Medo de contaminação de rio por mineradora volta a assombrar indígenas no AM, 40 anos após primeiras denúncias

Ministério Público Federal retoma investigação após análise detectar metais pesados em igarapé que alimenta o principal rio da terra indígena Waimiri Atroari, no Amazonas; Mineração Taboca é a maior produtora do país de estanho refinado, insumo que chega às cadeias produtivas da Toyota e da Tesla
Por Isabel Harari | Fotos Fernando Martinho | Edição Carlos Juliano Barros

DA TERRA INDÍGENA WAIMIRI ATROARI (AM) — Akynamy não bebe mais a água do rio e prefere tomar banho no chuveiro alimentado por um poço, mesmo com o Alalaú correndo em frente à sua aldeia. “Tenho medo de banhar no rio, está poluído e sujo”, lamenta a anciã. 

O relato é cada vez mais comum entre os kinja, como se autodenominam os indígenas do território Waimiri Atroari, entre o Amazonas e Roraima. Eles são vizinhos da Mineração Taboca, responsável por uma das maiores jazidas a céu aberto do país. 

A empresa atua desde 1982 em Presidente Figueiredo (AM) e hoje é a maior produtora de estanho refinado do Brasil — metal que chega até as cadeias produtivas de gigantes da indústria automobilística, como a Toyota e a Tesla.

O receio de Akynamy não é à toa. Um igarapé que alimenta o Alalaú, principal rio da terra indígena, estaria contaminado por chumbo e arsênio, entre outras substâncias perigosas, segundo um relatório de agosto de 2025 com análises químicas da água encaminhado pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) ao MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas.

Produzido pela startup de biotecnologia Aqua Viridi, o laudo afirma que a presença de metais na água e nos sedimentos do rio representa uma “ameaça imediata” aos indígenas e ao meio ambiente. O documento foi acessado em primeira mão pela Repórter Brasil — a apuração foi realizada com apoio da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center. 

Os resultados fizeram o MPF retomar uma investigação que se arrasta há cinco anos sobre a possível relação entre a atividade minerária e a contaminação na terra indígena. “As informações enviadas pela Funai  demonstram que há um efetivo impacto no território”, afirma Fernando Merloto Soave, procurador do MPF lotado em Manaus.

Os kinja convivem há mais de quatro décadas com a devastação do seu território. O temor agora é de que os riscos se espalhem: uma nova corrida mineral se instala na Amazônia em razão da transição energética, aumentando a pressão sobre os Waimiri Atroari, cuja população quase foi dizimada na década de 1970, durante a construção da BR 174.

A Mineração Taboca aposta na exploração de cassiterita (matéria-prima do estanho) tântalo, nióbio e estuda extrair elementos de terras raras. Esses minerais têm despertado cada vez mais interesse das indústrias bélica e de tecnologia no mundo todo — tanto que, em 2024, a mineradora foi comprada pela China Nonferrous Metal Mining Group, uma estatal do país asiático. 

E a perspectiva é de crescimento. Em janeiro de 2026 a empresa anunciou um investimento de US$ 100 milhões (R$ 523 milhões na cotação atual) para dobrar a sua produção no Amazonas e atender a demanda global pelos chamados “minerais críticos”.

Akynamy vive na aldeia Xará, nas margens do rio Alalaú: “se acabar peixe o nosso povo acaba” (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)
A terra indígena Waimiri Atroari tem cerca de 95 aldeias, pelo menos 25 utilizam diretamente as águas do rio Alalaú (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

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Procurada pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa da Taboca emitiu uma nota informando que a mineradora mantém há anos uma relação de “diálogo, respeito e cooperação” com os Waimiri Atroari. 

Em relação à retomada das investigações pelo MPF-AM sobre a potencial contaminação das águas, o posicionamento afirma que, “até o momento, não há evidências que indiquem nexo de causalidade com suas operações”.

O posicionamento afirma ainda que o relatório de análises químicas feito pela Aqua Viridi, e encaminhado pela Funai ao Ministério Público Federal, “apresenta lacunas metodológicas que comprometem a reprodutibilidade de informações, além de inconsistências técnicas, o que demanda aprofundamento para conclusão definitiva”.

A íntegra da nota da Mineração Taboca pode ser lido neste link. Outros trechos estão distribuídos ao longo desta reportagem.

População na terra indígena Waimiri Atroari supera 2,3 mil pessoas (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)
(Mapa: Rodrigo Bento/ Repórter Brasil)

Território indígena também foi impactado por construção da BR-174 e da hidrelétrica de Balbina

A mina de Pitinga foi instalada em uma área considerada tradicional pelos kinja, após um decreto presidencial reduzir parte da terra indígena para viabilizar a exploração das jazidas. As atividades da empresa tiveram início em 1982, quando a Taboca fazia parte do grupo Paranapanema –  anos depois, surgiram as primeiras denúncias de poluição do rio. 

“A Taboca joga sujeira no Pitinga, e isso vem causando muita doença (…) quando nosso povo come peixe, fica doente”, diz uma carta de 1986, assinada por duas lideranças indígenas. Um ano depois, em 1987, o rompimento de nove barragens virou manchete no jornal Folha de São Paulo: os rejeitos atingiram os rios Alalaú e Tiaraju, “que com suas águas turvas ameaçam a flora e a fauna da Amazônia”. 

(Imagem: Reprodução/ Folha de São Paulo)

A conturbada relação com a Taboca é só mais um capítulo da longa história de conflitos enfrentados pelos Waimiri Atroari. Nos anos 1970, antes da instalação da mina, uma estrada atravessou o território dos indígenas. A BR-174 foi aberta com apoio do Exército Brasileiro e provocou violência e epidemias, levando a um drástico impacto sobre a população: de uma estimativa de 1,2 mil indivíduos em 1974, a população foi reduzida a 374 após a finalização das obras. 

Pouco depois, ainda nos anos 1980, o reservatório da usina hidrelétrica de Balbina alagou parte da terra indígena, deslocando um terço da população. A promessa de uma linha de transmissão de energia conectando Manaus a Boa Vista também pressionou os kinja – a obra foi finalizada em 2025. 

“Como está a água que os Waimiri Atroari bebem hoje? Como vai ser para a próxima geração? Se antes eles foram mortos por tiros e bombas, hoje o risco pode ser uma contaminação, câncer, malformação fetal? Há indícios de contaminação”, diz o procurador Fernando Merloto Soave, do MPF. 

Na nota enviada à Repórter Brasil, a assessoria de imprensa da Mineração Taboca informa que, “em relação a menções a fatos ocorridos nas décadas de 1970 e 1980, a empresa esclarece que a gestão à época era de outra companhia, não havendo qualquer vínculo com a atual administração”.

Vista aérea da BR-174 cortando a floresta e o Rio Alalaú dentro da TI Waimiri Atroari (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)
O território dos kinja enfrentou sucessivos empreendimentos econômicos: a BR-175, a exploração de minério pela Mineração Taboca, a hidrelétrica de Balbina e o Linhão de Tucuruí (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Temor de poluição do rio volta a assombrar indígenas

Décadas depois das primeiras denúncias sobre a poluição no Alalaú, o tema voltou à tona em 2021. Naquele ano, fortes chuvas atingiram a região e provocaram o transbordamento de rejeitos da mineração. 

Os kinja contam que avistaram uma mancha de poluição amarelo-alaranjada no rio, com espuma e cheiro ruim. Também dizem ter encontrado tartarugas e peixes mortos, e passado a se queixar de diarreia e coceira na pele. 

Após esse episódio, os indígenas fizeram uma série de expedições por conta própria ao longo do rio e prepararam ofícios descrevendo os problemas para o MPF. A ponte com o órgão foi feita pela Frente de Proteção Etnoambiental Waimiri Atroari, um grupo de trabalho especial da Funai.

“Eu vi essa poluição no rio”, conta Pera Atroari, da aldeia Karypa, próxima aos limites da terra indígena e da área de mineração. Em 2021, ela e outras mulheres estavam em busca de buriti quando se depararam com peixes mortos. “Fiquei com muito medo. Se estamos consumindo esse peixe, será que nossa saúde está bem?”, questiona.

Naquele ano, o MPF no Amazonas abriu dois inquéritos civis para investigar a possível contaminação e recomendou a suspensão do despejo de rejeitos nas barragens e estruturas onde ocorreu o transbordamento.

A Taboca chegou a ser autuada pelo Ipaam (Instituto De Proteção Ambiental Do Amazonas), órgão estadual, em R$ 2 milhões por “provocar poluição ambiental em corpos hídricos”. 

Além das cavas onde ocorre a exploração dos minérios, a mina de Pitinga possui tanques de decantação, estruturas que foram mineradas no passado e hoje são cobertas com água (Foto: ACWA)

A empresa também firmou um termo de cooperação com os indígenas para a construção de poços artesianos nas aldeias e medidas de reforço na alimentação. “Foi uma medida paliativa de natureza emergencial para atender o povo, que não podia mais comer”, explica Harilson Araújo, advogado do Programa Waimiri Atroari, que presta assessoria às comunidades.

Em 2024, no entanto, o MPF voltou atrás e acatou a argumentação da Taboca e de um relatório do Ipaam e da ANM (Agência Nacional de Mineração), alegando que o vazamento de rejeitos teria sido consequência das chuvas na região, sem responsabilidade da mineradora. 

Em nota à Repórter Brasil, a Taboca reforça o argumento: “À época, análises técnicas, a partir de vistorias em campo, conduzidas pela ANM e pelo Ipaam concluíram que os eventos decorreram exclusivamente de chuvas intensas e atípicas que atingiram a região, não havendo relação com as atividades da empresa”. 

Os inquéritos foram arquivados e a multa de R$ 2 milhões aplicada anteriormente pelo próprio Ipaam, revogada.  

Um ano depois, o caso teve uma reviravolta com a conclusão da análise feita pela Aqua Viridi. Os indígenas, que sempre contestaram o argumento da mineradora, exigiram a realização de um laudo independente sobre a contaminação do rio. A startup foi escolhida pela associação dos Waimiri Atroari, mas paga pela própria Taboca.  

Com os resultados da análise química em mãos, o MPF retomou a investigação. “A mineração gera um impacto expressivo em uma comunidade que já vive em condições vulneráveis”, justifica o procurador do MPF André Porreca Ferreira Cunha, responsável pela frente da investigação que analisa os possíveis danos ambientais . “A contaminação existiu, isso é inegável. Preciso investigar se há nexo causal da atividade da empresa e esses eventos”, complementa.

Manchas de poluição chegaram até a aldeia Alalaú, a mais de 100 km da mina de Pitinga. Preocupados, os kinja fizeram uma série de expedições para encontrar a origem da sujeira (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Laudo aponta metais pesados em área de influência direta da mineração

A análise feita pela Aqua Viridi, que fez o MPF reabrir as investigações, mostra que os maiores índices de contaminação foram registrados em uma área próxima ao complexo minerário da Taboca, perto do limite com a terra indígena. 

Ali foram encontradas concentrações críticas de chumbo e zinco nos sedimentos do igarapé Tiaraju. O curso d’água atravessa a planta industrial e deságua no rio Alalaú, já dentro do território dos Waimiri Atroari. A análise também detectou níveis preocupantes de arsênio, cádmio, ferro, alumínio e manganês, suficientes para causar “risco ambiental”. 

“Queremos saber o que está acontecendo. É perigoso, porque [o igarapé] cai no nosso rio, [a poluição] está dentro do nosso limite também” conta Sanapyty Atroari, liderança dos Waimiri Atroari. 

O chumbo é altamente  tóxico. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, não existe limite seguro de exposição ao metal. A substância também foi encontrada em menor quantidade no rio Alalaú dentro da terra indígena, assim como arsênio, manganês, cádmio, ferro e alumínio.

Os indígenas têm evitado beber a água do rio. Além disso, vêm relatando mudanças no aspecto dos peixes, que estariam mais “magros, pálidos e amarelados”, de acordo com a anciã Akynamy. “O peixe vai acabar. E se o peixe acabar, o nosso povo acaba”, teme. 

Vista aérea do ponto de encontro das águas do Rio Alalaú com o Igarapé Tiaraju, afluente do rio Alalaú. O Igarapé Tiaraju é o que passa pela mineração Pitinga da Taboca (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)
Igarapé Tiaraju atravessa o complexo minerário da Taboca e deságua no Alalaú, o rio principal da terra indígena: “A água estava diferente, muito suja e fedendo”, descreve Sanapyty (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

A análise da Aqua Viridi aponta como “provável” a correlação entre a atividade minerária e a contaminação por metais pesados. O estudo, no entanto, ressalta que é preciso realizar mais análises para encontrar a fonte de contaminação. 

Na opinião do professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) de Miguel Felippe, no entanto, não há dúvidas. “Fica muito claro que o complexo minerário está contaminando os cursos d’água”, crava o especialista em hidrogeomorfologia.  

“As barragens estão voltadas para a terra indígena. A partir do momento que choveu e transbordou, isso vai atingir os cursos d’água e a rede de drenagem vai ser toda contaminada”, explica. 

A “estrada do estanho” foi construída pela Mineração Taboca para escoar sua produção (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Os indígenas relatam que a mancha de poluição fica mais evidente na época das chuvas, entre dezembro e maio. “Quando chove corremos mais risco”, diz Watximiri Atroari, agente de saúde indígena com mais de dez anos de atuação na região. 

A nota da Mineração Taboca enviada à Repórter Brasil sustenta que “os novos relatos são objeto de estudos que demandam aprofundamento e continuidade de análise técnica, diante da existência de inconsistências entre os dados primários que não permitem uma conclusão assertiva”.

O laudo da Aqua Viridi também detectou mercúrio em oito das 29 espécies de peixes analisadas. Usado em garimpos ilegais de ouro, o mercúrio pode permanecer no meio ambiente por diversos anos.

Não é possível, no entanto, atribuir a contaminação à Taboca, já que a empresa “não utiliza e jamais utilizou mercúrio em qualquer etapa de seu processo produtivo”, segundo o posicionamento oficial da empresa.

A companhia também menciona um estudo científico independente “cujos resultados preliminares indicam que a presença do elemento na região está associada a características naturais dos solos amazônicos”. Leia a nota e acesse o estudo na íntegra. 

Por fim, a empresa ainda reforça que faz a destinação de seus insumos “em conformidade com a legislação ambiental vigente”  e “mantém monitoramento ambiental contínuo por meio de consultorias independentes e credenciadas, em linha com todas as exigências regulatórias aplicáveis”.

‘Resíduos tóxicos são um fator adicional de risco à saúde’, diz médica

A terra indígena Waimiri Atroari tem cerca de 95 aldeias. Desse total, pelo menos 25 utilizam diretamente as águas do rio Alalaú. O temor diante da possível contaminação tomou conta das aldeias de ponta a ponta do território. “Não quero beber essa água, vocês [não indígenas] também não bebem. Somos iguais, não queremos água poluída”, diz Arybehiri, da aldeia Arykawa.

Estabelecer uma associação direta entre a exposição a metais pesados na água e o adoecimento das populações indígenas não é uma tarefa simples, principalmente se a exposição se dá a longo prazo e em pequenas doses.

“Enquanto esse processo produtivo estiver ali [a mineração], há um cenário de potencial exposição crônica dessas substâncias para a população”, alerta o biólogo Francco Antônio Lima, doutor em saúde pública vinculado à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). 

A médica Carmen Fróes, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica que a exposição não redunda necessariamente em doenças, como câncer, “mas pode alterar a capacidade de desenvolvimento daquelas populações. Os resíduos tóxicos são um fator adicional de risco à saúde”, ressalta.

A água e os peixes podem ser uma via direta de contaminação, mas a própria atividade minerária representa riscos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. 

Apesar de metais como chumbo, arsênio e zinco não serem utilizados no processo de extração de cassiterita – da forma como o mercúrio é usado para separar o ouro, por exemplo –, eles podem ser encontrados naturalmente em meio às rochas. Quando ocorre o processamento mineral, essas substâncias, que encontravam-se estáveis no subsolo, acabam migrando para a superfície. 

“A região é marcada pela lavra de cassiterita e tantalita, cujos processos de extração e beneficiamento envolvem a exposição e movimentação de rochas  naturalmente mineralizadas com metais pesados”, destaca o relatório da Aqua Viridi. 

O professor Miguel Felippe, da UFJF, faz avaliação semelhante. “Os sedimentos vão liberando esses compostos lentamente, fazendo com que a ameaça à população seja constante ao longo do tempo”, explica o professor Miguel Felippe, da UFJF.

Os Waimiri Atroari exigem uma resposta para um problema que os assombra há 40 anos. Liderança da comunidade, Warakaxi Atroari já denunciava a poluição do rio em 1990: “a Mineração Taboca está poluindo o rio, quer acabar com o índio?”, protestou em um seminário na Universidade do Amazonas para debater o impacto de grandes empreendimentos sobre o povo indígenas.

Mais de quatro décadas depois, a preocupação segue a mesma – agora mais urgente. “Eu sou kinja, preciso de água limpa não só pra mim, mas para todos os bahinja [crianças], para os netos. Temos que procurar uma solução”, finaliza Warakaxi.

“Nós somos daqui, aqui que está nossa história, principalmente no rio Alalaú”, diz Warakaxi Atroari (Foto: Fernando Martinho/ Repórter Brasil)

Esta reportagem contou com apoio da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center. Saiba mais.

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