapé que passa pela área de mineração e deságua na terra indígena.

Em ações de fiscalização ambiental realizadas na semana passada, em conjunto com a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), os Waimiri notaram ainda um “odor forte” no Igarapé Tiaraju e no rio Alalaú, o principal da terra indígena.

As operações observaram “considerável aumento de enlameamento das águas” e também “odor muito forte nelas”, o que “afetou a respiração dos integrantes das equipes”, causando “ardência ao respirar e coceira na pele”. Situação semelhante já havia sido registrada em fevereiro.

As informações constam em ofício enviado na última quarta-feira (8) pelos Waimiri Atroari ao MPF-AM (Ministério Público Federal no Amazonas). O documento foi anexado ao inquérito civil que investiga se a Mineração Taboca é responsável pela contaminação de rios na terra indígena.

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A investigação do MPF avançou no ano passado, após análise química da água detectar traços de chumbo, arsênio e outras substâncias potencialmente perigosas no igarapé que alimenta o Alalaú. O caso foi revelado pela Repórter Brasil na série de reportagens “Kinja: o povo indígena com medo do rio”, em parceria com a Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center).

Há mais de 40 anos na região, a Mineração Taboca é a maior produtora de estanho refinado do país, metal usado na produção de ligas metálicas, e abastece a cadeia produtiva de empresas como Toyota e Tesla.

No alto, o encontro do Igarapé Tiaraju com o rio Alalaú, rios de águas escuras, em imagem de outubro de 2025; acima, imagem feita pelos indígenas no mesmo local, em abril de 2026, mostra o Tiaraju com águas barrentas alguns metros antes do encontro com o rio Alalaú (Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil/Out.2025 - Reprodução/ACWA/07.04.26)
No alto, o encontro do Igarapé Tiaraju com o rio Alalaú, rios de águas escuras, em imagem de outubro de 2025; acima, imagem feita pelos indígenas no mesmo local, em abril de 2026, mostra o Tiaraju com águas barrentas alguns metros antes do encontro com o rio Alalaú (Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil/Out.2025 - Reprodução/ACWA/07.04.26)
No alto, o encontro do Igarapé Tiaraju com o rio Alalaú, rios de águas escuras, em imagem de outubro de 2025; acima, imagem feita pelos indígenas no mesmo local, em abril de 2026, mostra o Tiaraju com águas barrentas alguns metros antes do encontro com o rio Alalaú (Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil/Out.2025 – Reprodução/ACWA/07.04.26)

Procurada, a Taboca negou relação da suposta mancha de poluição com as suas atividades minerárias e destacou o alto volume de chuvas na região no início de abril. “A empresa esclarece que não houve registro de lançamento de lama, sedimentos ou rejeitos, tampouco qualquer falha operacional ou anormalidade em suas estruturas. Os parâmetros de qualidade da água, incluindo turbidez, permanecem dentro dos limites estabelecidos pela legislação aplicável”, afirmou a empresa, em nota à Repórter Brasil (leia na íntegra). 

A respeito dos registros de poluição em fevereiro, a Taboca disse que enviou técnicos para uma vistoria na área. “As informações foram reportadas aos representantes indígenas por registro formal, ocasião em que não foram identificadas anomalias”. 

Em relação à investigação do MPF, a mineradora declarou em março que “não há evidências que indiquem nexo de causalidade” da contaminação verificada nos anos anteriores com suas operações. Disse ainda que o relatório de análises químicas “apresenta lacunas metodológicas que comprometem a reprodutibilidade de informações, além de inconsistências técnicas, o que demanda aprofundamento para conclusão definitiva”. A manifestação está disponível na íntegra neste link.

Indígenas temem contaminação de peixes, principal alimento da comunidade

“O Tiaraju está morto, realmente está sujo aqui”, comenta Sanapyty Atroari, em um vídeo gravado durante a expedição nos rios, na semana passada. 

“A nossa preocupação não é de hoje. Queremos que isso melhore”, pede Sanapyty, em entrevista à Repórter Brasil. Nos episódios anteriores, os kinja encontraram peixes mortos no curso do rio, além de tartarugas e peixes-boi. 

“Tiaraju está morto”, descreve Sanapyty Waimiri a situação do rio em abril (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

A Repórter Brasil esteve na terra indígena em outubro de 2025 e ouviu o relato de 22 membros da comunidade. Os indígenas têm evitado beber a água do rio e até tomar banho no Alalaú. Além disso, vêm relatando mudanças no aspecto dos peixes, que estariam mais “magros, pálidos e amarelados”. “O peixe vai acabar. E se o peixe acabar, o nosso povo acaba”, alerta a anciã Akynamy Atroari.

“Apesar de estarem em curso medidas de investigação e estudos das causas específicas e seus impactos, até a presente data não houve qualquer solução que possa tranquilizar e garantir à comunidade Waimiri Atroari a segurança no uso tradicional da água e do alimento (peixes) que dela sempre tiraram”, diz o ofício da última quarta, assinado pela ACWA (Associação Comunidade Waimiri Atroari).

Terra Indígena Waimiri Atroari está cercada por requerimentos de minerais críticos, como mostram dados da Agência Nacional de Mineração cruzados pelo Observatório da Transição Energética (Infografia: Rodrigo Bento/Repórter Brasil)
Terra Indígena Waimiri Atroari está cercada por requerimentos de minerais críticos, como mostram dados da Agência Nacional de Mineração cruzados pelo Observatório da Transição Energética (Infografia: Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

Há 40 anos os kinja denunciam a devastação do território

Os kinja convivem há mais de quatro décadas com a devastação do seu território. A população quase foi dizimada na década de 1970, durante a construção da BR 174. Anos depois, sofreria os impactos da instalação da hidrelétrica de Balbina — o reservatório da usina alagou parte da terra indígena, deslocando um terço da população.

Em 1982, teve início a exploração da mina de Pitinga, instalada pela Taboca em uma área considerada de uso tradicional pelos kinja. A operação só foi possível após um decreto presidencial reduzir a terra indigena, retirando as áreas de exploração mineral.

Na época, a Taboca fazia parte do grupo Paranapanema e, desde então, convive com suspeitas de poluição. 
“A Taboca joga sujeira do Pitinga, e isso vem causando muita doença (…) quando nosso povo come peixe, fica doente”, diz uma carta de 1986, assinada por duas lideranças indígenas. Um ano depois, o rompimento de nove barragens virou manchete no jornal Folha de S.Paulo: os rejeitos atingiram os rios Alalaú e Tiaraju, “que com suas águas turvas ameaçam a flora e a fauna da Amazônia”.

‘Quando a Taboca chegou não fomos consultados. Só vimos quando já estava dentro e não entendemos nada’, lembra Maikon Atroari, liderança da aldeia Maikon (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)
‘Quando a Taboca chegou não fomos consultados. Só vimos quando já estava dentro e não entendemos nada’, lembra Maikon Atroari, liderança da aldeia Maikon (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

‘Quando a Taboca chegou não fomos consultados. Só vimos quando já estava dentro e não entendemos nada’, lembra Maikon Atroari, liderança da aldeia Maikon (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Na nota enviada à Repórter Brasil em março, a Taboca afirmou que “a gestão à época era de outra companhia, não havendo qualquer vínculo com a atual administração”. Após ser gerida por duas décadas pelo grupo peruano Minsur, a Taboca foi comprada em 2024 pela estatal chinesa China Nonferrous Metal Mining Group. 

O temor da comunidade hoje é que a atividade minerária se intensifique na região, em razão da corrida pelos minerais críticos. A Terra Indígena Waimiri Atroari está cercada por 62 requerimentos de minerais essenciais para as indústrias bélica, de tecnologia e de energia renovável, como mostram dados da Agência Nacional de Mineração, cruzados pelo Observatório da Transição Energética

Mais da metade desses pedidos — 33 processos — foi apresentada nos últimos cinco anos, entre 2021 e 2025. Os requerimentos foram protocolados por 31 empresas, das quais apenas a Mineração Taboca possui projetos em operação. Além da cassiterita (matéria-prima do estanho), a empresa explora também tântalo e nióbio e estuda extrair elementos de terras raras.

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Em outubro de 2025, a Repórter Brasil foi até o igarapé Tiaraju, rio que atravessa o complexo minerário da Taboca e deságua no Alalaú, principal curso d’água da Terra Indígena Waimiri Atroari e fonte de alimento da comunidade (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
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